UOL Notícias Internacional
 

25/09/2007

Em detenção contra o terror, vislumbre de mundo sombrio no Paquistão

The New York Times
Michael Moss e Souad Mekhennet*
Em Stuttgart, Alemanha
Aleem Nasir, cidadão alemão de 45 anos, foi detido por dois meses neste verão no Paquistão e interrogado por agentes paquistaneses e ocidentais sobre atividades relacionadas ao terrorismo. Ele admite que os agentes "têm o direito de se preocuparem" com ele.

Nasir está em uma lista de alerta alemã desde os ataques de 11 de setembro de 2001, quando teria feito comentários ameaçadores de mais ataques terroristas. Ela admite ter se associado com pessoas consideradas militantes pelas autoridades. E ele disse que seu trabalho no comércio de gemas semi-preciosas ocasionalmente o leva a áreas tribais do Paquistão, onde se acredita que a Al Qaeda está reunida.

Em uma recente viagem ao país, ele sofreu uma queimadura severa no braço direito, que ele diz ter resultado de um acidente com fogos de artifício, no casamento de um amigo. No entanto, a justiça alemã diz que Nasir queimou-se quando uma bomba que ele estava aprendendo a montar em um campo e treinamento da Al Qaeda, nas áreas tribais do Paquistão, explodiu prematuramente, o que ele confessou quando estava preso.

Rolf Oeser/The New York Times 
Aleem Nasir, que foi interrogado por supostas atividades terroristas no Afeganistão

Nasir nega laços com a Al Qaeda e disse que confessou porque estava sendo surrado por agentes paquistaneses. Ele foi liberado no mês passado pela Suprema Corte do Paquistão, que determinou que ele havia sido detido por tempo demais sem acusações. Agora, está de volta em casa, onde está sendo investigado por autoridades alemãs.

Em uma época de preocupação crescente com campos de treinamento terroristas em áreas tribais no Paquistão, a experiência de Nasir, extraída de documentos do governo e de entrevistas com ele e com agentes de inteligência, oferece uma visão do tráfego na região e da tentativa das autoridades de monitorá-lo.

A preocupação com o treinamento, particularmente entre autoridades de inteligência ocidentais, foi reforçada neste mês, quando as autoridades disseram que suspeitos de planejar atentados na Alemanha e Dinamarca tinham freqüentado os campos. As autoridades disseram que os suspeitos foram identificados parcialmente pelo monitoramento eletrônico daquela área do Paquistão pelos EUA.

O perfil de Nasir fez dele um alvo para as armadilhas de inteligência em torno dos campos, e seus movimentos fizeram soar o alarme em três capitais -Islamabad, Paquistão; Washington e Berlim. Nasir, engenheiro mecânico treinado que se mudou do Paquistão para a Alemanha em 1987 e casou-se com uma alemã, está na lista de alerta alemã desde que seus colegas em um instituto de pesquisa de energia informaram que, logo após os atentados de 11 de setembro, ele previu que haveria outros ataques terroristas na Alemanha. Nasir disse que os comentários foram exagerados.

Meses depois, ele foi multado após ameaçar um policial que denegrira o profeta Maomé. "Se você estivesse no Paquistão, eu poderia matar você por insultar o profeta", disse Nasir ao policial.

Entre seus amigos está um imame de uma mesquita da Bavária, agora fechada, cujos membros incluíam o líder do atentado alemão de carro bomba frustrado no início de setembro. Nasir nega qualquer conexão com organizações terroristas, mas admite ataques violentos contra tropas americanas no Iraque. "O inimigo deve deixar nossos territórios", disse ele.

Nasir disse que, desde que perdeu o emprego de engenheiro, há cerca de cinco anos, vem comercializando pedras semi-preciosas, que o levaram a viajar pela Europa e por áreas tribais no Paquistão, onde ele diz procurar barganhas. Autoridades alemãs vêem suas viagens de forma diferente. Uma ordem da justiça alemã do dia 1º de agosto, autorizando busca policial, cita informações da agência paquistanesa de Inteligência Inter-Serviços, ISI, dizendo que havia evidências suficientes mostrando que ele apoiava a Al Qaeda "por pagamentos financeiros, recrutamento de combatentes, doação de lentes de campo e de visão noturna, assim como considerar combater pela Al Qaeda ele mesmo".

