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16/09/2007

Viagem pela Amazônia: uma aventura por hotéis de redes mundiais com nomes em inglês

The New York Times
De Larry Rohter*
Estávamos numa canoa amarrada a uma árvore submersa, pescando piranha nas águas escuras do rio Negro, a cerca de 200 Km a noroeste de Manaus, norte do Brasil. Era fim de tarde, e o sol já começava a cair atrás de nuvens brancas maciças, tingindo-as com tons de roxo, rosa e dourado. De repente um golfinho veio à superfície a menos de três metros de distância, traçou um arco gracioso no ar e voltou a desaparecer na água.

 Lalo de Almeida /The New York Times 
Conforto, no meio da floresta: a Amazônia como pano de fundo para uma mesa de jantar

Naquela noite, de volta à Anavilhanas Jungle Lodge, minha base para aquela incursão pela maior floresta tropical do mundo, o jantar -sopa de cebola com batatas-doces fritas, um peixe amazônico chamado dourado preparado em molho de gengibre, filé mignon e pudim de coco- não dava indícios do nosso entorno rústico. Nem a cabana com ar-condicionado onde eu dormi, com seus elegantes lambris de madeira tropical e um banheiro moderno com azulejos. Na manhã seguinte, procurei alívio do calor sufocante e da umidade na piscina da pousada, de onde vi barcos de todos os tamanhos e formas subirem e descerem o rio com seus motores fazendo "pu-pu-pu".

Não muito tempo atrás, as opções para os visitantes da região Amazônica brasileira eram limitadas: um vôo até Manaus, hospedagem no Tropical Manaus Hotel nas redondezas da cidade e passeios diurnos às margens da floresta.

Mas as coisas mudaram, felizmente. Reagindo ao crescimento internacional do turismo ecológico e de aventura, nos últimos quatro ou cinco anos surgiram pousadas por toda a região. Hoje os viajantes que buscam o exótico e toleram o imprevisível podem agendar uma estada na selva com a expectativa de, senão luxo, pelo menos um grau razoável de conforto.

(Mas não se surpreenda quando vir avisos como este, colocado nos quartos do Tiwa Amazonas Ecoresort, na margem do rio em frente a Manaus: "Aviso: é proibido usar o chuveiro e o ar-condicionado ao mesmo tempo!")

Existem no mínimo meia dúzia desses novos hotéis -uma espécie de alojamento que eu não teria imaginado quando comecei a viajar pela Amazônia 30 anos atrás, muitas vezes dormindo em choupanas sujas com piso de terra a US$ 3 por noite. A maior concentração deles está no rio Negro, a norte e oeste de Manaus, onde o ácido tânico que escurece as águas, dando nome ao rio, inibe a procriação de mosquitos, por isso os visitantes não precisam se preocupar tanto com malária, dengue ou outras doenças típicas tropicais.

E mais hotéis estão surgindo. O mais ambicioso é um complexo de 102 quartos do grupo francês Accor, em construção perto da estrada para a cidade de Novo Airão, que deverá ser inaugurado em 2010 e será o primeiro hotel de uma rede internacional de luxo realmente na selva; a companhia Hilton também anunciou planos de construir um "eco-lodge resort" de 196 quartos perto de Novo Airão.

Por enquanto, porém, o Anavilhanas Jungle Lodge, que abriu em fevereiro, é o exemplo mais novo e talvez mais chique do fenômeno pousada na selva.
Dirigida por um casal de São Paulo, ela fica num barranco sobre o rio Negro, à vista da Estação Ecológica de Anavilhanas, uma reserva natural do governo que inclui o maior arquipélago fluvial do mundo, com mais de 400 ilhas e centenas de lagos e igapós -palavra indígena que significa floresta inundada. Surpreendentemente rica em vida animal e vegetal, a área da reserva, que foi designada sítio do Patrimônio Mundial da Unesco, é impoluta e inabitada.

Qualquer que seja sua localização, as hospedarias tendem a seguir um certo padrão no que se refere a passeios. De manhã, por exemplo, antes que o calor fique sufocante demais, é de rigor uma caminhada na natureza; vi nessas andanças todo tipo de macacos, araras e tucanos, para não falar em preguiças e tamanduás. Excursões à tarde para pescar piranhas dão o direito de mais tarde contar façanhas, que deliciaram meu filho adolescente quando o levei comigo numa viagem à Amazônia alguns anos atrás.

