UOL Notícias Internacional
 

20/09/2007

No Egito, uma pressão crescente contra a mutilação de genitais

The New York Times
Michael Slackman
Em Kafr Ai Manshi Abou Hamar, Egito
Os homens desta comunidade agrícola pobre estavam espumando de raiva. Uma menina de 13 anos havia sido levada ao médico para ter seu clitóris removido, uma cirurgia considerada necessária aqui para preservar a castidade e a honra.

A menina morreu, mas não foi esse o motivo da revolta. Após sua morte, o governo fechou a clínica, e isso deixou todo mundo irado.

"Eles não vão nos deter", gritou Saad Yehia, proprietário de uma casa de chá na rua principal. "Somos a favor da circuncisão!", gritava repetidamente.

"Mesmo que o Estado não goste, vamos circuncidar as meninas", gritava Fahmy Ezzeddin Shaweesh, idoso da aldeia.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Mulheres diante de cartaz onde se lê "O Começo do Fim, Não à Circuncisão Feminina"

A circuncisão, como chamam seus defensores, ou mutilação genital feminina, como chamam seus oponentes, subitamente tornou-se um foco de debate feroz no Egito neste verão. Uma campanha nacional para pôr fim à prática tornou-se um dos movimentos sociais mais poderosos do Egito em décadas, criando uma aliança improvável de forças do governo, líderes religiosos e ativistas.

Apesar do Ministério da Saúde do Egito ter determinado o fim da prática em 1996, permitiu exceções em caso de emergência, um furo legal que os críticos descrevem como tão grande que efetivamente rendeu a proibição sem sentido. Agora, porém, o governo está tentando forçar a proibição ampla.

Não somente foi incomum o governo fechar a clínica, mas o ministro da saúde também emitiu decreto proibindo qualquer um de conduzir o procedimento por qualquer razão. Além disso, o Ministério de Assuntos Religiosos também emitiu um folheto explicando por que a prática não é obrigatória no islã; o grande mufti do Egito, Ali Gomaa, declarou-a "haram", proibida pelo islã; a mais alta autoridade religiosa do Egito, Muhammad Sayyid Tantawi, chamou-a de danosa; anúncios de televisão foram veiculados em canais estatais para desestimulá-la; e uma linha telefônica nacional foi criada para responder perguntas do público sobre o corte das genitais.

No entanto, como os homens desta aldeia demonstraram, a mudança social ampla no Egito acontece lentamente, muito lentamente. Este país é conservador, religioso e guiado em grande parte pela tradição, mesmo quando não adere aos princípios de sua fé, seja o cristianismo ou o islã.

Durante séculos, as meninas egípcias, em geral entre sete e 13 anos, eram levadas para fazer o procedimento, às vezes por um médico, às vezes um barbeiro ou outro na aldeia que o fizesse. Até pouco tempo atrás, em 2005, 96% das milhares de mulheres casadas, divorciadas ou viúvas entrevistadas em uma pesquisa do governo disseram que sofreram o procedimento -número que espanta até muitos egípcios. Segundo a pesquisa: "A prática da circuncisão feminina é virtualmente universal entre mulheres em idade reprodutiva no Egito".

Apesar de a prática ser comum e cada vez mais contenciosa na África sub-saariana, o único outro lugar entre os Estados árabes onde essa prática é costumeira é no sul do Iêmen, dizem os especialistas. Na Arábia Saudita, onde as mulheres não podem dirigir, não podem votar, não podem exercer a maior parte dos empregos, a prática é vista como aberrante, um reflexo de tradições pré-islâmicas.

Agora, subitamente, as forças que se opõem à mutilação genital no Egito estão pressionando como nunca. Mais de um século depois dos primeiros esforços para deter esse costume, o movimento rompeu uma das principais barreiras à mudança; não é mais considerado tabu discuti-la em público. Essa mudança parece ter coincidido com uma aceitação pequena, mas crescente de falar de sexualidade humana na televisão e no rádio.

Segundo os opositores da prática, pela primeira vez os noticiários e jornais deram detalhes das operações fracassadas. Neste verão, duas jovens morreram e foram notícia de primeira página do Al Masry Al Yom, jornal independente e popular. Ativistas marcaram as mortes com demonstrações públicas, o que gerou ainda mais cobertura.

A força por trás dessa colaboração improvável entre organizações não governamentais e o governo, líderes políticos e a mídia é uma antropóloga de 84 anos, franca, chamada Marie Assaad, que vem falando contra a mutilação genital desde os anos 50.

"Nunca pensei que viveria para ver este dia", disse ela, lendo um artigo sobre o assunto em um jornal de ampla circulação.

