UOL Notícias Internacional
 

21/09/2007

Euro atinge valor recorde em relação ao dólar

The New York Times
Carter Dougherty
Em Frankfurt
O mundo rejeitou o dólar na quinta-feira (20/09), empurrando-o para um patamar de desvalorização sem precedentes de US$ 1,40 em relação ao euro, e para a paridade com o dólar canadense pela primeira vez em três décadas, à medida que os operadores de câmbio em todo o mundo digeriam as implicações integrais do novo rumo adotado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) em relação às taxas de juros.

A venda frenética começou no início do dia na Europa, não diminuiu de ritmo, e alcançou o outro lado do Oceano Atlântico, à medida que os operadores de câmbio concluíam que os custos mais reduzidos dos empréstimos, instituídos na última terça-feira pelo Fed, reduziriam a procura pelos ativos dominados pelo dólar, como as ações, os títulos e os imóveis, no momento em que outros bancos centrais estão elevando as suas taxas de juros para criar o efeito oposto.

Com a ação do Fed sobreposta a uma economia norte-americana enfraquecida e ameaçada, bem como com a perspectiva de uma retração dos consumidores que provocaram crescimento econômico durante anos, o dólar irradiou instabilidade. O seu papel tradicional de refúgio em tempos de crise, que era tão evidente ainda no início de agosto último, pareceu ter caído no esquecimento.

"A situação está bem feia neste momento para o dólar", afirma Jim McCormick, o diretor de estratégias de câmbio da Lehman Brothers International, com sede em Londres. "Mas os mercados estão respondendo de uma maneira muito racional àquilo que o Fed fez na terça-feira".

O dólar chegou a cair para US$ 1,4094 em relação ao euro na metade do dia nas negociações em Nova York, tendo rompido a barreira dos US$ 1,40 em Londres, o centro mundial de operações de câmbio. O dólar também perdeu terreno para a libra esterlina, que agora vale aproximadamente US$ 2.

O iene japonês e o franco suíço também se valorizaram bastante em relação ao dólar, algo bastante inusual, considerando-se que as taxas de juros ainda estão comparativamente baixas no Japão e na Suíça. O dólar registrou a sua maior queda diária em relação ao iene japonês em duas semanas.

Em relação ao dólar canadense, a moeda do maior parceiro comercial dos Estados Unidos, o dólar caiu para uma relação um por um, um nível que não era presenciado desde 1976, na fase inicial de uma crise cambial que acabou emitindo ondas de choque por toda a economia mundial.

"Parecemos estar a anos luz de distância da situação de cinco anos atrás, quando o valor do dólar canadense ameaçava cair para menos de 60 centavos do dólar estadunidense", afirma Douglas Porter, economista da BMO Nesbitt Burns, a unidade de corretagem do Banco de Montreal. "Isso terá um grande impacto psicológico por aqui".

O preço do ouro também disparou, alcançando o seu maior valor em 27 anos, de US$ 744,10 a onça, em uma elevação de US$ 14,60, nas negociações de meados do dia em Nova York.

Mesmo assim, os analistas de câmbio estão evitando por ora o termo "crise do dólar", preferindo encarar os acontecimentos da quinta-feira como a conseqüência lógica da decisão do Fed, anunciada de surpresa, de reduzir as taxas de juros em meio ponto percentual, para 4,75% - uma medida cuja intenção foi proteger o círculo mais amplo da economia dos efeitos de um colapso do mercado de imóveis e acalmar os tensos mercados de créditos.

Mas os eventos da quinta-feira deixaram pouca dúvida de que as reações às variações do dólar estão evoluindo de forma mais rápida do que esperavam os analistas.

"O que está mudando é o fato de que anteriormente as pessoas viviam com a idéia de que o dólar poderia sofrer uma breve queda, mas que depois se recuperaria", afirma Thomas Stolper, estrategista de câmbio da Goldman Sachs, em Nova York. "Mas esta idéia está mudando".

O presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, reconheceu a gravidade da crise durante um depoimento perante um comitê na Câmara dos Deputados na quinta-feira, embora tenha argumentado que a redução das taxas de juros faz parte de um cuidadoso equilíbrio que o banco central precisa promover entre o combate à inflação e o incentivo ao crescimento.

O secretário do Tesouro, Henry M. Paulson Jr., presente na mesma audiência, afirmou que o governo Bush está cogitando permitir que as agências de hipoteca apoiadas pela administração federal, Fannie Mae e Freddie Mac, comprem e agreguem empréstimos "jumbo" de mais de US$ 417 mil. Em tese, a medida ajudaria a reduzir a tensão nos mercados imobiliários.

O presidente Bush também usou palavras suaves, ainda que o mundo estivesse questionando mais do que nunca se a economia norte-americana entrará em recessão. "As bases da economia da nossa nação são fortes", disse Bush em uma coletiva à imprensa. "Não há como negar que o mercado de imóveis enfrenta um período de intranqüilidade".

