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18/09/2007

Um Greenspan 'decepcionado' ataca políticas econômicas de Bush

The New York Times
Edmund L. Andrews*

Em Washington
Após quase dois anos como presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, Alan Greenspan quer solidificar sua posição na história.

Em uma entrevista sincronizada com o lançamento de seu livro de memórias na segunda-feira, Greenspan buscou se distanciar das políticas econômicas do presidente Bush e refutou os críticos que dizem que suas políticas no Fed contribuíram para promover a bolha e o estouro que agora perturbam a economia.

Doug Mills/The New York Times 
Alan Greenspan posa para foto com um exemplar de seu livro "The Age of Turbulence"

Greenspan liberou a frustração reprimida em relação a Bush, ao vice-presidente Dick Cheney e aos líderes republicanos no Congresso, que, segundo ele, colocaram a política à frente de metas republicanas como disciplina fiscal e menores gastos do governo.

"Eu estou muito decepcionado", ele disse taciturno, enquanto estava sentado em sua sala de estar. "Governo menor, gastos menores, impostos menores, menos regulação -eles dispunham dos recursos para fazê-lo, dispunham de conhecimento para fazê-lo, dispunham da maioria política para fazê-lo. E não fizeram".

No final, ele disse, "o controle político triunfou sobre as políticas e não conseguiram nem o controle político e nem as políticas".

Greenspan, um republicano que presidiu a mais longa expansão econômica sustentada na história americana, parecia frustrado por nem a Casa Branca republicana e nem os líderes republicanos no Congresso terem dado ouvidos aos seus apelos discretos por maior disciplina fiscal.

O ex-presidente do Fed disse que se encontrava freqüentemente na Casa Branca com Bush e Cheney, mas seu entusiasmo pelo novo governo esfriou assim que descobriu que Bush ignorava grande parte de seus conselhos.

Em seu primeiro mandato, Bush raramente passava uma semana sem visitar pequenas empresas ou uma fábrica atrativa para as câmeras para promover o empreendimento ou as virtudes da redução de impostos. Mas na Casa Branca, Greenspan virtualmente não obtinha resposta ao seu conselho para que o presidente vetasse os projetos de lei de gastos. Greenspan disse que lhe diziam que suas recomendações seriam "levadas em consideração".

Suas observações estão de acordo com as de outros que conversavam com Bush com freqüência, incluindo o ex-secretário do Tesouro, Paul H. O'Neill, que foi demitido em dezembro de 2002. Após os ataques do 11 de Setembro, eles disseram, Bush ficava animado, até mesmo de forma passional, quando o assunto era contraterrorismo ou a guerra no Iraque. Mas eles disseram que discussões econômicas mais amplas o entediavam, a menos que pudesse apresentá-las às fábricas.

Greenspan sempre esteve bastante ciente do impacto explosivo que seus comentários públicos poderiam ter tanto nos círculos políticos quanto econômicos. Ele nunca criticou políticos republicanos ou democratas específicos enquanto estava à frente do Fed, mesmo quando esteve sob ataque de um lado ou de outro.
O EX-TODO PODEROSO DO FED
Doug Mills/The New York Times
Allan Greenspan, ex-presidente do banco central americano
CRÍTICA DO LIVRO


Mas na entrevista, Greenspan pareceu consternado com o fato dos líderes de seu próprio partido terem dado pouca atenção aos seus apelos para contenção de gastos e para regras que exigiriam que o Congresso compensasse o custo da redução de impostos com redução de despesas. Ele repetiu a conclusão sobre a perda do controle do Congresso pelos republicanos nas eleições de 2006:

"Eles mereceram perder".

Greenspan também expressou suas opiniões sobre a guerra no Iraque: ele apoiou a invasão, ele disse, não porque Saddam Hussein poderia ter armas de destruição em massa, mas porque Saddam demonstrou um desejo claro de capturar os campos de petróleo do Oriente Médio.

Eu apoiei a derrubada de Saddam, porque ele caminhava para a tomada dos recursos de petróleo do mundo", ele disse. "O Iraque era uma ameaça muito maior que o Irã ao cenário mundial".

Mas Greenspan também parecia ter a intenção de proteger sua reputação histórica no desastre que é foco das atenções de seus sucessores no Fed: a bolha imobiliária que chegou ao pico enquanto ele era presidente do banco central e cujo estouro agora ameaça lançar a economia em recessão.

Apesar de dizer pouco sobre o assunto em seu livro, "The Age of Turbulence: Adventures in a New World" (a era da turbulência: aventuras em um novo mundo, Penguin Press, US$ 35), Greenspan tentou refutar firmemente as acusações de que contribuiu para a bolha imobiliária ao reduzir as taxas de juros entre 2001 e 2004 e ao fazer pouco para regular a explosão de títulos hipotecários de risco.

Na terça-feira, após um mês de turbulência quase incessante nos mercados financeiros, Ben S. Bernanke, o sucessor de Greenspan na presidência do Fed, presidirá uma reunião de política crucial para decidir se as taxas de juros devem ser reduzidas e quanto para impedir uma maior desacelaração econômica.

Greenspan, 81 anos, reconheceu que o frenesi imobiliário foi alimentado em parte pelas taxas de juros muito baixas e em parte pela crescente disposição dos emprestadores hipotecários em conceder empréstimos dúbios e freqüentemente fraudulentos, que eram muito maiores do que muitos tomadores podiam realisticamente pagar.

Mas ele disse que é um erro culpar o Fed, que precisou reduzir as taxas de juros para rechaçar a recessão de 2001 e o que muitos economistas consideravam ser um risco real do tipo de "deflação", uma queda geral nos preços ao consumidor, que atormentava o Japão.

John B. Taylor, um professor de economia da Universidade de Stanford e um ex-subsecretário do Tesouro do governo Bush, argumentou recentemente que o corte das taxas de juros pelo Fed depois de 2001 talvez tenham exagerado tanto o boom quanto o estouro imobiliário.

"Há um pouco de revisionismo histórico acontecendo", reclamou Greenspan. A verdadeira força por trás da alta dos preços dos imóveis, ele disse, foi global: uma queda na inflação mundial e nas taxas de juros, em parte pelo fim da Guerra Fria e pela ascensão da China como colosso manufatureiro.

"O boom imobiliário não é um fenômeno americano -é um fenômeno mundial", disse Greenspan. "A evidência é clara de que o que estamos experimentando é uma conseqüência da queda da União Soviética e da transferência de um bilhão de trabalhadores de um planejamento central para um mercado de trabalho".

Os Estados Unidos foram apenas um dos 40 países que experimentaram um boom imobiliário depois de 2000, ele disse, e todos os booms foram estimulados em parte por baixas taxas de juros.

"Se você alinhar todos os grandes países desenvolvidos e todos os países em desenvolvimento, deixando de fora os Zimbábues, as taxas de inflação se mantiveram todas em um único dígito. Isto é totalmente sem precedente, não há nada assim na história. E a conseqüência foi uma queda drástica nas taxas de juros, que provocou aumentos acentuados nos imóveis por todo o mundo".

*David E. Sanger contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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