UOL Notícias Internacional
 

19/09/2007

Cenário sectário iraquiano é agitado pela rápida migração interna

The New York Times
James Glanz e Alissa J. Rubin
Em Bagdá
Uma vasta migração interna está remodelando radicalmente o cenário étnico e sectário iraquiano, de acordo com novos dados coletados por milhares de funcionários de instituições de auxílio humanitário, mas o deslocamento nas áreas mais povoadas e nas quais há maior mistura étnica é surpreendentemente complexo, sugerindo que a divisão do país em enclaves semi-autônomos árabe sunita, xiita e curdo não seria fácil.

Os dados relativos à migração, que deverão ser divulgados nesta semana pelo Crescente Vermelho Iraquiano, mas que foram fornecidos antecipadamente ao "New York Times", indicam que somente em Bagdá existe atualmente quase 170 mil famílias, o que corresponde a quase um milhão de pessoas, que fugiram de suas casas em busca de segurança, abrigo, água, eletricidade, escolas que funcionem e empregos para sustentar os familiares.

Marko Georgiev/The New York Times 
Crianças carregam suplimentos no campo Boob Sham, nos arredores de Bagdá

Os números demonstram que muitas famílias mudam-se duas, três ou até mais vezes, inicialmente fugindo do perigo imediato, e depois com base em cálculos mais ponderados baseados na disponibilidade de serviços municipais ou escolas para os filhos. Encontrar bairros habitados por indivíduos de sua própria etnia é apenas um dos fatores levados em consideração.

De forma geral, os padrões sugerem que apesar da animosidade étnica e sectária que assola o país, pelo menos alguns iraquianos prefeririam continuar morando em comunidades mistas.

O Crescente Vermelho compilou os dados de relatórios preenchidos até o final de agosto passado por dezenas de milhares de funcionários de instituições de auxílio humanitário espalhados por todas as partes do Iraque, e que se empenham em fornecer ajuda a cerca de 280 mil famílias envolvidas em uma enorme e complexa migração de dimensões nacionais.

E embora um exame detalhado dos dados sugira que desde que o ataque à bomba contra uma reverenciada mesquita xiita em fevereiro de 2006 desencadeou uma intensa guerra sectarista, os sunitas geralmente têm se deslocado para o norte e o oeste, os xiitas para o sul e os cristãos para o extremo norte. Mas o quadro no centro mais misto e altamente povoado do país está se tornando mais complicado.

É esse centro popular misto que alguns defensores da divisão do país sugeriram que acabará se fracionando em áreas mais homogêneas, à medida que os iraquianos procurarem segurança entre os membros de suas próprias etnias.

Mas os novos números demonstram que a migração não está dividindo Bagdá de forma precisa ao longo do Rio Tigre, separando os sunitas, que predominam na margem oeste do rio, dos xiitas, que habitam a margem leste. Em vez disso, alguns sunitas têm se mudado para o lado predominantemente xiita do rio, deslocando-se para bairros que são relativamente seculares, de composição étnica mista e nos quais os serviços prestados são melhores.

Na semana passada, dentro da própria Bagdá, uma tribo sunita de 250 famílias que morava em Dora, um dos bairros mais violentos, foi obrigada a partir. Em vez de seguirem para uma área na qual estariam com pessoas da sua etnia, esses indivíduos rumaram para bairros do sul, em Abu Schir, uma área xiita. Eles foram bem recebidos pela tribo local, e receberam lugar para ficar nas residências dos moradores, segundo relatos de funcionários do Crescente Vermelho e do Departamento Internacional de Migração, uma agência intergovernamental.

Alguns iraquianos pobres, como aqueles que fogem da "limpeza étnica" promovida pela Al Qaeda na Mesopotâmia em vilas na província oriental de Diyala, adotam a única opção disponível: seguem para Bagdá e param em um dos campos de refugiados no entorno da cidade em meio a outras pessoas desesperadamente pobres.

