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24/09/2007

Na economia, o ouro transforma-se mais uma vez em um escudo contra o desconhecido

The New York Times
Conrad De Aenlle
O ouro deveria ser um destino procurado pelo capital assustado, mas à medida que a crise do setor de crédito se intensificava no mês passado, este suposto abrigo perdeu valor juntamente com outras modalidades de investimento.

Somente depois que o pior da crise passou, os investidores retornaram ao ouro, fazendo com que o preço do metal subisse acentuadamente. O ouro subiu cerca de 12% desde meados de agosto, quando o mercado de ações atingiu um ponto de inflexão. Embora os preços das ações tenham desde então subido e descido, a ascensão do valor do ouro tem sido praticamente ininterrupta.

Ruth Fremson/The New York Times 
O ouro prospera com a incerteza e os investidores não sabem o que rege essa tendência

Esse vigor prenuncia maiores ganhos para o ouro e para as ações das companhias de mineração, segundo a previsão de vários analistas e gerentes de fundos. Eles apontam diversos motivos para isso, como um desejo de proteção contra um dólar em queda, uma economia mais fraca, instabilidades geopolíticas e um desequilíbrio convencional entre oferta e demanda, do tipo estudado nos cursos de introdução à macroeconomia.

O consenso quanto à alta e a abundância de fatores apontados para justificar o fenômeno resultam de uma característica estranha do mercado de ouro: ele prospera com a incerteza e os investidores, e até mesmo as autoridades em commodities, não têm certeza quanto ao que rege essa tendência.

"O insatisfatório em relação ao ouro é o fato de não haver nenhuma explicação única fácil para o motivo pelo qual ele sobe ou desce", afirma Fred Sturm, gerente do fundo Ivy Global Natural Resources. "Existem diversos elementos que têm um impacto sobre a tendência do preço".
Stuart Schweitzer, estrategista de mercados globais do JPMorgan Private Bank, é outro que fica intrigado com o ouro. "Se existe uma regra referente ao ouro, é a de o seu valor não se comporta de forma previsível", diz ele.

Foi isso o que ocorreu no mês passado, quando o ouro deixou de subir, em meio às ansiedades quanto à disponibilidade de crédito, conforme seria de se esperar. Em vez disso, ele caiu cerca de US$ 50 entre o final de julho e meados de agosto, um resultado das vendas por parte de gerentes de fundos de "hedge".

Compradores e risco

O ouro é um investimento cobiçado como proteção contra o risco, mas esses fundos, em sua maioria não regulados e de elevado índice de capital emprestado, subiram bastante de posição, usando a substância como instrumento para especulação. Quando os outros mercados nos quais eles fizeram grandes apostas acusaram mau desempenho - a crise de hipoteca dos devedores de segunda classe, por exemplo -, os fundos foram obrigados a vender ouro, entre outros ativos, para obter dinheiro.

"Comparado ao que tradicionalmente acontece, tem havido bem mais dinheiro emprestado investido em ouro nos últimos anos", disse Tony Lesiak, analista de ouro da UBS, em uma nota aos clientes do banco. "Assim, quando presenciamos a aversão ao risco do mercado financeiro, os mesmos investidores que estão reduzindo os seus investimentos de longo prazo, também reduzem os investimentos no ouro".

Os analistas financeiros dizem que, agora que as vendas dos fundos de 'hedge' diminuíram, foi removido um sério empecilho aos preços mais elevados do ouro. Um outro motivo para se esperar maiores ganhos, mesmo com o ouro valendo agora US$ 731,50 a onça, próximo ao seu valor mais elevado desde 1980, é o fato de que provavelmente uma quantidade muito reduzida do metal entrará no mercado.

Os bancos centrais, especialmente na Europa Ocidental, têm vendido ouro das suas reservas à medida que diversificam as suas operações, adquirindo outros ativos. Acredita-se que tais vendas estejam chegando ao fim. A oferta oriunda das minas aumentou apenas 3% no ano passado, enquanto uma outra fonte comum dessa oferta, a de materiais reciclados, diminuiu 27%.

Ao mesmo tempo, de acordo com John Hathaway, gerente do fundo Tocqueville Gold, há bastante demanda por parte de compradores que vão das florescentes classes médias da China e da Índia até os bancos centrais de países que têm obtido superávits com o comércio exterior, como a Rússia, os países do Golfo Pérsico e, mais uma vez, a China.