Mas, quase diariamente, a economia norte-americana parece exibir novas evidências de que a crise do mercado imobiliário poderá levar os consumidores a gastar menos - um temor evidentemente compartilhado pelos elaboradores de políticas no Fed. Isso conferiu um novo ímpeto aos operadores de câmbio que acreditam na queda do dólar.

"Não estou certo de que seja possível argumentar que o que está enfraquecendo o dólar são apenas os diferenciais de taxas de juros", afirma Mitul Kotecha, diretor de pesquisa de câmbio internacional da Calyon, em Londres. "O Fed está validando esse rumo, mas junto a isso existem preocupações quanto ao crescimento econômico".

Na Europa, a queda recorde do dólar gerou uma reação política que se tornou comum nos últimos anos, com a ministra francesa das Finanças, Christine Lagarde, pedindo um esforço continental para reverter essa tendência.

"Digamos que é uma mudança de patamar que preocupa todos os europeus, e que é sem dúvida uma questão que devemos enfrentar juntos como europeus", declarou Lagarde durante uma visita à China.

Os franceses temem que o aumento do euro tenha passado em grande parte desapercebido em outras capitais européias. O ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrueck, chegou até a declarar: "Eu adoro um euro forte". Mas até mesmo na Alemanha, o dínamo das exportações da Europa, começam a acumular-se evidências esparsas de que o vigor da moeda européia está prejudicando as vendas ao tornar as exportações mais caras.

Ralf Wiechers, economista da VDMA, a associação que representa os fabricantes de maquinários, e cujo desempenho tem sido a espinha dorsal do boom alemão, diz que a fatia do mercado está sendo mantida graças a um vigoroso crescimento mundial. Mas os valores da moeda estão começando a influenciar os lucros.

"A economia mundial está criando o volume", disse Wiechers. "A taxa de câmbio começa a decidir qual será a margem de lucro". Como exemplo, ele cita os fabricantes de máquinas de impressão, que enfrentam forte concorrência de companhias norte-americanas e japonesas, que agora contam com uma vantagem cambial considerável em relação aos alemães.

Mas no seu nível mais amplo, o vigoroso euro - a moeda unificada criada em 1999 - oferece algumas vantagens à Europa. A mais notável é a capacidade de adquirir matérias-primas, especialmente o petróleo, com uma moeda muito forte.

Os preços do petróleo bateram um outro recorde na quinta-feira, chegando a US$ 82,55 em Nova York. Teoricamente os europeus estão protegidos desse aumento devido à força do euro, mas, segundo os economistas, o efeito deverá se desdobrar de diversas maneiras.

Por exemplo, as grandes importadoras e refinarias de petróleo cru podem esperar um impacto positivo, que talvez até possibilite que contratem mais pessoal. Mas os empregados das manufaturas que forem despedidos devido à redução das vendas motivada pelo fortalecimento do euro não podem esperar simplesmente uma transferência para o setor petrolífero.

"Em um caso clássico, o que presenciaríamos de fato seriam grandes mudanças de recursos econômicos", afirma Erik Nielsen, o mais graduado economista da Goldman Sachs na Europa. "Mas esta é uma economia na qual alguns vencem e outros perdem".

Enquanto isso, no Canadá, os economistas em geral concordam que a ascensão do dólar canadense, que começou a se valorizar cerca de dois anos atrás, está mais relacionada à vitalidade da economia canadense do que aos problemas da economia estadunidense.

A demanda, em grande parte da Ásia, fez com que subissem os preços de vários dos principais produtos canadenses de exportação, incluindo minérios, petróleo e trigo. Ao mesmo tempo, o governo canadense, que reestruturou as suas operações e finanças na década de 1990, está prestes a anunciar o seu 11° superávit orçamentário consecutivo.

Como principal economista da Canadian Manufacturers and Exporters, um grupo de lobby, Jayson Myers vê poucos motivos para alegria profissional com a alta do dólar canadense. Mas ele reconhece que a paridade com o dólar estadunidense terá um impacto psicológico positivo sobre os canadenses.

"É algo que faz com que muita gente se sinta muito bem", afirma Myers, que trabalha em Ottawa. "As pessoas poderão voltar a viajar para os Estados Unidos e para a Europa. Depois de verem a sua moeda ficar durante 16 anos em uma posição inferior, os canadenses contam agora com um forte poder de compra".

Mas, no fim das contas, isso pode também significar que alguns dos maiores ganhos advindos de um forte dólar canadense acabarão sendo sentidos fora do Canadá, especialmente pelas indústrias de viagens e vendas dos Estados Unidos.

* Ian Austen, em Ottawa, contribuiu para esta matéria. UOL

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