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24/09/2007

Colocando o dinheiro na mesa

The New York Times
Alex Williams*
Para Whitney Hess, uma criadora de softwares de Nova York, a tensão que culminou com o fim dos seus recentes relacionamentos está bem visível, em dígitos, no seu contracheque.

A falta de tato começou durante as noitadas. Ela sempre gostou de conhecer os bares recém-inaugurados de Manhattan, mas os seus namorados, que trabalhavam em empregos criativos que pagavam menos do que o dela, preferiam restaurantes mais baratos.

Ela recorda-se de que eles diziam: "Uau, você é tão sofisticada". Uma primeira olhada na residência dela, um moderno apartamento de um quarto em um edifício full-service na área de Tribeca, em Manhattan, só reforçava tal impressão. "Os namorados não me deixavam ver o apartamento deles", diz ela, porque moravam em conjuntos espremidos em áreas distantes no Brooklyn ou no Bronx.

Ela conta que um deles finalmente lhe disse. "Olha, me sinto realmente desconfortável com o fato de você ganhar mais dinheiro do que eu. Tentarei colocar esse problema sobre a mesa de discussão e tentarei superá-lo".

Mas, de acordo com Hess, ele nunca superou.

"O mais triste é que eu realmente gostava do cara", conta ela. "Se a questão do salário não fosse um problema para ele, nós provavelmente ainda estaríamos namorando".

A perplexidade de Hesse está se tornando cada vez mais comum para muitas mulheres jovens. Pela primeira vez, as mulheres entre 20 e 30 anos de idade que trabalham em tempo integral em diversas cidades norte-americanas - Nova York, Chicago, Boston e Mineápolis - estão recebendo salários mais altos do que os dos homens da mesma faixa etária. Essa constatação faz parte de uma análise recente dos dados do censo de 2005, feita por Andrew Beveridge, professor de sociologia da Faculdade Queens, em Nova York.

Por exemplo, em Nova York a renda média das mulheres com idade entre 21 e 30 anos que trabalhavam em tempo integral foi 17% mais elevada do que a dos homens em situação comparável.

Beveridge afirma que essa lacuna é motivada em grande parte por uma diferença no grau de escolaridade: dentre as mulheres que trabalhavam em tempo integral, 53% tinham curso superior completo, contra 38% dos homens. As mulheres também apresentaram maior probabilidade de contar com diploma de pós-graduação. "Elas têm uma quantidade maior de todas as qualificações", afirma Beveridge.

Escondendo a renda

Essa mudança está tendo conseqüências novas e inesperadas no campo das relações amorosas. As mulheres estão se deparando com tipos de hostilidade que não estavam preparadas para enfrentar, e estão tentando descobrir como equilibrar o orgulho pelas suas realizações com a necessidade de dar uma força ao ego dos seus namorados.

"Várias mulheres jovens têm a mente dividida", afirma Stephanie Coontz, diretora de pesquisas do Conselho de Famílias Contemporâneas, uma organização de pesquisa. "Por um lado, elas orgulham-se das suas realizações, e querem um homem que divida as responsabilidades domésticas e a tarefa de cuidar dos filhos. Mas, por outro lado, elas estão assustadas com essas próprias realizações, e um pouco nervosas por morarem com um homem que não será o principal provedor da casa. É como se fitas antigas estivessem sendo reproduzidas nas cabeças delas, dizendo: 'É assim que você consegue um homem'".

As jovens e afluentes mulheres dizem que estão aprendendo a fazer propaganda sobre a sua boa situação financeira de uma maneira bem diferente da dos homens. Para os homens, é aceitável, e até mesmo desejável, gabar-se do status elevado. Mas, para muitas mulheres, esse não é o caso.

