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16/09/2007

Amor moderno: como me transformei em uma madrasta

The New York Times
De Maria Dahvana Headley
Eu me apaixonei, contra todos os conselhos, por um pai. Robert tinha dois filhos adoráveis, um menino e uma menina. Eles tinham 6 e 9 anos, com pequenas cabeças loiras, grandes olhos azuis e cílios tão longos que pareciam postiços. Aos amigos, eu me referia a eles como 'crianças de propaganda'.

David Chelsea/The New York Times 
' Os filhos de Robert nunca me amariam realmente, como alertou uma amiga?'

Quando comecei a sair com Robert, ele estava legalmente separado, no início do que seria uma odisséia de dois anos -da arbitragem à negociação e daí ao divórcio-, mas apesar disto, eu e as crianças nos demos espetacularmente bem.

Ao menos foi assim enquanto eu morava em Nova York e eles moravam em Seattle, quando nos víamos apenas durante as raras visitas de fim de semana que eu fazia ao pai delas.

Eu as considerava 'seres a serem conquistados com toda minha força', então preparava biscoitos, fazia esculturas em argila e lia contos de fadas para elas, tentando me convencer de que aquelas histórias sobre madrastas malvadas (e as histórias igualmente traumatizantes sobre enteados do mal) foram inventadas para desencorajar relacionamentos substitutos e assim impedi-los de afetar o equilíbrio do universo.

Uma amiga minha, ela própria produto de pais divorciados e uma madrasta, me alertou que os filhos de Robert nunca realmente me amariam, ou caso viessem a amar, isto só aconteceria quando tivessem mais de 20 anos e passado por anos de terapia. Até hoje, ela me disse, ela se referia a sua madrasta como "stepmonster" (madrasta monstra).

Eu ri. Ela estava tão enganada.

Dois anos depois, quando a menina e o menino estavam com 11 e 8 anos, e os pais tinha oficialmente se divorciado com um acordo de custódia compartilhada, eu empacotei minhas 15 caixas de livros, aluguei um apartamento em Seattle e atravessei o país para ficar com Robert, convencida, na tenra idade de 23, que ser madrasta era algo natural para mim. Ninguém tinha chutado minha canela. Ninguém tinha me mordido. Eu e o menino até mesmo montávamos blocos juntos. Eles eram pequenos; por que não nos daríamos bem? Eu não podia imaginar um motivo.

Eu tinha a idéia de que assim que conquistasse o coração das crianças, eles permaneceriam conquistados. Eu não imaginava o segredo da verdadeira paternidade/maternidade substituta: é preciso continuar conquistando seus corações a cada manhã, e a toda noite, pelo menos durante os primeiros cinco anos. E mesmo nesta altura, o menor deslize devolve você à entrada de um labirinto cheio de armadilhas.

Durante nosso primeiro jantar juntos, quando Robert ergueu sua taça para brindar minha chegada, o menino se virou adoravelmente em sua cadeira.

"Quando você vai embora?" ele perguntou.

"Não vou", eu disse, esperando uma comemoração. Afinal, eu trouxe fantoches e doces na minha bolsa. Certamente eu era a adulta favorita de todos. "Não é ótimo? Eu nunca mais vou embora!"

O menino, alarmado, olhou para sua irmã, que cerrou os olhos na minha direção.

"O que você quer dizer com nunca mais?" ela perguntou.

Eu ri; mas eu estava enganada
Então ela me informou que achava que eu era uma "colega de trabalho" do pai dela. O menino, descontente em descobrir que eu não fui importada apenas como amiga para ele, decidiu que se eu não era amiga dele, eu não era amiga de ninguém.

Ele não estava errado. Eu deixei toda minha vida para trás em Nova York e as únicas pessoas que eu conhecia em Seattle eram Robert e seus filhos. Agora, dois terços deles começaram a me odiar, com o terço restante sendo forçado a constantemente mudar sua agenda para impedir que eu e as crianças nos encontrássemos. Quando jantávamos ou assistíamos a um filme juntos, eu me sentava o mais distante possível das crianças e, mesmo assim, podia senti-las destilando seu veneno.

Não é culpa delas, eu lembrava a mim mesma, elas eram apenas crianças. A propósito, aparentemente eu também era uma criança. Eu cerrava meus dentes para me conter em devolver o veneno, assim como me via arfando.

Eu sempre me vi como uma boa pessoa, do tipo que nunca teria pensamentos homicidas; do tipo que, ao preparar sanduíches de pasta de amendoim para os filhos do namorado, repentinamente não se veria desejando que tivessem alergia a amendoim.

Eu me perguntei se não devia sair totalmente de tal relacionamento, antes de arruinar a vida de todos. Os três eram uma família. Eu não pertencia a ela. No que eu estava pensando?

A tensão se tornou óbvia para todos. O menino, que há muito já tinha abandonado seu 'blankie' (o cobertor de conforto), voltou a adotá-lo aos 8 anos, após minha chegada, e o cobertor se tornou uma presença perpétua, abraçado à mesa de jantar, desejado aos prantos na hora de dormir, um símbolo do estrago que eu estava causando na psique da família.

É lógico que eu não era a única causa de estresse ou preocupação em suas vidas; eles suportaram o trauma do divórcio e estavam se ajustando às dificuldades da custódia compartilhada.

A nova 'madrasta monstra'
Todavia, eu meu estado magoado e imaginei que todo este comportamento era culpa minha. Quando caminhávamos juntos na rua, o menino com seu cobertor, eu imaginava os estranhos pensando: "Ah, a madrasta malvada. Não é de se estranhar que o coitado do menino voltou a se agarrar ao cobertor. É seu único conforto".