Nasr el Sayyid, assistente do ministro de saúde, disse que já houve uma queda na freqüência da prática nas áreas urbanas, e há um esforço agressivo para contê-la em mais de 100 aldeias, na maior parte no sul. "Nosso plano nos próximos dois anos tem como meta diminuir a prática em 20% no país", disse ele.

O desafio, entretanto, está em persuadir as pessoas que seus avós, seus pais e elas mesmas prejudicaram suas filhas. Os ativistas ainda têm que convencer o público que haverá homens para casar com uma mulher que não sofreu o procedimento e que a circuncisão não é necessária para preservar a honra da família. É um desafio fazer os homens desistirem de parte de seu controle sobre as mulheres.

E será um desafio convencer pessoas influentes como Osama Mohamed el Moaseri, imame de uma mesquita em Basyoun, perto da aldeia onde morava a menina de 13 anos que morreu. "Essa prática foi passada de geração em geração, então é natural que toda pessoa circuncide sua filha", disse ele. "Quando Ali Gomaa diz que é 'haram', está criticando a prática de nossos pais e avós".

O movimento contra a mutilação genital, entretanto, amadureceu e está cada vez mais preparado para esses argumentos. No princípio, Assaad e um grupo de intelectuais criaram uma força tarefa e simplesmente faziam palestras aos seus vizinhos, essencialmente chamando a prática de bárbara.

"No início, pregávamos e dizíamos que era errado", lembra-se ela. "Não funcionou. Eles diziam: 'Aconteceu com nossas mães e avós, e estão bem.'"

Ela e seus colegas pareciam intelectuais urbanos fora de sintonia, disse ela. Com o tempo, porém, eles conseguiram a ajuda de acadêmicos islâmicos e funcionários da saúde, na esperança de eliminar os enganos -como a idéia que cortar o clitóris previne a homossexualidade.

"A circuncisão é um costume muito antigo e não tem absolutamente benefício algum", disse Vivian Fouad, que ajuda a responder as ligações para o número de telefone nacional, a uma pessoa que ligou para saber o que fazer com a filha. Ela continuou: "Se você quer proteger sua filha, então tem que criá-la bem. O principal fator em tudo é como você vai criar sua filha, não cortá-la."

O Egito é uma sociedade patriarcal, mas as mulheres podem ser uma força poderosa. Então Assaad tentou convencer a entrarem na batalha duas mulheres importantes, privilegiadas, da elite que, como ela, não acreditavam que a prática ainda fosse tão ampla.

A primeira foi Suzanne Mubarak, mulher do presidente Hosni Mubarak e força política por si só. A segunda foi uma aliada de Mubarak, Mosheira Khattab, diretora do Conselho Nacional pela Infância e Maternidade, uma agência do governo que ajuda a criar as políticas sociais de saúde.

Khattab tornou-se uma força na promoção do movimento. Seu conselho agora tem uma equipe em tempo integral trabalhando sobre a questão e dirige a linha telefônica. Ela excursionou pela região do delta do Nilo, três cidades em um dia, promovendo a mensagem, revoltada com o fato da mutilação genital não ter cessado.

"O Alcorão é novo nessa tradição", disse ela. "Como sociedade machista, os homens pegaram as partes da religião que os satisfaziam e inflaram-nas. As partes dos Alcorão que ajudavam as mulheres, eles ignoraram".

É um golpe incomum contra os islâmicos que promoveram a prática como se fizesse parte da religião, pois o governo evita enfrentar os líderes religiosos conversadores. O governo do Egito, em geral, tenta se colocar como guardião dos valores islâmicos, para promover sua própria legitimidade enfraquecida e cortar o apoio à Fraternidade Muçulmana, movimento de oposição proibido, mas popular.

No entanto, o discurso religioso em relação aos cortes genitais mudou, graças à estratégia de Assaad de buscar pessoas como Mubarak e de jovens como Fatma Ibrhaim, 24. Quando Ibrahim tinha 11 anos de idade, disse ela, seus pais disseram que ia fazer um exame de sangue. O médico, um parente, colocou-a para dormir e, quando acordou, não podia andar.

A memória a persegue até hoje, e apesar de dizer que seus pais "a matarão" se descobrirem, ela tornou-se voluntária no movimento contra a mutilação genital, na esperança de evitar que outras mulheres passem pelo que ela passou.

"Estou tentando conversar com as jovens, as que vão ter filhos em 10 anos", disse ela. "Este é meu grupo alvo. Falo com as jovens. Quando me casar, inshallah, nunca, jamais vou circuncidar minha filha". Deborah Weinberg

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