"Bem no início de um encontro, o homem fará comentários sobre o quanto a sua equipe de vendas ganhou durante o ano, o que significa que ele tem um bônus por produtividade elevado, e assim por diante", diz Anna Rosenmann, 28, que fundou uma companhia chamada Eco Consulting LA, em Los Angeles, e que ganha US$ 150 mil por ano. "Mas não foi desta forma que fomos criadas"

Em vez disso, ela diz que começa os relacionamentos sendo discreta. "Não falo sobre mim", diz Rosenmann. "Quando as pessoas me perguntam, sou bastante honesta. Mas sem dúvida não direi: 'Meu nome é Anna, tenho 28 anos e sou empresária'".

Rosenmann diz que o fato de namorar com homens consideravelmente mais velhos a ajuda a evitar as indiretas dos homens mais novos que se sentem ameaçados pelo seu sucesso profissional. Ela conta que quando sai à noite com homens da sua idade e tem que voltar cedo para casa a fim de encarar o trabalho no outro dia, eles costumam fazer comentários como: "Ah, Anna é uma adulta. Ela tem um emprego de verdade".

Assim, de forma a não exibir o seu salário, Lori Weiss, uma advogada de 29 anos de idade que mora em Manhattan, costuma retirar imediatamente as etiquetas de preços das roupas caras que adquire durante frenesis de compra. Ou esconde as sacolas de lojas no fundo do armário, de forma que os homens que namora não vejam esses sinais de afluência, e não se sintam ameaçados pelo seu poder aquisitivo.

"Muitos caras não querem admitir que têm um problema com isso", diz ela, referindo-se às diferenças salariais. "Eles não querem ser 'aquele cara antiquado'. Mas acho que é algo que está impregnado na mente deles".
"Um namorado não se sentia confortável com o fato de eu pagar as contas quando saíamos, de forma que, para fazer com que se sentisse melhor, concordei com ele. Nós simplesmente ficávamos em casa e cozinhávamos, ou comprávamos coisas baratas. Às vezes sequer íamos ao cinema", conta ela.

Desconforto delas

As mulheres dizem que a desigualdade financeira tornou-se evidente em todos os aspectos do namoro: o lugar onde você mora, o que você gosta de fazer como diversão e como viaja. Isso freqüentemente acaba fazendo com que elas não revelem quem de fato são - mulheres bem-sucedidas e centradas - junto aos seus namorados, que podem estar um pouco atrás quando se trata de salários.

Embora essas mulheres muitas vezes digam que são os homens que têm problemas quanto ao fato de elas ganharem mais, às vezes são as próprias mulheres que se sentem desconfortáveis com a inversão dos papéis.
Hilary Rowland, 28, comprou o seu primeiro imóvel quando tinha 18 anos, usando o dinheiro que ganhou com um negócio online que abriu aos 15 anos. Na primavera passada, Rowland, que mora em Nova York, começou a namorar um músico de 34 anos. "Eu geralmente vôo na classe executiva ou na primeira classe", disse ela em uma mensagem enviada por e-mail. "Na única viagem na qual o meu namorado pagou pelo vôo - ficamos na casa de um amigo -, ele não me informou sobre os detalhes com antecedência. Voamos na classe econômica em vôo às seis da manhã, com uma escala de duas horas em Salt Lake City, a fim de economizar dinheiro. Eu preferiria ter pago para que voássemos na classe executiva em um horário normal".

"Quando terminamos, ele estava chateado porque eu dei ao meu 'ex' mais presentes do que a ele. Mas o único presente que ele me deu foi uma pequena agenda", conta Rowland.

Rowland, assim como outras mulheres entrevistadas, disse ter chegado à conclusão de que seria mais fácil namorar alguém que estivesse na mesma situação econômica.

"Adoro viajar, ir à ópera e freqüentar bons restaurantes. Não precisa ser um restaurante sofisticadíssimo como um Per Se; mas a boa comida é algo de importante na minha vida", diz ela. "Às vezes é difícil manter o estilo de vida com o qual me acostumei quando estou em um relacionamento com um sujeito que ganha menos do que eu, já que não quero pagar as despesas dele o tempo todo".

