UOL Notícias Internacional
 

23/09/2007

Amor Moderno: um doloroso lembrete do meu ex

The New York Times
Jennifer Cacicio*
Meu ex-namorado se pendura em ganchos. Eles penetram na pele da parte superior de suas costas e ele é erguido por um cordame; ele fica pendurado no ar, sua pele esticada como se fosse puxa-puxa.

Eu descobri certa noite enquanto estava entediada e procurando antigos amigos e amores no MySpace. Eu digitei seu nome por capricho, não esperando que aparecesse algo. Eu nunca o encontrei em minhas buscas anteriores e sabia que ele tendia a viver fora do radar: sem conta bancária, cartão de crédito ou aluguel de imóveis. Foi difícil de acreditar que ele tivesse o fiapo de exibicionismo necessário para criar uma página no MySpace. Mas desta vez, lá estava ele. Era a primeira vez que o via em quase sete anos.

AChau Doan/The New York Times 
Sobre a gravidez, ele disse: "Talvez se tivéssemos um filho, nós não mais nos sentiríamos perdidos"


Sua foto principal era um close de seu rosto e imaginei que fosse um daqueles auto-retratos de fim de noite que você mal se lembra no dia seguinte. Ele parecia um pouco mais velho, alguns quilos mais pesado. A barba loira escura dele estava desgrenhada. Seus olhos estavam cansados, seu sorriso embriagado. Curiosa, eu olhei o restante das fotos espalhadas em miniaturas pela tela. Uma em particular chamou minha atenção, então cliquei para ampliá-la. A primeira coisa que vi foi sangue.

Era tarde, mas mesmo assim liguei para minha irmã, deixando o telefone tocar até acordá-la. "Alô?" ela disse assonada.

"Ligue seu computador", eu disse. Após direcioná-la para a página dele, nós permanecemos lá em silêncio, nossos telefones pressionados contra a orelha, nossa respiração irregular.

"Oh, meu Deus", disse minha irmã.

"Oh, meu Deus", eu concordei.

A foto era grande em nossos laptops: costas brancas largas, escurecidas apenas por uma grande tatuagem preta de crânios e rostos fantasmagóricos de um desenho animado antigo envoltos em uma espécie de teia. Pequenos filetes de sangue corriam pelas tatuagens. Meus olhos seguiram o sangue para cima até sua fonte: quatro grandes ganchos prateados que perfuravam a pele de suas costas, que estava esticada muito além do que parecia seguro ou mesmo possível.

Como eu logo descobriria, ele não é o único a praticar isso. Há grupos de entusistas de "suspensão" em todo o país, em todo o mundo. Eles têm sites na Internet com respostas para perguntas freqüentes que explicam o contexto histórico e cultural da "arte" e promovem técnicas seguras para impedir infecção e trauma. Mas tal conhecimento não ajudou em nada a amenizar meu sentimento de perturbação e perplexidade em relação ao meu ex-namorado.

"Oh, meu Deus", minha irmã disse de novo.

"Oh, meu Deus", eu repeti. Minhas mãos estiveram naquelas costas.

Atrás dele, a noite era escura. Algo brilhava no canto esquerdo superior da foto, uma iluminação de rua ou talvez a lua. Eu mal conseguia perceber o telhado de uma casa e o perfil de uma picape.

Oito anos atrás, nós nos conhecemos em um restaurante em Boston onde ambos trabalhávamos nos fins de noite. Ambos estávamos no meio de relacionamentos que estavam se deteriorando e nosso compadecimento nos transformou em amigos, confidentes e no final um casal. Nosso relacionamento foi breve, intenso e tumultuado, mais vício que amor -um banho quente escaldante que parece reconfortante mas na verdade está queimando você.

Eu acho que ambos sabíamos que não éramos a pessoa certa um para o outro, mas não nos importávamos. Éramos jovens, perdidos e desimpedidos, ambos secretamente assustados com a frase "sua vida inteira está diante de você". Deprimidos e desencorajados com o caminho aparentemente desnorteado em que nos encontrávamos, nós íamos demais a festas, ao mesmo tempo em que tratávamos um ao outro como um vício adicional. Mais que qualquer coisa, nós estávamos gratos por não estarmos dormindo sozinhos.

Após alguns poucos meses, eu descobri que estava grávida.

Eu marquei uma consulta em uma clínica de aborto antes mesmo de contar a ele, nunca considerando qualquer outra opção. Eu tinha 20 anos, tinha largado a faculdade com nada além de um diário de poesia mal escrita e um currículo profissional de empregos em restaurantes. Ele tinha 26 anos, um cozinheiro de refeições rápidas que gostava de fumar, beber e tatuagens. Éramos apenas crianças.

Quando ele disse sem hesitação que gostaria de ter o bebê, eu fiquei chocada. Oriundo de uma família abusiva, ele costumava dizer que não queria ter filhos, que nunca traria uma criança a um mundo tão caótico. Mas quando a oportunidade de fato surgiu, ele mudou de idéia.

"Talvez isto seja exatamente o que precisamos", ele disse. "Exatamente o que estávamos procurando. Talvez uma criança desse sentido à nossa vida, um propósito. Talvez se tivéssemos um filho, nós não mais nos sentiríamos perdidos".

