UOL Notícias Internacional
 

22/09/2007

Imigrantes ilegais perseguem falsa esperança no Canadá

The New York Times
Monica Davey e Abby Goodnough*

Em Windsor, Ontário
Para fugir das batidas cada vez maiores das autoridades americanas, imigrantes ilegais nos Estados Unidos, a maioria mexicanos, estão chegando em número crescente a esta cidade de fronteira canadense em busca do status de refugiados.

Muitos imigrantes que viviam ilegalmente na Flórida começaram a tentar ir para além da fronteira norte dos Estados Unidos para outros locais, a maioria deles voando para o aeroporto de Toronto, disseram autoridades canadenses na quinta-feira.

Fabrizio Costantini/The New York Times 
Pedro Palafox Marin (esq.) guarda sua bagagem no carro ao deixar um motel em Ontario

As chegadas começaram repentinamente há três semanas, inicialmente apenas uma ou duas famílias, alimentadas pela noção -em grande parte infundada, disseram as autoridades daqui- de que o Canadá lhes concederia asilo.

A jornada, disseram alguns imigrantes, foi inicialmente sugerida por uma organização em Naples, Flórida, que cobrava uma taxa para auxiliar com a papelada necessária. A idéia agora se espalhou pela Internet e por redes sociais.

Até quinta-feira, pelo menos 200 pessoas chegaram aqui, cruzando a fronteira vindas de Detroit, com o máximo de suas vidas que puderam enfiar em malas, caixas e sacos de lixo e então em seus carros. Mais milhares, disseram defensores de refugiados e autoridades canadenses, podem estar a caminho.

Defensores de imigrantes emitiram alertas urgentes aos mexicanos que pensam em realizar viagens semelhantes, e expressaram fúria com os grupos que os encorajam. Na verdade, o status de refugiado para cidadãos mexicanos é relativamente incomum no Canadá. Apenas 28% de tais pedidos foram aprovados pelo Canadá no ano passado, em comparação a 47% dos pedidos de todas as nacionalidades.

"É um ultraje que estejam cobrando destas pessoas por informação falsa e perigosa", disse Rivka Augenfeld, do Conselho Canadense para Refugiados, uma organização sem fins lucrativos de direitos e proteção de refugiados. "Esta idéia está lá fora e crescendo".

As autoridades de Windsor, que se esforçaram para organizar uma reunião na quinta-feira em um centro comunitário com alguns dos recém-chegados para que pudessem se inscrever em programas sociais, disseram estar sobrecarregadas com a investida e profundamente preocupadas com o futuro próximo. Elas já encheram um abrigo com 30 homens solteiros; as autoridades agora estão pagando quatro motéis para abrigar famílias, disse o major Wilfred Harbin, administrador do Exército da Salvação local. As refeições são entregues para as famílias por táxis.

"Nós não temos idéia do que faremos", disse Harbin, que disse ter ouvido que até 7 mil mexicanos poderiam requerer o status de refugiados nas próximas semanas.

Eddie Francis, o prefeito de Windsor, enviou na quarta-feira uma carta por fax às autoridades federais canadenses em busca de ajuda financeira de emergência.

"Eu simpatizo com os desafios mas não temos capacidade de administrar isto", disse Francis. "Nós nunca vimos nada assim".

Muitas das famílias que vieram para cá disseram que souberam da possibilidade de fugir para o Canadá por meio de uma organização em Naples, Flórida, o Centro Comunitário Haitiano Jerusalém, que fornecia "informação necessária para pedido de status de refugiado no Canadá" em seu site. O grupo, disseram alguns refugiados, recebia US$ 400 por adultos e US$ 100 por crianças e assegurava que teriam abrigo e empregos.

"Eu não sei se o que me disseram sobre vir para cá era correto ou não, mas o que posso fazer agora?" disse Pedro Palafox Marin, que disse ter pago US$ 800 para a organização, antes de dirigir a noite toda para chegar a Windsor com sua esposa e filhos.

"Na Flórida todo emprego que tive, onde quer que fosse, havia uma pressão enorme da imigração. Ser ilegal sempre esteve na minha cabeça. Agora eu posso relaxar", disse Marin.

Imigrantes ilegais estão particularmente temerosos de deportação nos últimos meses, disseram pessoas em Naples e no condado de Collier ao redor. A comunidade está repleta de histórias de imigrantes pegos e deportados e de cartas do governo sendo enviadas para os empregadores os alertando a não empregarem os imigrantes ilegais.

O Escritório do Xerife do Condado de Collier se tornou recentemente a primeira agência local de manutenção da lei na Flórida a enviar seus agentes para treinamento no Serviço de Imigração e Alfândega, o que lhes dá autoridade para deter suspeitos de serem imigrantes ilegais.