O desconforto quanto a quem paga não parece realmente dizer respeito simplesmente ao dinheiro. Em vez disso, é uma indicação de fatores psicológicos complexos envolvidos naquilo que muitas dessas mulheres esperam dos seus namorados (que ele seja um tradicional provedor) - e daquilo que elas acham que deveriam esperar (ah, eu só quero que ele seja um cara bom).

Em um primeiro encontro em uma mesa do restaurante Hell's Kitchen, Thrupthi Reddy, 28, uma estrategista de marketing de Manhattan, observou o homem consumir vários drinques, enquanto ela tomava apenas um, e depois não mover um músculo facial quando ela entregou o cartão de crédito à garçonete. Inicialmente furiosa, ela depois reconheceu as suas próprias contradições.

"Você fica se perguntando se está sendo hipócrita", recorda ela. "Porque durante todo o encontro eu digo a ele como sou independente, e como é irritante o fato de os homens não saírem com mulheres fortes e independentes" (o relacionamento terminou seis meses depois).

Emprego e ambição

Michael R. Cunningham, um psicólogo que leciona no departamento de comunicação da Universidade de Vaudeville, fez uma pesquisa com mulheres universitárias para verificar se, após a graduação, elas prefeririam se relacionar com um professor de segundo grau que trabalha poucas horas por dia, que tem férias de verão e que conta com energia de sobra para ajudar a tomar conta das crianças, ou com um cirurgião que ganha um salário oito vezes maior, mas cuja escala de trabalho é brutal. Três quartos das mulheres entrevistadas disseram que escolheriam o professor.

A questão essencial, segundo Cuninghâmia, é que mulheres jovens e profissionais não vêem problemas em namorar se o homem for seguro, motivado na sua área e der a elas apoio emocional.

Pelo menos, foi isso o que responderam nas pesquisas. Mas ao se comentar sobre o assunto com mulheres um pouco mais velhas - aquelas que estiveram longe da universidade por um tempo suficiente para que ficassem mais endurecidas -, o que se escuta é uma ambivalência, para não dizer hostilidade declarada, em relação às diferenças salariais.

Jade Connellita, 25, uma produtora de uma agência de propaganda de Chicago que mora em um apartamento de luxo, começou a sair com um administrador de uma companhia de caminhões, de 29 anos de idade, no ano passado. "Ele era realmente uma ótima pessoa", diz ela. "Mas não trabalhava durante muitas horas, e acabava ficando muito tempo em casa. Eu fiquei entediada e não me senti desafiada. Ele saía do trabalho às três da tarde e queria ir para o bar. Naquela idade o estilo de vida universitário ainda está impregnado neles. Tudo o que querem fazer é beber com os outros garotos no sábado. Eu queria visitar uma galeria de arte, mas ele só queria ira para o bar".

Para ela, a falta de renda dele mascarava um problema maior: uma falta de ambição.

"Tenho que dizer que não gostava da carreira dele, não creio que ele tivesse os mesmos objetivos de uma pessoa com a qual eu gostaria de estar ou pela qual sentisse respeito", diz ela, acrescentando: "Não era o emprego, mas sim a paixão".

Uni Aga, 27, uma executiva do setor de propaganda que tem uma pequena firma em Boston, quase sempre namora homens profissionais, mas quando sai com algum que ganha menos, surge tensão. "Este é um tópico que foi bastante discutido no ano passado no meu círculo de amizades femininas", disse ela. "Quando estamos em uma mesa de restaurante com um homem que ganha menos, são feitas certas colocações sutis", diz ela. "As coisas são ditas, por exemplo, como: 'Puxa, vou ficar realmente quebrado depois deste jantar'".

E a resposta dela, qual é?

"Silêncio".

* Ellen Almer, em Chicago; Kristi Ceccarossi, em Boston, e Paula Schwartz contribuíram para esta matéria. Pela primeira vez, mulheres entre 20 e 30 anos que trabalham em tempo integral estão recebendo salários mais altos do que os dos homens da mesma faixa etária. Essa mudança está gerando conseqüências inesperadas nas relações amorosas UOL

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