E há também o fator aversão ao risco. As vendas dos fundos de 'hedge' mascararam uma demanda que poderia ter crescido na crise do setor imobiliário, mas os analistas acreditam que haverá uma visível fuga para os investimentos seguros caso o dólar continue caindo, as condições de crédito piorem, as regiões problemáticas sob o ponto de vista geopolítico entrem em convulsão ou se ocorrer qualquer outro fato negativo que não possa sequer ser previsto.

"O ouro é um bem que as pessoas desejam possuir como proteção contra riscos que elas não são capazes de fato de analisar e controlar", afirma Schweitzer, do JPMorgan. "E esse risco aumentou".

Aquisição do metal e mineradoras

Se os investidores se convencerem dos argumentos favoráveis ao ouro, eles terão que decidir como comprar o acesso ao metal. Eles podem adquirir o metal em si, mas isso gera custos de armazenamento e guarda contra roubos, bem como o custo embutido de manter um investimento que não paga juros ou dividendos.

Uma maneira de mitigar a primeira despesa é comprar em um fundo de câmbio como o StreetTracks Gold Trust, o maior do gênero na Bolsa de Valores de Nova York que conta com barras de ouro em quantidade, de forma que os custos de armazenagem ficam reduzidos.

A principal alternativa à aquisição do metal em si é a aquisição de ações das companhias de mineração. Elas não conseguiram acompanhar o ritmo do preço do ouro em barras no ano passado, e os gerentes e analistas explicam facilmente isso. Conforme resume Sturm, "a mineração de ouro é um negócio bem ruim".

Os custos da energia e dos produtos químicos utilizados na mineração tendem a subir juntamente com o preço do metal, de forma que os lucros das companhias tendem a subir menos do que o preço do ouro, observa Sturm. Isso faz do ouro um dos materiais cuja produção é menos compensadora durante um boom de commodities.

"São pouquíssimos os produtores de ouro que estão batendo no peito, gabando-se da quantidade de lucro obtido", afirma Sturm.
Embora, na sua opinião, a mineração de ouro seja "uma embarcação de difícil navegação", sua expectativa de preços mais elevados e menores custos de produção o leva a acreditar no aumento das ações das mineradoras. Ele tende a acreditar mais nas companhias que extraem o metal em países politicamente estáveis, e que contem com minérios em suas reservas que durarão pelo menos mais uma década.

O seu exemplo favorito é Gold Fields, na África do Sul. Para ele a ação da companhia ficou muito barata, com a queda do preço de US$ 26 na primavera de 2006 para US$ 14 no mês passado, enquanto o preço da barra de ouro demonstrava pouca alteração.

A lista eclética de escolhas de Sturm inclui a Agnico-Eagle Mines, uma pequena companhia canadense que, segundo ele, "provavelmente exibirá novas reservas de ouro em um momento de preços ascendentes". Para os investidores interessados em misturar metais, ele aprecia a Impala Platinum, na África do Sul, e a Silver Wheaton, uma companhia norte-americana que fornece financiamento para minas de prata em todo o mundo em troca de pagamentos de juros e royalties.

Ecoando a argumentação de Sturm, Lesiak, da UBS, vê com bons olhos a Agnico-Eagle e uma outra companhia canadense, a Goldcorp, em parte porque o grosso dos lucros dessas empresas é oriundo de locais tranqüilos. John Hill, um analista do Citigroup especializado em ouro, aconselha a aquisição de ações da Barrick Gold e da Newmont Mining. Hathaway, da Tocqueville Gold, também aprecia a Goldcorp e a Gold Fields. E também a Ivanhoe Mines, uma companhia canadense que explora uma grande mina na Mongólia, e a Randgold Resources, que, segundo ele, "é administrada por um grupo muito inteligente de pessoas no oeste da África".

Mas para ele, muitas companhias mineradoras não passam de maus investimentos. "O preço do principal produto delas está subindo, e elas são incapazes de transferir essa tendência para o resultado final", diz ele.

Hill afirma que está "começando a perceber sinais de inteligência" em várias companhias quanto à alocação de capital e prevê que as margens de lucro "se recuperarão dessa situação precária". Isso pode fazer com que no momento valha mais a pena possuir ações do que o metal. Mas ele frisa que os investidores devem comprar ações das mineradoras, apesar do que ocorre nas diretorias delas, e não por causa disso.

"Só existe uma boa razão para se comprar ações de ouro: o fato de a pessoa acreditar que o preço do ouro está subindo", diz ele. "Não é uma indústria em crescimento". UOL

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