A magnitude da migração gerou preocupações entre os funcionários do setor de auxílio humanitário. "Esses funcionários têm pela frente uma tarefa colossal para aliviar o sofrimento dessa grande quantidade de iraquianos", pode-se ler no relatório do Crescente Vermelho.

Embora iraquianos de todos os níveis de renda, tribos, etnias e regiões do país façam parte desta onda migratória, talvez as conseqüências mais trágicas sejam presenciadas onde um número enorme de aldeões pobres se aglomera nos campos e nas favelas urbanas, após deixarem para trás tudo o que possuíam, afirma Said Hakki, um médico que é presidente do Crescente Vermelho.

"É trágico, totalmente trágico", afirma Hakki. "Durante a minha vida toda fui cirurgião, e vi a morte diversas vezes. Isso nunca me assustou; nunca me abalou. Mas quando vejo o que está acontecendo aqui", diz ele, referindo-se aos grupos de pessoas deslocadas de suas habitações. "Isso realmente me choca. Com é que um ser humano pode permitir que outros seres humanos sofram tanto por tanto tempo?".

Um salto no número registrado de indivíduos deslocados de suas casas, ocorrido no final do verão, levou o Crescente Vermelho a adiar a divulgação do relatório por cerca de dez dias, para que a organização reexaminasse os dados, diz Hakki.

Mas ele afirma que os números, baseados em dados coletados em 130 escritórios, incluindo 43 em Bagdá, por cerca de 95 mil voluntários do Crescente Vermelho e um pequeno contingente de funcionários, foram confirmados pelo escrutínio.

Os números do Crescente Vermelho, que são coletados periodicamente, têm se mostrado consistentes com os dados compilados pela Organização Internacional de Migração, que faz parte da Organização das Nações Unidas (ONU) e que coleta os seus dados junto ao governo iraquiano e outras fontes.

Mas quando foi abordado para falar sobre os dados politicamente sensíveis contidos no último relatório do Crescente Vermelho, um porta-voz do Ministério de Deslocamento e Migração do Iraque, que acompanha os deslocamentos populacionais para o governo, disse acreditar que os números estão exagerados.

"Não consideramos como oficiais as estatísticas do Crescente Vermelho e de outras organizações internacionais", disse Sattar Nowroz, o porta-voz.

Nowroz repetiu a alegação feita com freqüência pelo governo, segundo a qual, na verdade, milhares de famílias retornaram às suas casas após o início de um novo plano iraquiano de segurança que está sendo desenvolvido paralelamente ao aumento do contingente de soldados norte-americanos.

Mas os números do Crescente Vermelho e da Organização de Migração mostraram anteriormente que o número de iraquianos deslocados internamente disparou desde que teve início o aumento do contingente militar. Nowroz admite que o Ministério da Migração conta com apenas 600 funcionários em todo o país para identificar o número de pessoas deslocadas de suas moradias.

O ministério registra apenas aquelas pessoas deslocadas que se apresentam voluntariamente e enfrentam uma série de empecilhos burocráticos envolvendo documentos de no mínimo três diferentes departamentos governamentais, diz Nowroz.

Os funcionários do Crescente Vermelho identificam alguns fatos ocorridos no verão que contribuíram para o aumento dos números.

Combates em Diyala fizeram com que as pessoas buscassem as estradas, fugindo das operações militares em andamento lançadas pelas forças armadas dos Estados Unidos contra combatentes árabes sunitas. Os indivíduos que fugiram para a Jordânia ou a Síria começaram a retornar porque ambos os países passaram a impor exigências de visto sobre os iraquianos que desejavam ficar por lá.

Os sunitas também começaram a deixar as suas casas devido aos embates entre os movimentos Despertar, composto de grupos de árabes sunitas que se uniram, e a Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo nativo extremista que fontes de inteligência dos Estados Unidos acreditam ser liderado por estrangeiros.

