UOL Notícias Internacional
 

21/09/2007

Editorial: O alto custo do etanol

The New York Times
Editorial do NYT de 19/09/2007
Apoiada pela Casa Branca, pelos governadores dos Estados produtores de milho e por blocos sólidos dos dois lados da divisão partidária do Congresso, a política dos biocombustíveis não poderia parecer mais animadora. Mas os aspectos econômicos do esforço americano para aumentar o etanol no suprimento de energia são menos entusiasmadores.

O etanol americano baseado em milho é caro. E embora possa ajudar a reduzir as importações de petróleo e produzir reduções modestas nos gases do efeito estufa, comparado com a gasolina convencional, o etanol de milho também inclui riscos consideráveis. Mesmo hoje, enquanto a Europa e a China se unem aos EUA para aumentar a produção, os preços mundiais dos alimentos estão subindo, ameaçando levar miséria aos países mais pobres.

A União Européia anunciou que quer substituir 10% do combustível de seus transportes por biocombustíveis até 2020. A China visa uma porcentagem de 15%. Os EUA já estão em vias de superar a meta do Congresso para 2005 de duplicar a quantidade de etanol usado em combustíveis para motores para 7,5 bilhões de galões até 2012. Em seu discurso sobre o Estado da União em janeiro, o presidente Bush definiu uma nova meta de 35 bilhões de galões de biocombustíveis até 2017. Em junho o Senado a elevou para 36 bilhões de galões até 2022. Destes, o Congresso disse que 15 bilhões de galões deverão vir do milho e 21 bilhões de biocombustíveis avançados, que não estão sequer perto da produção comercial.

As distorções na produção agrícola são alarmantes. Os preços do milho subiram cerca de 50% em relação ao ano passado, enquanto os preços da soja têm projeção de aumento de 30% no próximo ano, pois os agricultores substituíram a soja por milho em seus campos. O crescente custo da ração animal está fazendo subir os preços dos laticínios e produtos avícolas.

As notícias do resto do mundo não são muito melhores. A produção de etanol nos EUA e em outros países, combinada com o clima adverso e a crescente demanda por ração animal da China, ajudou a empurrar os preços globais dos cereais a seus níveis mais altos em pelo menos uma década. No início deste ano, os crescentes preços das importações de milho dos EUA provocaram protestos maciços no México. O chefe da Organização para Alimentos e Agricultura da ONU advertiu que o aumento dos preços dos alimentos em todo o mundo ameaça tumultos sociais nos países em desenvolvimento.

Um recente relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, um fórum econômico dos países ricos, pediu que os EUA e outros países industrializados eliminem os subsídios à produção de etanol, que, segundo o relatório, estão fazendo aumentar os custos dos alimentos, ameaçando habitats naturais e impondo outros custos ambientais. "Os impactos ambientais em geral do etanol e do biodiesel podem muito facilmente superar os do petróleo e do diesel mineral", disse o documento.

A economia do etanol de milho nunca fez muito sentido. Em vez de importar etanol barato do Brasil, feito de cana, os EUA impõem uma tarifa de 54 centavos por galão sobre o etanol do Brasil. E então concedem um subsídio fiscal de 51 centavos por galão aos produtores americanos - generosos subsídios que os produtores já recebiam de programas agrícolas.

O cultivo do milho para etanol também exige grandes extensões de terra. Um relatório da OCDE dois anos atrás sugeriu que substituir 10% do combustível para motores nos EUA por biocombustíveis exigiria que cerca de um terço de todas as terras aráveis fossem dedicadas a cereais, sementes oleaginosas e vegetais açucareiros.

Entretanto, os benefícios ambientais são modestos. Um estudo publicado no ano passado por cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley estimou que, depois de contabilizar a energia usada para cultivar o milho e transformá-lo em etanol, o etanol de milho reduz as emissões de gases do efeito estufa em apenas 13%.

Os EUA não vencerão o duplo desafio de reduzir o aquecimento global e sua dependência dos fornecedores estrangeiros de energia enquanto não reduzirem o consumo de energia. Esse deve ser seu principal objetivo.

Não há nada errado em desenvolver combustíveis alternativos, e existe grande esperança entre os ambientalistas e até entre capitalistas de risco de que biocombustíveis mais avançados -como o etanol de celulose- possam eventualmente ter um papel construtivo na redução da dependência do petróleo e dos gases do efeito estufa. O que é errado é deixar a política -do tipo que leva a subsídios desnecessários, à invasão de áreas naturais que deveriam ser preservadas e ao aumento dos preços dos alimentos que prejudica os pobres-, em vez da ciência confiável e da economia confiável, conduzirem a política energética americana. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host