Nasir foi preso enquanto se preparava para ir para casa de Lahore, Paquistão, no dia 18 de junho, depois de ter passado 10 dias na região tribal. "Sabemos que você esteve lá", disse a Nasir um agente de inteligência paquistanês no primeiro dia. "Sabemos tudo sobre você".

Os agentes sabiam até que ele trouxera um par de óculos de visão noturna de US$ 180 (em torno de R$ 360) ao país. Ele disse ter uma explicação: que os trouxe para um amigo na área tribal do Norte do Waziristão que tem muitas cabras, carneiros e vacas. "Ele tinha um instrumento muito ruim, sabe, para vigiar os animais, então eu disse: 'Se você quiser, posso trazer um melhor'", disse Nasir.

Então, agentes de inteligência ocidentais, americanos e britânicos, acredita, assumiram o interrogatório, e pressionaram-no a divulgar tudo o que sabia sobre planos militantes.

"Vocês estão planejando ataques nos EUA?", teriam perguntado. "Vocês têm intimidade com instalações militares americanas no Japão e na Coréia do Sul? Como vocês vão usar substâncias químicas que foram encontradas em sua casa para fazer bombas?" Ele disse que usava os produtos para limpar as gemas.

Nas sessões diárias que duravam até sete horas, agentes ocidentais o interrogavam enquanto um interrogador paquistanês ficava sentado ao lado, algumas vezes dormindo. "Os americanos são muito inteligentes", disse ele. "Eles deixam você falar, não falam nada. Só os paquistaneses foram grossos, dizendo coisas como: 'Você faz bombas?'"

Algumas das perguntas se concentraram em suas viagens pelas áreas tribais paquistanesas, particularmente o Waziristão do Sul e do Norte. Eles também perguntaram sobre um homem chamado xeque Said, que identificaram como o terceiro líder mais importante nos campos de treinamento, e se Nasir visitara as instalações dirigidas por um homem chamado Abu Ubayda Al Missri, que tinha sido identificado como líder do campo.

Eles perguntaram como se comunicava com sua família na Alemanha. "Eles disseram que havia lan houses, e perguntaram por que eu não enviava e-mails para casa", disse ele.

Na maior parte, porém, disse ele, os americanos se concentravam em quem ele conhecia, aonde ele viajava na Europa e aonde mais planejava ir.

Ele listou as perguntas: "'Você esteve em Hamburgo? Esteve em Frankfurt? Sabe que existe uma instalação americana em Hanau? Sabe que há pessoas querendo atacar americanos?' Eles me perguntaram sobre discotecas".

Nasir disse que apanhou primeiro quando foi preso. Ele foi vendado, encapuzado e levado para uma delegacia de polícia onde um agente paquistanês o questionou por apenas 15 minutos, e depois pegou um remo duro de borracha e uma vara de bambu. Nasir disse que o homem começou a bater nele com o remo. Três golpes foram suficientes para quebrá-lo, e então confessou que tinha treinado nos campos da Al Qaeda.
"Você diz tudo o que eles querem", disse ele. "Não agüentava mais".

Segundo Nasir, os agentes paquistaneses bateram nele ocasionalmente nos dois meses seguintes, mas nunca na presença dos ocidentais. Ele disse que, quando batiam nele, eram contidos, em geral apenas três vezes em uma sessão -como se tivessem recebido instruções que deveria ser assim.

Autoridades alemãs e americanas recusaram-se a comentar o caso de Nasir ou suas alegações. No entanto, autoridades alemãs, falando em anonimato, admitiram que enfrentavam inúmeros desafios legais e éticos em investigações de terrorismo transnacionais, incluindo o uso de informações de outras agências de inteligência e o julgamento de suspeitos que alegam ter sido torturados.

Em certo ponto, disse Nasir, os agentes ocidentais mostraram fotografias de uma dúzia de homens, incluindo Fritz Martin Gelowicz, que foi preso na Alemanha no início de setembro como suspeito de planejar um ataque por carro-bomba e que teria recebido treinamento nos campos paquistaneses.

