UOL Notícias Internacional
 

19/09/2007

Isolados, os negócios na Faixa de Gaza murcham, tanto acima como abaixo do solo

The New York Times
Steven Erlanger

Na Passagem de Karni, Faixa de Gaza
Um homem dirige uma grande confecção aberta por sua mãe. Outro dirige um contrabando ilegal iniciado por seu pai. Um lida com roupas, o outro com armas e explosivos.

Por mais diferentes que possam ser, ambos estão suportando uma profunda depressão econômica desde que o Hamas assumiu a Faixa de Gaza, que foi quase que totalmente bloqueada de viagens e do comércio normal com o mundo. E ambos demitiram quase todos seus funcionários.

Ayrton Vignola/Folha Imagem - 17.mai.2005 
Confecção de Nabil Bowab em Gaza está praticamente inativa

Nabil Bowab, 46 anos, está fora de si com a ansiedade -por seus funcionários, sua empresa e sua mãe, Rabiha, 83 anos, que abriu o negócio, atualmente chamado de Unipal 2000, em 1951. Bowab e seus irmãos contam com 800 funcionários treinados que produzem roupas sob contrato para grandes empresas de moda israelenses -ou melhor, contavam, até que o Hamas conquistou Gaza em junho e a principal passagem comercial daqui, em Karni, foi fechada.

"Eu não consigo dormir à noite", disse Bowab. "Não dá para continuar assim. Eu tenho mais de 140 mil peças que não posso entregar. Mais de US$ 25 milhões parados aqui na Cidade de Gaza. Nossos produtos são sazonais e todos estes produtos são para o verão, e o verão já acabou", ele disse, começando a gritar, depois esmurrando a mesa. "O verão já acabou!"

A empresa demitiu todos aqui, com a exceção de 20 funcionários que estão produzindo camisas para os cidadãos de Gaza para o mês sagrado do Ramadã. Bowab ainda paga a todos seus funcionários cerca de US$ 95 por mês, 25% do salário médio normal, para tentar mantê-los alimentados e longe das ruas, assim como suas famílias.

Para manter seu negócio funcionando, ele e um irmão carregam diariamente duas malas de 60 quilos cheias de roupas três vezes ao dia pela passagem de Erez até Israel, onde as entregam aos seus parceiros. Os irmãos possuem permissões especiais, como empresários confiáveis, para entrar em Israel por Erez, mas só podem entrar com bagagem, não despachar bens.

"Eu tinha uma vida confortável e agora sou um burro de carga", disse Bowab. "Eu quero mostrar aos meus parceiros israelenses que sou parceiro deles, de boa fé. Eles pensam em transferir as encomendas para a Jordânia ou Egito, de forma que preciso convencê-los." Ele arregaçou suas mangas para mostrar seus bíceps e riu, então seu humor mudou de novo. "Você conhece Erez, sabe quão longe é preciso caminhar. Percorrer tal distância sob o sol, com esta umidade, e às vezes você chega lá e eles mandam você de volta".

A Unipal 2000 possui sofistacadas cortadoras de tecido e máquinas de costura japonesas em um complexo adjacente à passagem de Karni que é dirigido pela Palestine Industrial Estates Development and Management Company (companhia palestina de desenvolvimento e administração de propriedades industriais), que foi criada em cooperação com Israel em 1996, quando os tempos eram melhores.

Tanto a passagem de Karni quanto a passagem de Rafah para pessoas, que fica entre a Faixa de Gaza e o Egito, estão fechadas desde meados de junho, com pouca perspectiva, com o Hamas no poder, de Israel permitir sua reabertura.

O motivo declarado é a segurança, já que Israel considera o Hamas um inimigo declarado e um grupo terrorista disposto a expandir seu poder e perícia militar para a Cisjordânia. Israel não confia no Hamas para operar o lado palestino de Karni ou Rafah, nem para contratar empresas privadas para fazê-lo, mesmo que sejam turcas.

O presidente palestino do Fatah, Mahmoud Abbas, também não se queixa, já que ele e seu governo na Cisjordânia também não querem que o Hamas seja bem-sucedido em Gaza.

Mas um resultado é o rápido colapso do setor privado na Faixa de Gaza, incapaz de importar peças sobressalentes, material de construção ou tecidos necessários, assim como incapaz de exportar grande parte do que produz.

