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18/09/2007

Morales, o radical, traz estabilidade à Bolívia

The New York Times
Simon Romero
Em Cochabamba, na Bolívia
Os noticiários noturnos falam de um país à beira da balcanização. As cidades de La Laz e Sucre brigam para ser a capital do país. Santa Cruz, no leste, exige autonomia. O governador da província na qual se situa esta cidade tumultuada nos Andes pediu a renúncia do presidente Evo Morales.

Mas Morales, o primeiro índio a governar a Bolívia desde a conquista espanhola ocorrida mais de quatro séculos atrás, conhece muita coisa quando se trata de insatisfação política, tendo organizado protestos durante anos como líder dos cocaleros - os cultivadores da coca - do país, que se opuseram ferozmente às tentativas norte-americanas de erradicar as suas plantações.
David Rochkind/The New York Times
Evo Morales se prepara para disputar uma partida de fronton
QUAL A CAPITAL DA BOLÍVIA?


"Entre na minha sala", convidou Morales, no início de uma entrevista ao "New York Times", às 5h45 de uma sexta-feira. Ele abriu a porta que dava para uma sala desmobiliada em um prédio decrépito desta cidade, no qual funciona a Federación del Tropico, que representa os cultivadores de coca das florestas da região central da Bolívia. Quando está em Cochabamba, onde ele também possui uma casa modesta, Morales executa as suas tarefas presidenciais neste escritório.

Os hábitos de trabalho de Morales, inspirados pelo costume dos cultivadores de coca de acordar antes do nascer do sol, não mudaram desde que ele tornou-se presidente em 2006. Os veículos utilitários esportivos da comitiva do presidente estão estacionados na calçada. Um BMW, um dos três deste modelo que ele usa na Bolívia, também está estacionado ali perto. E o seu jato particular, alugado para o governo boliviano, está da mesma forma no aeroporto local.

Apesar de todos os temores de que o radicalismo de Morales criasse agitação econômica e política na Bolívia, a realidade é que, sob o seu governo, o país parece estar surpreendentemente estável. As divisões sociais e a pobreza continuam sendo problemas difíceis, mas Morales surpreende muita gente, incluindo alguns integrantes da comunidade empresarial, com o seu desempenho no poder.

Por exemplo, quando questionado a respeito da instabilidade política da Bolívia, ele responde com a precisão de um economista. "Um dos debates mais acalorados no meu gabinete diz respeito a se devemos ou não gastar parte das nossas reservas em moeda estrangeira", diz ele, explicando como essas reservas mais do que dobraram desde que ele assumiu a presidência em janeiro de 2006, chegando atualmente a cerca de US$ 4 bilhões. Em uma concessão à ortodoxia econômica, Morales diz: "Por ora não quero fazer tal coisa".

A Bolívia continua sendo o país mais pobre da América do Sul, com cerca de 60% da sua população de 9,1 milhões de habitantes imersa em profunda pobreza, o que torna tais debates cruciais. Morales surpreendeu até mesmo os céticos com os resultados das suas políticas, especialmente aquelas no setor energético, após a nacionalização da indústria do petróleo no ano passado.

Temida como medida radical, a nacionalização foi na verdade em grande parte uma renegociação dos termos dos acordos com as companhias estrangeiras de energia que permaneceram na Bolívia, atraídas pelas enormes reservas de gás natural do país.

As rendas oriundas do petróleo e do gás saltaram de 5% do produto interno bruto em 2004 para 13,3% do PIB em 2006, segundo o Centro de Pesquisas Econômicas e de Políticas em Washington.

Esse salto colocou a Bolívia na sua posição mais invejável em anos, com uma expectativa de crescimento para este ano de cerca de 4% (os economistas dizem que a coca também está ajudando a economia boliviana, com o aumento do tráfico para o vizinho Brasil).

Ironicamente, os membros das classes altas urbanas, muitos dos quais continuam criticando explicitamente Morales, estão se beneficiando com a recente estabilidade e o dinamismo econômico. Com um cocalero no poder, os ativistas cocaleros não interrompem mais a principal rodovia que passa por Santa Cruz, possibilitando que as exportações da província cheguem a mercados importantes. De forma similar, partes da zona sul de La Paz estão prosperando, à medida que as construtoras se apressam a atender à demanda por prédios confortáveis. Aqui em Cochabamba, um novo Cineplex de US$ 6 milhões, que parece ter sido retirado dos subúrbios da Califórnia, ilustra como os investidores estão despejando dinheiro em novos projetos.

Na frente política, os críticos dizem que Morales está se inclinando para o autoritarismo, dispensando um tratamento verbal ríspido aos oponentes e flertando com uma proposta dos aliados para ser reeleito indefinidamente. E algumas políticas parecem erráticas e inspiradas pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, como a sua medida neste mês no sentido de estabelecer relações diplomáticas com o Irã, e ao mesmo tempo anunciar a exigência de visto para os visitantes norte-americanos.

Morales defende alianças com a Venezuela e Cuba, afirmando que o auxílio desses países difere daquele oferecido pelos Estados Unidos, já que não é acompanhado da exigência de erradicação da coca (ele continua sendo o líder da Federación del Tropico, afirmando que voltará a cultivar coca após o término do seu mandato).

Por ora, Morales parece tranqüilo, após obter o maior índice de aprovação já registrado por qualquer presidente na história recente do país. Ele dispensa assessores e guarda-costas, preferindo dar a entrevista sozinho. Morales faz piadas sobre as suas tentativas de melhorar o seu desempenho no fronton, um esporte similar ao racketball que é muito apreciado pelos bolivianos.

"Estamos criando uma nova forma de fazer governo, mas isso não tem sido fácil", disse Morales, enquanto o sol nascia em Cochabamba. "Os desafios parecem aumentar a cada dia".

E ele irrita-se com as críticas feitas pela elite branca da Bolívia. Morales diz que mesmo como presidente ainda sofre discriminação, e cita com exemplo o desdém e os insultos por parte da comunidade empresarial de Santa Cruz, um reduto da oposição ao seu governo.

"Eu achei que, chegando ao palácio presidencial, poderia acabar com a discriminação", disse ele, lembrando-se de como a sua mãe foi impedida de entrar na praça de Oruro, quando Morales era um adolescente criado naquela cidade. "Agora percebo que a descolonização da nossa sociedade demorará mais do que se esperava". UOL

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