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18/09/2007

'The Age of Turbulence': A vida do economista, com trilha de jazz

The New York Times
David Leonhardt
Em 1944, uma junta de recrutamento no centro de Manhattan rejeitou Alan Greenspan, na época recém-formado no colégio, para o serviço militar por possuir uma mancha em seu pulmão que poderia significar que ele tinha tuberculose. Assim Greenspan, sem um plano para o futuro, fez um teste para tocar clarinete na big band do trumpetista Henry Jerome.

Ele conseguiu o emprego, mas nunca se tornou um astro. Ele era mais um acompanhante que um solista. Entre seus companheiros ele se tornou conhecido como o intelectual da banda, o clarinetista que também sabia preencher o formulário da declaração de imposto de renda dos músicos. Entre as entradas, quando eles desapareciam na sala de espera -"que se enchia rapidamente do cheiro de tabaco e maconha", recorda Greenspan- ele lia livros sobre negócios.

Mandel/AFP 
Exemplares de "The Age of Turbulence: Adventures in a New World", de Greenspan

O padrão se repetiu, apesar de forma mais sóbria, após o fim da guerra, quando começou a estudar economia na Universidade de Nova York. Muitos de seus colegas de classe eram arrebatados pelas grandes questões econômicas ligadas à nova ordem econômica, mas Greenspan estava mais interessado em números e equações. "Eu ainda tinha a mentalidade do acompanhante", ele escreve em seu livro de memórias, "The Age of Turbulence" (a era da turbulência). "Eu preferia me concentrar nos desafios técnicos e não tinha uma visão do macro".

Tal visão só viria nos anos 50, quando sua primeira esposa o apresentou a Ayn Rand. Rand -a quem ele chama de uma pessoa de "aparência comum" mas "uma força estabilizadora em minha vida"- o levou a pensar além da matemática e o ajudou a se tornar um libertário.

Na época em que o presidente Reagan nomeou Greenspan para a presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em 1987, ele já tinha vivido uma vida plena, fascinante, ao estilo Zelig. Por anos ele foi um discreto homem influente, fora das atenções. Com seu livro, ele finalmente nos permite saber o que pensava.

Para um livro de memórias de uma pessoa tão importante, ele é surpreendentemente franco. Grandes porções do livro são divertidas. Sua maior falha -o motivo para não ser um grande livro de memórias- é a relutância de Greenspan em ser tão direto e penetrante em relação a si mesmo quanto é em relação aos outros.

Nascido em 1926, ele foi criado em Washington Heights, filho único de pais que logo se divorciaram. Ele freqüentou o George Washington High School poucos anos atrás de Henry Kissinger (e algumas poucas décadas antes dos astros de beisebol Rod Carew e Manny Ramirez, uma peculiaridade histórica que Greenspan, que ainda se lembra da média de batidas e chegada à primeira base de Joe DiMaggio em 1936, provavelmente aprecia). Antes de entrar para a big band de Jerome, ele tocou ao lado de Stan Getz em um conjunto informal.

Na Universidade de Colúmbia, Arthur Burns, também um futuro presidente do Fed, se tornou o orientador de doutorado de Greenspan.
O EX-TODO PODEROSO DO FED
Doug Mills/The New York Times
Allan Greenspan, ex-presidente do banco central americano
ANÁLISE DO GOVERNO BUSH


Como seu pai, um corretor da Bolsa, Greenspan acabou chegando a Wall Street, onde dirigiu uma consultoria que fazia previsões para a economia. Ele estava se saindo muito bem quando Martin Anderson, outro acólito de Rand, perguntou a Greenspan se gostaria de ingressar na campanha presidencial de Richard M. Nixon de 1968.

Com exceção de Jimmy Carter, Greenspan trabalhou com todos os presidentes desde 1969, e o livro oferece uma avaliação direta de todos. Gerald Ford, que é retratado como um político incomumente decente, claramente fica em primeiro lugar. "Ele sempre teve consciência do que sabia e do que não sabia", escreve Greenspan.

Apesar de suas diferenças ideológicas, Bill Clinton parece ficar em segundo lugar, graças ao seu "foco consistente, disciplinado, no crescimento econômico a longo prazo". A certa altura, a pedido do presidente da Câmara, Newt Gingrich, Greenspan chamou Rush Limbaugh para argumentar a favor do empréstimo ao México concedido pelo governo Clinton. Greenspan até mesmo divide com Clinton parte do crédito por sua principal percepção -o reconhecimento desde cedo de que a tecnologia estava transformando a economia.

Nixon, Reagan e George H.W. Bush recebem uma mistura de elogios e críticas.

Apenas o atual presidente Bush não recebe nenhum crédito por alguma realização significativa.

"The Age of Turbulence" é na verdade dois livros, um que suspeito que Greenspan preferia escrever e um que ele percebeu que seus leitores prefeririam ler. A segunda metade -a metade tipicamente Greenspan- é uma série de meditações sobre questões econômicas, como desigualdade de renda e a ascensão da China.

As primeiras 250 e tantas páginas apresentam uma autobiografia padrão, com Greenspan confessando nos agradecimentos que aprender a escrever na primeira pessoa foi difícil. Apesar de toda a franqueza do livro, este foi um obstáculo que ele não conseguiu vencer. A primeira metade do livro é fácil de ler, mas carece de um núcleo narrativo. Diz muito o fato do livro começar em 11 de Setembro de 2001, com Greenspan voltando da Suíça para casa em um avião que teve que ser desviado. Isto deveria servir como drama.

Greenspan também não permite que os leitores ingressem em sua vida. Ele lamenta que o anúncio televisonado do controle de preços por Nixon, em 1971, tenha ocorrido antes de "Bonanza" -"uma série que eu adorava assistir"- e considera sua esposa, Andrea Mitchell, "muito bonita". Mas ele não reconhece um erro facilmente. Ele nem mesmo confessa ter tido ambições próprias. Ele parece querer que as pessoas acreditem que ele aceitou sua fantástica ascensão com relutância.

Mas, talvez acidentalmente, ele ainda assim tenha conseguido criar uma imagem duradoura de si mesmo. Ele nunca parece mais feliz do que quando apresenta indicadores econômicos que lhe permitem prever tudo, da recessão do aço em 1958 ao boom dos anos 90. "Meu treinamento inicial era de me absorver em detalhes extensos do funcionamento de alguma pequena parte do mundo e deduzir a partir dos detalhes o comportamento de tal segmento do mundo. Este é o processo que apliquei ao longo de toda minha carreira", ele escreve.

Mas ele carece da mesma firmeza quando confronta grandes questões políticas, mesmo as econômicas, das últimas décadas. Ele forneceu uma voz criticamente influente de apoio à redução de impostos do atual governo, por exemplo, mas agora a rejeita. Ele teme que uma reação à globalização possa criar uma "crise econômica realmente séria", mas seus remédios propostos -como salários mais altos para professores de matemática- não parecem estar à altura.

Apesar da orientação de Rand, ele quase nunca escapa da mentalidade de acompanhante. Mas não é preciso se envergonhar disto. Greenspan pode ter percebido melhor os altos e baixos da economia americana do pós-guerra do que qualquer outro e fez bom uso de seus talentos no banco central. A pergunta que fica é por que nós deixamos que ele seja tratado como algo muito maior.

"The Age of Turbulence: Adventures in a New World" - Alan Greenspan. Ilustrado. 531 páginas. The Penguin Press. US$ 35. George El Khouri Andolfato

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