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17/09/2007

No debate sobre o Iraque, o destino de uma empresa

The New York Times
De Nelson D. Schwartz
Em toda guerra há vencedores e perdedores -militares, políticos e, com certeza, financeiros. E a guerra no Iraque, atualmente no seu quarto ano, não é diferente. Exceto pelo fato de uma das maiores beneficiadas do setor empresarial não ser uma gigantesca empreiteira militar e tampouco uma companhia do setor de defesa, e sim uma pouco conhecida fabricante de cerâmicas especiais chamada Ceradyne, que experimentou um aumento de dez vezes do valor das suas ações desde o início da guerra.

 Monica Almeida/The New York Times 
Estar 'no lugar certo, na hora certa' pode render à Ceradyne lucro de US$ 1 bi até 2010

A companhia criou um nicho para si fornecendo os coletes leves à prova de balas que protegem os soldados de ameaças que não foram previstas quando a guerra começou, como insurgentes armados com bombas instaladas à beira das estradas e balas capazes de penetrar blindagens.

As placas de cerâmica da Ceradyne pesam menos que a metade das placas de aço convencionais, possibilitando uma melhor mobilidade aos soldados. A companhia, fundada há 40 anos e cuja sede fica próxima a Los Angeles, está vendendo 25 mil unidades por mês ao Pentágono.

"Esses sujeitos estavam no lugar certo, na hora certa, e o trabalho deles foi muito bem executado", explica Brian Butler, um analista da Friedman, Billings, Ramsey. Os lucros da Ceradyne na primeira metade de 2007 subiram mais de 40% em relação ao mesmo período do ano passado. A companhia anunciou aos investidores que espera que os lucros aumentem de US$ 720 milhões neste ano para US$ 1 bilhão até 2010.

E agora, no momento em que a política norte-americana para o Iraque parece ter chegado a uma encruzilhada, com o general David H. Petraeus e o presidente Bush tendo recomendado paciência na semana passada, e candidatos presidenciais democratas como Barack Obama exigindo uma retirada rápida, as ações da Ceradyne dão a impressão de ecoar o debate.

Em Wall Street, as opiniões estão profundamente divididas. Investidores que estão apostando em uma queda venderam mais de 10% das ações da Ceradyne. "O que acontecerá se sairmos do Iraque? Este é o maior risco", afirma Jason Simon, da JMP Securities, um banco de investimentos de São Francisco.

Joel P. Moskowitz, fundador e diretor-executivo da Ceradyne, recorda-se dos anos magros da década de 1990, quando as ações da companhia oscilaram entre US$ 5 e US$ 10 durante a maior parte daquele período. Atualmente esse valor subiu para quase US$ 70, mas ele afirma que o destino da sua companhia não depende da política de Washington com relação ao Iraque.

"Isso não muda nada", garante Moskowitz. "Os nossos coletes modificaram a direção tática da guerra, e o exército desejará que todos os soldados tenham uma dessas unidades de proteção".

Ele observa também que a Ceradyne trabalha com outros negócios de sucesso -como componentes de cerâmica que integram artefatos tão diversos como células solares, turbinas a jato e aparelhos de ortodontia-, e que tem um conhecimento técnico acumulado durante muito tempo que a ajudou a se movimentar rapidamente quando o Pentágono necessitou subitamente de melhor proteção para os soldados que são alvo da resistência iraquiana.

"A única coisa que nos possibilitou atingir este patamar foi o conjunto das tecnologias que possuímos", diz ele.

Isso pode ser verdade, mas atualmente os coletes à prova de bala respondem por mais de 80% dos lucros da companhia.

Além disso, existe a questão da concorrência -a fatia do mercado dominada pela Ceradyne é de aproximadamente 80%- e céticos como Butler advertem que é provável que novos concorrentes reduzam o domínio da companhia. Esse é um dos motivos pelo qual ele diz que o preço da ação da Ceradyne tende a cair para US$ 60, o que representaria uma desvalorização de US$ 10 em relação ao valor atual.

A maior esperança da Ceradyne talvez seja a de conquistar uma fatia de um contrato que deverá ser firmado no ano que vem para a fabricação de coletes aperfeiçoados para conferir proteção contra balas perfuradoras de blindagens, que estão sendo cada vez mais utilizadas pelos insurgentes no Iraque. Esse é um dos motivos pelos quais Simon é tão otimista em relação às ações da Ceradyne. Ele aposta que a tendência é que o preço das ações da companhia estabilize-se US$ 85.

E há também o Bull. Trata-se de um veículo de combate pesadamente blindado que protegeria os soldados das bombas de beira de estrada convencionais, bem como dos mais letais "penetradores explosivamente moldados", que foram responsáveis pelo aumento das baixas norte-americanas neste ano. A Ceradyne fez uma parceria com a Oshkosh Truck e a Ideal Innovations para desenvolver o Bull. "Isso representa uma oportunidade multibilionária", afirma Moskowitz. O Pentágono deverá chegar a uma decisão a respeito do Bull no final do ano.

É claro que tudo depende do que acontecer até lá no cenário de combate em Bagdá, bem como em Washington.

A tendência é de que as opiniões sobre a Ceradyne sejam tão voláteis -e polêmicas- quanto a própria guerra. UOL

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