Nasir disse que nunca encontrou Gelowicz, apesar de ter uma conexão por meio do imame na mesquita em Neu-Ulm, Alemanha, que Gelowicz freqüentou até autoridades alemãs fecharem-na, em 2005, por promover opiniões extremistas. Nasir disse que passava até duas noites por semana com o imame, Yehia Yousif, que, desde então, fugiu para a Arábia Saudita.

As preocupações que a Al Qaeda estabeleceu novos campos de treinamento no Waziristão cresceram desde 2005, quando as autoridades souberam que o líder dos ataques mortais contra trens de metrô e ônibus em Londres tinha sido treinado no Paquistão.

O homem acusado de planejar a explosão de um trem Path enquanto cruzasse o rio Hudson entre Nova Jersey e Manhattan foi preso em abril de 2006, quando estava indo de Beirute, Líbano, para Paquistão, para treinamento em explosivos, de acordo com registros da justiça e entrevistas com membros da segurança libanesa.

Então, no último verão, as autoridades suspeitaram de um elo entre a atividade no Paquistão e um plano frustrado de explodir vôos transatlânticos. Isso forçou os EUA a admitirem a renovação da Al Qaeda, disse Bruce Hoffman, da Universidade de Georgetown, que estuda o terrorismo há três décadas.

Uma autoridade americana de combate ao terrorismo, que falou sob condição de anonimato por causa da natureza delicada da investigação, disse: "Se houver pessoas entrando e saindo desses campos de treinamento, é evidente que os governos tentarão lidar com elas", confirmando um esforço multinacional de monitorar as áreas tribais.
Nasir disse que, durante suas viagens pela região, ouvia tiros freqüentes e explosões, que presumia serem exercícios militantes, e também via árabes nas ruas, que ele presumia serem agentes da Al Qaeda. Ele disse que nunca se reuniu com esses homens nem viu campos de treinamento.

Enquanto estava na capital regional de Wana, no Waziristão do Sul, ele disse que se encontrou com outro homem da Alemanha suspeito de atividades relacionadas ao terrorismo.

Após dois meses preso, Nasir beneficiou-se da recente tensão política no Paquistão entre o presidente, general Pervez Musharraf, e a Suprema Corte. A corte tomou o lado dos defensores de direitos humanos e forçou a agência ISI a soltar cerca de 60 suspeitos de terrorismo detidos sem acusações.

Nasir disse que estava sendo questionado num minuto e, no minuto seguinte, foi levado à Suprema Corte, onde o juiz Iftikhar Muhammad Chaudhry determinou sua soltura.

O governo Bush pressionou Musharraf a fazer mais para prender suspeitos de serem militantes nas áreas tribais. Musharraf, entretanto, está enfrentando críticos que dizem que a ISI prendeu pessoas inocentes junto com suspeitos legítimos e subverteu o sistema legal do país.

Defensores de direitos humanos dizem ter determinado que até 250 pessoas estão sendo detidas pela ISI por suspeita de terrorismo e que vão lutar para sua libertação.

Na Alemanha, Nasir disse que foi uma dessas pessoas inocentes; seu advogado, Manfred Gnijidic, disse que ia contestar a investigação alemã de seu cliente. "Não teria problema se autoridades alemãs tivessem pedido a meu cliente para responder um questionamento aqui na Alemanha", disse ele. "Mas agora começaram a usar formas que são totalmente contra a Constituição da Alemanha".

Quando Nasir voltou à Alemanha, no dia 25 de agosto, ficou claro que a investigação alemã estava a pleno vapor. Sua casa tinha sido revistada detalhadamente em sua ausência, e a polícia presenteou-lhe com um mandado de busca que permitia que tirassem amostras de seu sangue e da pele de seu braço queimado.

Eles então o deixaram ir para casa encontrar sua mulher.

* Eric Schmitt colaborou de Washington, Margot Williams de Nova York e Carloga Gall e Ismail Khan de Peshawar, Paquistão. Deborah Weinberg

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