Em Naples na quinta-feira, Jacques Sinjuste, o diretor geral do Centro Comunitário Haitiano Jerusalém, negou ter incitado imigrantes ilegais a buscarem asilo no Canadá ou ter dito que empregos os esperam lá. Sinjuste disse que ele e um pequeno grupo de voluntários no centro apenas ajudaram imigrantes a preencherem os pedidos de asilo, ele disse.

"Nós preenchemos para eles e aí acaba nosso trabalho", ele disse. "Muitas pessoas estão levando o nome de minha organização consigo quando chegam ao Canadá e dizem que eu os enviei. Mas não sei de nada a respeito."

Sinjuste, um imigrante haitiano que fundou o centro em 2000, disse que ouviu falar da possibilidade de pedir asilo ao Canadá por meio de um cliente, que trouxe um dos formulários ao seu escritório há dois anos. De lá para cá, ele disse, o centro ajudou cerca de 300 imigrantes ilegais a preencherem os formulários canadenses de pedido de asilo, cobrando US$ 400 por pessoa.

Sinjuste disse que recentemente demitiu um advogado que trabalhava para o centro por descrever a cobrança como uma "taxa" no site do centro.

"Não é uma taxa; é doação", ele disse. "Grande parte dela vai para pagar os voluntários que nos ajudam a fazer o trabalho, para comprar tinta e papel".

Em alguns casos, ele acrescentou, o dinheiro pago pelos imigrantes ajuda a financiar a viagem deles até a fronteira canadense.

"No momento não nos resta quase nada", disse Sinjuste. A conta bancária do centro, ele disse, contém cerca de US$ 1.900.

"Nós não queremos ganhar dinheiro em cima das pessoas", ele disse. "Minha posição é defender as minorias, não explorá-las".

Ele disse que o centro, uma caridade sem fins lucrativos, ajuda principalmente imigrantes haitianos, mas recentemente viu um afluxo de latinos à procura de serviços.

Os haitianos há muito migram para o Canadá, particularmente para Montreal, a maior cidade de língua francesa na América do Norte. Mas advogados de imigração dizem que a probabilidade é muito maior dos haitianos serem autorizados a permanecer lá como refugiados do que os mexicanos.

Para obter o status de refugiados da Junta de Refugiados e Imigração do Canadá, os imigrantes devem mostrar "um temor crível de perseguição" associada à sua raça, religião, nacionalidade ou histórico político, disse Charles Hawkins, um porta-voz da junta. No ano passado, 53% dos haitianos que pediram asilo foram aceitos aqui. Mas mesmo aqueles que são rejeitados não são deportados ao Haiti: o governo suspendeu temporariamente as deportações para lá, devido à turbulência naquele país.

Mas não existe tal suspensão em relação ao México. Apesar dos mexicanos que viveram nos Estados Unidos serem autorizados a pedir asilo ao Canadá, eles serão deportados ao México em caso de rejeição do pedido.

Vários advogados disseram estar pessimistas com as chances destes imigrantes receberem asilo, um processo que pode levar entre seis meses e dois anos. Mesmo assim, a maioria dos mexicanos que estão aqui se diz esperançosa. Eles passaram a quinta-feira à procura de apartamentos para os quais se mudarem, descarregando os carros, preenchendo a papelada.

"Talvez eles tenham compaixão de nós", disse Manuel Gonzalez, 46 anos, sobre seu pedido de asilo. "Tudo o que queremos é viver, seguir as leis e trabalhar." Se referindo à ajuda que as autoridades canadenses já lhes dão, Gonzales, que veio de Naples, disse: "O que não tínhamos nos Estados Unidos nós recebemos aqui em um segundo".

Carina Gonzalez, que veio dirigindo de Naples há poucas semanas, disse que viveu nos Estados Unidos por dez anos. Quando ela se dirigiu ao agente alfandegário enquanto atravessava para o Canadá, ela lembrou, ela se sentiu profundamente nervosa mas também aliviada.

Ela disse que trabalhava em uma mercearia nos Estados Unidos mas que seus empregadores faziam cada vez mais perguntas sobre seus documentos e seu status legal.

"Eu pude sentir o cheiro da liberdade quando atravessei a fronteira", disse Carina, 25 anos. "Eu não sei o que acontecerá a seguir, mas a pressão da preocupação em não ser pega nunca me deixou dormir bem".

* Reportagem de Monica Davey, em Windsor, e Abby Goodnough, em Naples. Julia Preston, Ian Austen e Lynn Waddelly contribuíram com reportagem adicional. George El Khouri Andolfato

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