Segundo Faysal G. Shawa da Associação dos Empresários Palestinos, 70 mil trabalhadores do setor privado perderam seus empregos desde junho; 85% das fábricas fecharam ou estão operando a menos de 20% de sua capacidade; e os prejuízos apenas com as exportações agrícolas desde junho chega a US$ 16 milhões.

Israel estima que suas próprias empresas estão perdendo US$ 2 milhões por dia com o fechamento, mas Gaza está perdendo US$ 1 milhão por dia, um valor que é menos capaz de suportar.

"O Fatah está pagando para os funcionários da Autoridade Palestina para permanecerem em casa e não trabalharem para o Hamas", disse Shawa. "O Hamas está pagando para seus membros. Mas ninguém está pagando aos trabalhadores do setor privado. Aqueles que vivem de ajuda não fazem nada e aqueles que trabalham não ganham nada. Em breve seremos todos dependentes de ajuda e eu odeio isto; está nos destruindo".

Antes do início da segunda Intifada em setembro de 2000, Bowab tinha 1.200 funcionários. Antes do Hamas vencer as eleições legislativas em janeiro de 2006, e o início do isolamento, ele disse, ele tinha um lucro de US$ 120 mil por mês. "Com a fronteira aberta é possível se tornar um homem muito rico em Gaza", disse. "As pessoas são mais capacitadas aqui do que na Cisjordânia e no Egito, além de trabalharem mais árdua e fielmente".

Muhammad Bayed, 31 anos, é um dos poucos trabalhadores que restam aqui, um capataz. Ele é casado, tem quatro filhos e costumava ganhar US$ 735 por mês, o dobro da média. Agora ganha US$ 95. "Eu olho ao redor nesta fábrica e sinto tristeza", ele disse. "O negócio está ruindo. Acabou". Ao ser perguntado sobre o que fará, ele respondeu: "É uma pergunta que me faço muitas vezes".

Bowab gesticulou para o setor de costura quase vazio. "Eu sinto falta dos meus funcionários", ele disse. "Eu sinto falta da conversa. Eu sinto falta do som das máquinas." Então disse: "O Hamas e o Fatah podem ir ambos para o inferno. Os estúpidos líderes palestinos e israelenses estão nos matando. A população de Gaza não é do Hamas. Ela está à procura de alimento, de uma vida digna".

A esperança parece ser uma eventual revolta da população da Faixa de Gaza contra o Hamas, mas há pouco sinal disto, disse Shawa da associação empresarial, que apóia o Fatah. "É um absurdo", ele disse. "Nós estamos pobres e cansados".

Um motivo é o quase monopólio do Hamas das armas e munição, que está destruindo o menos salubre negócio de contrabando de armas de Muhammad, 37 anos, que vive em Rafah. Seu pai cavou um dos primeiros túneis entre a Faixa de Gaza e o Egito em 1984, disse Muhammad orgulhosamente -cerca de 50 metros, para contrabandear ouro e peças sobressalentes.

Agora seu filho, que concordou apenas em falar se seu sobrenome não fosse citado, cava túneis de quase um quilômetro para escapar de ser descoberto. Um túnel destes -com cerca de 1 metro quadrado de largura e 12 metros de profundidade para atingir o barro duro próximo do lençol freático- leva quase seis meses para ser feito e custa cerca de US$ 40 mil. No lado egípcio, o túnel se divide em várias direções, para permitir vários "olhos", ou aberturas.

Quando uma carga está posicionada na superfície no lado egípcio, cavadores fazem uma rápida abertura para a superfície. Seis trabalhadores levam cerca de 30 minutos para recolher a mercadoria, movendo caixas de papelão até depósitos previamente construídos em ambos os lados do túnel perto da abertura. Então o parceiro egípcio cobre a abertura e desaparece, e as caixas de papelão são guinchadas até a Faixa de Gaza.

Mas a nova regra do Hamas tem sido um desastre para Muhammad. O Hamas proibiu o porte de arma por qualquer um exceto suas forças e proibiu que armas sejam disparadas, mesmo em casamentos e funerais. Com o Fatah derrotado e disperso, e como o grande estoque de armas e munições deste capturado pelo Hamas, o mercado de armas para pessoas como ele, disse Muhammad, desmoronou como um túnel fraco.