Foi preciso algum tempo para entender que tinha oficialmente me tornado a 'madrasta monstra'. Em um espasmo de alegria certa tarde, eu me referi ao menino como "colega". Ele apertou o cobertor e me fitou com um olhar gélido.

"Eu preferiria que você não me chamasse disso", ele disse, com o músculo em sua mandíbula contraído. Ele era um menino formal.

"Seja paciente", me disse Robert. "Seja a pessoa doce que sempre foi."

Infelizmente, eu não tinha nenhuma doçura que pudesse acessar. Meu coração estava azedo. Se recusaram a me amar? A mim? Como ousam?

Eu nem mesmo os amava, apesar deste ser um reconhecimento vergonhoso. Eu imaginei que assim que me mudasse para Seattle, meu coração cresceria em tamanho. Pareceu-me razoável, dado o começo feliz, que me veria transbordando de amor.

Mas seis meses depois meu coração tinha murchado. O critério básico de amor incondicional me era esquivo. Eu não conseguia achar meu caminho em meio à floresta da hostilidade deles para abraçá-los. Eu me esforçava para confortá-los quando acordavam de pesadelos. Como poderia ajudá-los a suportar uma dor de barriga? Eu mal conseguia vesti-los e colocá-los na cama.

Eu disse a mim mesma que eles não eram o problema. O símbolo de todo nosso descontentamento, a coisa que sugava todo o amor de nossa casa, era o cobertor. Ele brilhava, repleto de todo o amor do menino, não deixando nada para as outras pessoas. Em meu estado confuso, eu considerei razoável concluir que se aquele pedaço de tecido desaparecesse, tudo voltaria a ser como deveria.

A princípio eu pensei em seqüestrar o 'blankie' e posteriormente, após um período de espera apropriado, encontrá-lo milagrosamente. Eu visualizava meu desfile triunfal, carregando o cobertor, trombetas, o sol reluzindo entre nuvens, as lágrimas de alegria do menino, seu abraço e a declaração de que eu era sua pessoa favorita em todo o mundo.

Eu X o cobertor
Então comecei a pensar que a própria existência do cobertor era o problema, mantendo o amor do menino como refém; ele certamente era capaz disto, apesar de ser fino e frágil.

Não importa. O cobertor não era páreo para mim. Eu o cobriria com um saco plástico, o levaria para um local remoto e me livraria dele. Não é preciso dizer, ninguém jamais descobriria sobre o assassinato do cobertor.

Na noite do seqüestro, saí de fininho da cama de Robert, onde segundo as crianças eu não deveria dormir, e avancei sorrateiramente pelo corredor. A porta do menino estava aberta, sua lâmpada noturna brilhando.

Mas já havia complicações. Duas horas antes, ele me pediu para lhe contar uma história de ninar, a primeira vez que o fez, e eu divaguei, insegura do meu talento como narradora até que ele caiu no sono, uma sobrancelha ainda erguida em suspeita.

Agora, enquanto estava ao lado de sua cama, observando o montinho que era meu quase-enteado, com o cobertor abraçado junto ao peito, eu me lembrei da atenção com que ouviu minha lamentável tentativa de contar uma história, como me fazia perguntas à medida que a história progredia e lembrava de detalhes que eu já tinha esquecido. Ele parecia confiar que minha história o ajudaria a dormir e que eu chegaria ao final sem me atrapalhar -mais confiança do que eu tinha em mim mesma.

Eu senti uma angústia. Não exatamente de culpa. Eu tinha racionalizado que a perda do 'blankie' seria melhor para o menino: sem humilhação no acampamento, sem a necessidade de esconder o cobertor no fundo do saco de dormir.

Um sentimento irracional e desconcertante
Esta angústia era algo diferente. Eu tinha me resignado de nunca amaria meus enteados, assim como tinha desistido da idéia de que me amariam. Eu imaginei que o melhor que conseguiríamos seria uma convivência educada e pacífica. Mas ali estava ele. O amor. Irracional. Impossível. Desconcertante.

Eu me virei e voltei para o lado de Robert, deixando o cobertor, meu adversário, para trás.

O menino, atualmente com 15 anos, já tem mais de 1,80 m e não poderia ser mais diferente de uma criança carregando um cobertorzinho. A garota acabou de entrar para a faculdade. Antes de partir, nós tiramos férias em família na Grécia, onde nós quatro nos divertimos juntos em mesas de bar e o garoto pedia minha opinião sobre as garotas na praia.

"Aquela garota é demais", ele sussurrava, de forma deslumbrada, atormentada. "E aquela também. E aquela. Como todas as garotas na Grécia são maravilhosas?"

O cobertor ainda está vivo. Mais ou menos. Há alguns anos ele teve o destino de todas as coisas adoradas da infância, encaixotado sem cerimônia e guardado no sótão juntamente com os fantoches que trouxe para seduzir as crianças, as fotos de Natal em que olhávamos desconfiadamente uns para os outros e o restante da parafernália de nossos primeiros anos de aprendizado sobre vivermos juntos.

Agora as fotos felizes superam em número as demais: minha enteada usando um dos meus vestidos, meu enteado usando uma camisa que herdei do meu avô; Robert e eu olhando surpresos para estas crianças, que eram tão pequenas e agora são quase adultas. E pelo fato de nós ainda estarmos aqui, juntos.

Para mim, o critério básico do amor incondicional não é mais questionado: eu os ajudei durante dores de barriga e corações partidos, assim como eles me ajudaram durante minhas enxaquecas e a morte repentina de meu pai. Eu preparei seus bolos de aniversário e brindei suas formaturas e apresentações. Agora, quando nos abraçamos, eu não temo chutes na canela.

A certa altura, sem qualquer evento catalisador específico -sem que qualquer um de nós percebesse- nós nos tornamos uma família. George El Khouri Andolfato

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