Depois do jantar é costume voltar aos barcos para caçar o crocodilo do Amazonas conhecido como jacaré. Mas em vez de levar armas ou lanças os guias vão armados de poderosas lanternas que congelam os répteis e possibilitam retirar os mais jovens da água para que os hóspedes possam passar a mão sobre suas carapaças frias e rugosas.

Todas elas podem organizar uma excursão para você ver o "encontro das águas", o ponto a sudeste de Manaus onde as águas escuras do rio Negro convergem com as do outro grande tributário do Amazonas, o Solimões.

Parei ali pelo menos uma dúzia de vezes e nunca deixei de me admirar como os dois grandes rios, notavelmente diferentes em cor e temperatura, se chocam com tal força e volume que parecem lutar um contra o outro.

Assim como cada hotel também tenta oferecer algo que seus concorrentes não têm.

Por exemplo, a Amazon Ecopark Jungle Lodge, a 40 minutos de Manaus, é famosa por sua "Reserva Selva dos Macacos". Aqui, macacos peludos, alguns confiscados de contrabandistas, outros feridos, são monitorados em um centro de reabilitação no terreno da pousada.

Na Anavilhanas Jungle Lodge, um grupo de mais de uma dúzia de botos, ou golfinhos pardos, aparece diariamente para ser alimentado na vizinha Novo Airão. Uma lancha da hospedaria leva os hóspedes até um restaurante flutuante ao lado do cais principal, onde uma anaconda mascote circula entre os clientes e bebe cerveja gelada ou refrigerante. Enquanto estávamos numa balsa ligada ao restaurante, os golfinhos circulavam, pondo seus longos focinhos para fora da água para apanhar pedaços de peixe atirados a eles, ou roubar merendas de peixe de turistas bastante intrépidos para entrar na água.

"Se deixássemos, os botos passariam o dia inteiro aqui, só comendo", diz Marisa Grangeiro de Almeida, cuja família dirige o restaurante. "Mas a agência ambiental e os cientistas da universidade definiram horas certas para alimentá-los."

A Avanilhanas Jungle Lodge também tem regras estritas em relação aos guias que emprega. A maioria das pousadas conta com autônomos que vêm de Manaus. A Anavilhanas só contrata moradores, o que é muito vantajoso para os visitantes. Meu guia, Célio Silva Nascimento, não apenas conhecia os melhores lugares para pescar e sabia navegar os difíceis braços do rio, que surgem e desaparecem conforme a estação, como também tinha conhecimento detalhado da flora e fauna locais, por mais obscuros que fossem.

Isso é importante porque a abundância de vida silvestre que se vê pode ser atordoante, especialmente quando nos afastamos de Manaus. Nunca vi tantos pássaros, por exemplo, como dois anos atrás na Pousada Uacari, que se situa dentro da reserva natural de Mamiraua, a 560 Km a oeste de Manaus, na confluência dos rios Solimões e Japurá. Assustados pelo ruído de nossa lancha, enormes bandos de garças brancas e azuis, mergulhões, gaviões, macucos, flamingos, socós, gaviões-pescadores e jacus levantavam vôo enquanto navegávamos pelo igarapé -um afluente estreito.

CAMINHADA PELA NATUREZA
Lalo de Almeida /The New York Times
A piranha...
Lalo de Almeida /The New York Times
... o filhote de jacaré...
Lalo de Almeida /The New York Times
... e o macaco: algumas das espécies 'incluídas' no roteiro dos visitantes
Como várias das novas estalagens da região, a Pousada Uacari não fica em terra, mas sobre jangadas flutuantes numa curva do rio. Aqui os hóspedes podem ver a vida silvestre com uma proximidade incrível. Depois de anoitecer, por exemplo, pude ver jacarés -alguns de até 2,5 m- com seus olhos brilhando como lanternas cor-de-laranja; alguns deles chegavam assustadoramente perto, batendo no cais e fazendo rosnados queixosos, uma sinfonia que continuou noite adentro.