O preço dos melhores rifles AK-47, feitos na Rússia ou na antiga Iugoslávia, caiu para US$ 500, em comparação a US$ 2.200 antes de junho, ele disse, aproximadamente o preço pago por eles no Egito. O último carregamento de que tem conhecimento foi comprado e armazenado por um mercador de armas de Gaza como investimento, "na esperança de que a situação venha a piorar de novo", disse Muhammad rindo.

As versões chinesas ou tchecas custam US$ 1.400 e agora ninguém as quer.

Uma bala para AK-47, antes de junho, custava US$ 8,80 -"o preço de oito sanduíches, o suficiente para sustentar uma família", ele disse. Seu lucro era de US$ 6,58. Mesmo antes da eleição do Hamas, em 2005, o preço estava entre US$ 3,45 e US$ 4,40. Agora uma bala custa US$ 1,21.

No Egito, a mesma bala custa 73 centavos de dólar, 40% a menos. Mas com a despesa de escavação do túnel e subornos, disse Muhammad, o atual lucro em uma bala é de menos de 5 centavos.

Um lançador de granada propelida por foguete com seis granadas custa US$ 900 no Egito e era vendido em Gaza por US$ 6 mil. Agora o preço é de US$ 1 mil, mas ninguém está comprando.

Antes, um carregamento de 300 rifles AK-47, 500 mil balas e 50 granadas propelidas por foguete "era fácil, leve e rápido, gerando um lucro de US$ 500 mil", disse Muhammad. "Se perdesse um túnel, tudo bem. Mas não agora".

O Hamas está trabalhando com os egípcios na destruição dos túneis não autorizados, disse Muhammad, enquanto os egípcios, sob pressão dos Estados Unidos e Israel, recentemente mudou todos seus oficiais ao longo da fronteira, substituindo muitos daqueles que foram comprados pelos contrabandistas. O Egito, ele disse, está derrubando quase 300 metros de casas do lado egípcio de Rafah, uma cidade dividida em duas pela fronteira.

Quando Israel derrubou as casas palestinas em Rafah para impedir os túneis de contrabando, houve protestos internacionais e muitas manifestações. Haverá manifestações no Egito? Muhammad caiu na gargalhada.

"O Hamas deseja controlar toda arma ou explosivo que entra em Gaza agora, é muito simples", ele disse. "O Hamas está combatendo o contrabando por temer uma venda ao Fatah".

Muhammad trabalha com 10 sócios e 12 funcionários. Cavadores adicionais ganham US$ 100 por dia. Os 12 trabalhadores ficam com metade do lucro; os sócios com a outra metade.

Mas não há nenhum negócio no momento", disse Muhammad, exceto uma
mercadoria: nitrato, valioso tanto para explosivos quanto fertilizantes. O Hamas também está tentando controlar a importação de nitrato, ao mesmo tempo que fica com uma parte dos negócios.

"O Fatah exigia subornos", ele disse. "O Hamas não pede dinheiro, mas com o nitrato" ele fica com um terço da carga. O Hamas então vende pequenas quantias para outros grupos militantes, como a Jihad Islâmica, disse Muhammad.

O Hamas diz que se recusa a impedir outros grupos islâmicos de realizarem a "resistência" contra Israel e a ocupação israelense, em grande parte por meio de disparos de foguetes Qassam. "Mas o Hamas nos diz para não vendermos para a Jihad Islâmica", disse Muhammad. "Eles tentam mantê-los sob uma cota para ter mais controle sobre eles".

A inteligência israelense testemunhou ao Parlamento que o Hamas contrabandeou 40 toneladas de explosivos para a Faixa de Gaza desde junho e está construindo fortificações defensivas subterrâneas, como o Hizbollah.

São pessoas como Muhammad que fazem o trabalho.

O nitrato, apesar de bem menos lucrativo que os rifles e balas nos maus tempos, ainda é valioso e de fácil obtenção no Egito. Uma tonelada equivale a 20 sacos, e segundo ele o máximo que consegue trazer por um túnel é quatro toneladas.

O lucro em quatro toneladas é de US$ 60 mil. Mas agora o Hamas fica gratuitamente com uma parte do produto, reduzindo o lucro para US$ 40 mil.

Isto é melhor do que o atual mercado morto. "Agora estamos pensando em cavar um túnel apenas para nitrato", ele disse. "Ao menos este é o plano". George El Khouri Andolfato

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