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20/09/2007

Na crise, dois presidentes do Fed agem de maneira semelhante

The New York Times
Edmund L. Andrews
Em Washington
Desde o momento em que Ben S. Bernanke, um ex-acadêmico, sucedeu a Alan Greenspan, uma figura há muito tempo familiarizada com os círculos de poder em Washington, como presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), pareceu claro que ele traria um novo estilo de administração para o imponente banco central.

Mas quando o Fed deixou os mercados eletrizados na última terça-feira com uma grande redução das taxas de juros, Bernanke confirmou aquilo que vários especialistas vêm observando há algum tempo: na prática, Bernanke e Greenspan são notavelmente similares.

Jim Young/Reuters - 6.fev.2006 
Greenspan (dir.) segura o braço de Bernanke ao entregar o cargo de presidente do Fed

"Ambos agiram no sentido de encontrar um ponto apropriado de equilíbrio dos riscos - o risco do aumento da inflação versus o risco do desemprego", afirma Martin Feldstein, professor de economia da Universidade Harvard, que já foi candidato a presidente do Fed.

Mas segundo analistas e ex-funcionários do Fed, ainda que eles abordem a função de maneira similar, a verdadeira mudança é a diferença nos desafios econômicos subjacentes com os quais se confronta o novo presidente.

Durante a sua última década à frente do banco, Greenspan atuou em um período de declínio da inflação e rápido crescimento da produtividade. Já Bernanke assumiu o cargo em um momento no qual a inflação subia e o aumento da produtividade passava por uma desaceleração.

"Assim que passarmos por esta crise, o Fed de Bernanke terá que enfrentar o oposto daquilo que o Fed de Greenspan enfrentou", opina Adam Posen, vice-diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional e autor, com Bernanke, de um livro sobre política monetária. "Onde Greenspan tinha que segurar a elevação dos índices quando a economia era forte, o desafio de Bernanke será conter as reduções das taxas de juros quando o ritmo da economia diminuir".

Isso representa um problema potencial para Bernanke: fazer o que Alan Greenspan fez - manter as taxas de juros mais baixas do que o senso comum recomendaria à época - pode revelar-se a receita errada.

"De fato, parece que a maior parte da vantagem extra que foi o aumento da produtividade quando o Fed tentava conter a inflação não estará presente desta vez", afirma J. Alfred Broaddus Jr., ex-presidente do Federal Reserve Bank of Richmond.

Caso o aumento da produtividade - a quantidade de produção por cada hora de trabalho - continuar se arrastando e a inflação permanecer acima da meta não oficial do Fed, que é de 2%, Bernanke poderá encontrar dificuldades para reduzir agressivamente os índices durante uma crise. Isso porque a produtividade mais baixa faz aumentar o risco de que salários mais altos alimentem a inflação.

Nesse tipo de situação, com menos válvulas de escape, Bernanke poderia ver-se sob uma pressão ainda maior, tanto dos líderes políticos quanto de Wall Street.

De fato, a pressão já está presente. Na última terça-feira, o deputado Barney Frank, democrata por Massachusetts, e presidente do Comitê da Câmara para Serviços Financeiros, criticou o Fed simplesmente por este ter advertido que os riscos de inflação não desapareceram. Frank disse temer que o Fed esteja se concentrando demasiadamente em combater a inflação, em vez de proteger os empregos.

Nesta quinta-feira (20/09), Frank presidirá uma audiência sobre a crise no setor de imóveis, na qual Bernanke prestará depoimento juntamente com Henry M. Paulson Jr., o secretário do Tesouro.

Vários analistas em Wall Street esperavam que Bernanke se mostrasse cauteloso ao responder ao pânico nos mercados financeiros. Greenspan reduziu as taxas de juros após o crash no mercado de ações em outubro de 1987, a crise financeira da Rússia de 1998 e o colapso de várias ações do setor de tecnologia em 2000.

Em parte devido à sua habilidade e à sensação de que ele protegeu a economia dos problemas, Greenspan tornou-se uma espécie de ícone.

Ele eclipsou todos os outros elaboradores de políticas do Fed, e era tratado por alguns como um oráculo das questões econômicas, até nas áreas referentes à política monetária que estavam fora da sua alçada. Ele se opôs a qualquer restrição à "autonomia" do Fed para responder às surpresas econômicas.

Bernanke, que, comparativamente, é um desconhecido, chegou com o objetivo de "despersonalizar" a política do Fed. Ele não se destacava nos círculos sociais de Washington, e não passava a imagem de um presidente do Fed dominador. Em um contraste nítido com o seu antecessor, ele argumentou que a política monetária deveria ser guiada menos pelas decisões do Fed e mais por uma meta fixa de inflação.

Mas Greenspan nem sempre foi tão ousado como sugere o mito em torno do seu nome. Quando os russos mergulharam em uma crise financeira em agosto de 1998, causando uma contração de crédito similar sob vários aspectos à atual, Greenspan inicialmente relutou em reduzir as taxas de juros.

Quando o banco central resolveu agir em setembro, ele reduziu as taxas do overnight em apenas 0,25%, e os investidores ficaram ainda mais nervosos. Foi apenas em outubro, dois meses após o início da crise russa, que o Fed reduziu as taxas de juros de forma mais arrojada - com um corte adicional de 0,5%.

Bernanke seguiu um padrão similar no mês passado. Apesar do temor crescente nos mercados financeiros quanto ao não pagamento das hipotecas, o Fed recusou-se a mudar de rumo na sua reunião sobre políticas financeiras em 7 de agosto. Dez dias depois, quando o mercado de papéis de curto prazo sofreu um abalo, o Fed tomou uma medida parcial, reduzindo o índice segundo o qual os bancos poderiam pegar empréstimos de curto prazo por meio da sua "janela de desconto".

Nas últimas semanas, Bernanke e outras autoridades do Fed enfatizaram que a sua meta principal não é acalmar Wall Street, e sim proteger a economia "real".

Mas isso revelou-se uma distinção sem uma diferença concreta.

"A responsabilidade do Fed é garantir que a economia real esteja se movimentando rumo a sua meta estatutária de estabilidade de preços e emprego pleno", afirma Michael H. Moskow, que se aposentou em agosto do cargo de presidente do Federal Reserve Bank of Chicago. "Um congelamento dos mercados financeiros pode ter um efeito significante sobre a economia real. No fim das contas, foi apenas normal que Bernanke respondesse da mesma forma que Greenspan. Os dirigentes do Fed enfatizam bastante as personalidades. Ambos fariam essencialmente a mesma coisa em uma situação como esta". UOL

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