Há até uma pousada que fica literalmente no alto das árvores. A Ariau Amazon Towers, inaugurada em 1987 e recentemente ampliada e modernizada, fica a duas horas de barco a noroeste de Manaus. Uma das mais antigas e certamente a maior das pousadas na selva, já foi visitada por celebridades como Bill Gates e a rainha e o rei da Espanha. Seus 269 quartos ficam entre as copas das árvores, a até 20 metros acima do rio, e são ligadas entre si e ao restaurante e às áreas comuns por passarelas aéreas.

Só conheço uma hospedaria que pode afirmar que se localiza no próprio rio Amazonas. O Amazon Riverside Hotel aproveita ao máximo essa distinção, oferecendo excursões para ver o sol nascer de um farol de navegação construído pelos ingleses há um século, no meio do rio; ela também tem uma trilha natural que leva a um posto de observação no alto de um morro, com vista abrangente da selva e do rio, e colocou redes no cais para os hóspedes que não querem fazer nada além de ver o rio passar.

Só para lembrar aos hóspedes onde eles estão, a área de recepção da Amazon Riverside, construída ao redor de uma lagoa, exibe os grandes crânios de um jacaré adulto e de uma onça, o jaguar brasileiro, cheia de dentes. Junto à área de refeições há uma série de jarros com os restos em conserva de alguns animais encontrados no terreno do hotel ou próximo: cobras venenosas, escorpiões e aranhas, incluindo uma caranguejeira gigante.

Os donos da Amazon Riverside são membros da florescente comunidade japonesa de Manaus, que migrou para a região quase um século atrás para trabalhar nas plantações de juta e pimenta. A família Tsuji atende turistas japoneses, o que se reflete num cardápio inovador que inclui pratos como sashimi de tambaqui, um apreciado peixe amazônico, e tempura de quiabo e abóbora.

A pesca de piranha lá foi extraordinária. Numa tarde de domingo me aventurei numa pequena lancha com um casal da região de Tóquio, Satoshi Tatsumi e Kazuko Ito, e em menos de duas horas apanhamos quase duas dúzias de piranhas, a maior das quais levamos para o hotel e comemos num saboroso ensopado. Havia tantas piranhas que Satoshi, um instrutor de artes marciais que estava com o braço engessado devido a uma lesão sofrida numa competição, conseguia pescá-las só com uma das mãos, usando uma vara de bambu e pedacinhos de carne como isca.

Muitas pousadas organizam visitas às casas de pessoas que vivem nas proximidades, na margem do rio em casas geralmente sobre palafitas.
Conhecidos em português como caboclos, termo equivalente a caipira, ou mais respeitosamente como ribeirinhos, eles têm rendas limitadas e pouco contato com o resto do Brasil. Se você nunca viu látex líquido sendo assado num espeto sobre uma fogueira para se transformar em borracha, ou se você não sabe como a mandioca é transformada na farinha dourada que é um dos pratos principais da Amazônia, faça um desses passeios.

Mas, às vezes, há um elemento de exploração que eu acho incômodo. O Amazon Riverside Hotel paga às famílias ribeirinhas que são visitadas por seus hóspedes, mas outras hospedarias não. Quando visitei outra pousada, fui levado à casa de Iraci Cantuária dos Santos, a matriarca de 67 anos de uma família de oito pessoas. Perguntei a ela se ganharia algo pela nossa visita.

Ela respondeu: "Só se vocês comprarem alguma coisa", e apontou para as ervas e animais esculpidos em madeira à venda.

Para os ribeirinhos, todos os visitantes parecem incrivelmente ricos. Mas o luxo, é claro, é um conceito relativo. A realidade é que é tremendamente difícil e caro trazer combustível, alimentos e outros suprimentos de barco, e nenhuma pousada amazônica que visitei poderia se classificar como um "resort cinco-estrelas".

Afinal, você está no meio da selva amazônica, e suas acomodações, por mais que possam carecer de imponência, seriam invejadas pelos primeiros exploradores europeus da região. Eles vieram em busca do "El Dorado" e encontraram um "inferno verde". Felizmente, o viajante do século 21 tem outras opções.

*O jornalista Larry Rohter, que acaba de completar oito anos e meio como chefe da sucursal do "The New York Times" no Rio de Janeiro, está de licença, escrevendo um livro Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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