Os iraquianos que estudavam o melhor momento para retornar dos seus refúgios no exterior podem também ter escolhido o final do verão devido ao início do calendário escolar, e porque em alguns bairros a violência diminuiu com o aumento da presença militar norte-americana. Mas quando os iraquianos retornam, eles muitas vezes encontram as suas residências saqueadas ou ocupadas, e juntam-se às multidões de pessoas deslocadas.

"Nem tudo isso se deve à situação de insegurança", afirma Mazin A. Salloum, secretário-geral do Crescente Vermelho Iraquiano.

Em Bagdá, muitos dos deslocamentos acompanhados pelo Crescente Vermelho são secundários ou terciários. Muita gente já havia se mudado antes e as estatísticas estão revelando uma segunda, ou, em alguns casos, uma terceira mudança. Embora o medo da violência sectarista ou de ser vítima de operações militares motive as pessoas a fazer a mudança inicial, é o desejo de contar com melhores condições de vida que a estimula a fazer as mudanças subseqüentes. Algumas pessoas seguem primeiro para as casas de parentes em áreas fora de Bagdá, mas depois disso migram de volta para a cidade em busca de empregos, maior acesso à eletricidade, água e escolas.

"São como ondas do mar. As marés vêm e vão", diz Laith Abdul Aziz, gerente do setor de desastres do Crescente Vermelho do Iraque. Ele próprio faz parte da legião de indivíduos deslocados.

"Todos esses dados se reverterão", afirma Aziz. "O inverno está chegando, e aqueles que migraram para as vilas voltarão para os locais onde existem bons abrigos, telhados que não vazam, combustível e comida".

Mas alguns dos indivíduos deslocados mais pobres não contam sequer com tais opções. O campo Boob Sham, administrado pelo Crescente Vermelho, situa-se precariamente em um trecho de deserto onde antes ficava um quartel do exército iraquiano, bombardeado pelos norte-americanos em 2003.

Aberto no nordeste de Bagdá em junho para 17 famílias xiitas da tribo Anbekia, que fugiu de Diyala, ele agora possui 52 famílias, sendo que duas chegaram na última segunda-feira. A maioria mora em barracas, mas algumas poucas famílias tem casebres de um só cômodo feitos de barro misturado com palha.

Camponeses e comerciantes urbanos, eles fugiram quando combatentes da Al Qaeda na Mesopotâmia passaram a fazer uma varredura sistemática nas suas áreas. Hadi Hassan, 39, que chegou aqui com 13 parentes, diz que seis vilas da tribo Anbekia já estão vazias, incluindo a dele.

Vizinhos lhe disseram que a Al Qaeda na Mesopotâmia explodiu a sua casa depois que ele partiu. Agora os militantes estão esvaziando uma outra vila, e quatro outras estão sob pressão. As famílias já eram pobres antes de partir, mas como a maioria não teve tempo de fazer as malas, elas estão ainda mais pobres.

Hassan é um caso típico. Ele colocou a mulher e os filhos em um carro e dirigiu para Bagdá porque tinha duas irmãs morando lá. Mas quando chegou à cidade, descobriu que cada uma delas tinha uma casa de um só cômodo para as suas famílias, de forma que não havia espaço para a família dele.

Desde que chegou, ele teve que vender o carro - o comprador lhe pagou US$ 1.500 - porque precisava de dinheiro para comprar mais comida para a sua família de seis pessoas e para ajudar os outros sete parentes que fugiram com ele, todos mulheres ou crianças.

Três dos seus filhos olham timidamente para a equipe do Crescente Vermelho. Um quarto é amamentado pela mulher de Hassan. "Por favor, ajudem os homens a encontrar um emprego", diz ela. As crianças fazem desenhos com as suas sandálias de plástico no chão de terra, e depois disso ficam em silêncio na porta da entrada olhando para o deserto vazio.

"Eles se lembram de casa, de como subiam nas tamareiras e comiam as frutas na própria árvore", diz Hassan. "Mas aqui", a sua voz fraqueja, e ele aponta para o deserto à sua frente, sacudindo a cabeça. "Não há árvores". UOL

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