Sua argumentação oscilava violentamente de racional a acalorada, o que me irritava e confundia. A certa altura, eu até mesmo me perguntei se ele estava certo, se talvez devêssemos arriscar. Eu fui criada em uma família religiosa (apesar de dividida) e também tinha dúvidas, um sentimento de vergonha, de destino, de pagar pelos meus erros.

Mas eu não o amava. Eu me importava com ele. Eu estava inexplicadamente ligada a ele, dependente. Mas eu sabia que não duraria. Éramos jovens demais. Não tínhamos plano de saúde, empregos estáveis ou dinheiro poupado. Mas eram apenas desculpas. Na verdade se tratava do fato de que não seria capaz de criar um filho com alguém que não amava. Eu não podia ter um filho com alguém que não amava.

No final, eu telefonei para ele do banco de trás do carro da minha mãe, parado à frente da garagem da casa de uma amiga nos subúrbios onde fui me esconder. "Eu decidi", eu lhe disse. "O procedimento será amanhã."

Ele ficou tão silencioso que mal podia ouvir sua respiração. O telefone parecia grande demais na minha mão; seus números acesos esquentavam minha bochecha.

"Alô?" eu disse.

"Você está morta para mim", ele respondeu. Então desligou.

À medida que os anos se passaram, eu me vi isenta de pesar. Eu não sentia saudade dele nem pensava nele com freqüência. De certa forma, seu comportamento no final apenas reforçou o fato de que eu tinha tomado a decisão certa.

Mas de vez em quando me vinha a idéia de que poderia ter um filho de 2 anos àquela altura, um de 4, e assim por diante. Eu me via sentada em um restaurante, observando um garçom trazer um cadeirão ou lápis de cor para pais agradecidos, e pensava: "Que estranho".

E então pensava nele, onde e como estava. Estaria casado? Teria filhos? Eu me perguntava o que poderia ter acontecido se tivéssemos tido o bebê, se ainda estaríamos juntos, tentando fazer funcionar apesar de todas as adversidades, apesar de não nos amarmos.

Tal curiosidade é que me levava a procurar por ele de vez em quando, e agora que o tinha encontrado não conseguia tirá-lo da minha cabeça: as costas brancas largas, os filetes de sangue, a lua. Por semanas aquela imagem me tomava com uma náusea, como uma gripe persistente. Eu revirei a Internet em busca de mais informação, mais imagens. Eu reuni todo fato, história e foto que pude encontrar sobre pessoas que se penduravam em ganchos. Talvez se juntasse tudo o que havia, se montasse o quebra-cabeça, talvez eu pudesse começar a entender.

Eu vi pessoas penduradas em quintais, depósitos e salas de estar, presas pelas costas, peitos e joelhos. Eu assisti um vídeo de ganchos penetrando nas costas de uma jovem pela primeira vez, como ela quase desmaiou, como teve que deitar para não vomitar. Eu li o relato da primeira vez de uma pessoa, como parecia que suas entranhas estavam sendo arrancadas. Eu aprendi que os melhores ganchos de suspensão são aqueles usados pera pegar salmão.

Quanto mais eu descobria, mais eu me via balançando a cabeça como uma velha, pasma com a juventude de hoje. Eu me perguntava em silêncio: o que há de errado com estas pessoas? Como pude ficar com um sujeito que gostaria de fazer isto? Se tivéssemos ficado juntos e tivéssemos um filho, ele se penduraria em ganchos enquanto eu preparasse o jantar ou trocasse fraldas?

Ou seria o contrário. Talvez uma criança lhe daria seu propósito na vida, como ele esperava, preenchendo o vazio que agora estava preenchendo com esta dor auto-infligida. Será que isto era minha culpa? Será que fui a responsável?

Então reconheci minha postura como sendo um narcisismo presunçoso. Porque, e se ele estiver feliz? E se a suspensão por ganchos lhe der um sentimento de plenitude com o qual apenas posso sonhar? Eu percebi que precisava retornar à minha investigação, mas desta vez eu não estava à procura de quem, o que ou onde. E estava à procura do por quê.

Eles a chamam de "arte da suspensão" e de repente algo no nome me pareceu adorável. Eu me lembrei de uma peça que assisti na qual os atores eram suspensos do teto com cordas e arreios; as cenas de amor transcorriam langorosamente, as duas pessoas nunca se tocando. Apenas dando voltas em torno de si mesmas em círculos, como ginastas em câmera lenta.

No site www.suspension.org, eu li que as pessoas são atraídas à suspensão por vários motivos. Algumas gostam da euforia que ocorre quando seu corpo experimenta algo tão intenso. Mas algumas estão à procura de algo mais profundo: vencer seus temores ou ampliar os limites do corpo humano. Elas esperam aprender a superar, a se moverem além de seus corpos e experimentar algo que a maioria nunca experimentará. Outras simplesmente buscam o desconhecido.

Eu voltei à foto dele no MySpace, esperando notar algo que não tinha visto antes. A foto era a mesma, é claro, mas algo estava diferente. O que ele me disse há sete anos era repetido várias vezes na minha cabeça: "Talvez se tivéssemos um filho, nós não mais nos sentiríamos perdidos".

Enquanto eu olhava para a foto, eu não pude afastar a sensação, este sentimento estranhamente reconfortante, de que talvez, quando está pendurado nos ganchos, ele sinta que tenha se encontrado.

*Jennifer Cacicio é uma escritora que vive em Boston Em uma procura pela Internet ela descobriu a "arte da suspensão" George El Khouri Andolfato

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