UOL Notícias Internacional
 

25/09/2007

Governo de Mianmar ameaça reprimir protestos dos monges budistas

The New York Times
Seth Mydans
Em Bancoc
Enquanto na segunda-feira (24/09) manifestantes enchiam mais do que nunca as ruas das grandes cidades de Mianmar, e a multidão na maior cidade do país chegava a 100 mil pessoas, o governo fazia a sua primeira advertência de que poderá tomar ações repressivas contra os monges budistas que protestam.

O ministro de Assuntos Religiosos da junta militar disse aos líderes religiosos que se estes não contiverem os monges que estão no cerne dos protestos, o governo tomará ações não especificadas contra os manifestantes budistas.

Reuters 
Cerca de cem mil pessoas participam de marcha de monges budistas em Mianmar

A advertência ocorreu quando os manifestantes intensificaram o confronto com o governo militar, que já dura um mês, fazendo com que a situação rume para um desfecho imprevisível e possivelmente perigoso.

Em Yangun, a principal cidade do país, o número de monges budistas que lideraram os protestos na última semana foi superado pelo de civis, incluindo dissidentes políticos proeminentes e personalidades culturais bem conhecidas.

Uma multidão que, segundo estimativas da Associated Press, era de 100 mil pessoas, saiu de manhã do Pagode Shwedagon, famoso pelo seu telhado dourado, e marchou sem impedimentos, em colunas separadas, pela cidade.

Assim como fizeram nos últimos dias, alguns monges levavam tigelas de arroz viradas para baixo, simbolizando a recusa de receber esmolas de membros das forças armadas.

DO TEMPLO PARA AS RUAS
Reuters
Monges budistas de Mianmar partem para marcha de protesto
VEJA ÁLBUM DE FOTOS
Outros protestos ocorreram em Mandalay, Sittwe e Bago. Os monges e os seus aliados também fizeram nos últimos dias passeatas em outras cidades.

O governou continuou silencioso, e na maioria das ocasiões, invisível, deixando que as ruas fossem tomadas pelos manifestantes, sem que se vissem policiais uniformizados.

Apesar de toda a energia e do júbilo das multidões, este país que anteriormente se chamava Burma parece estar prendendo a respiração. À medida que as manifestações se expandiram de um grupo de dissidentes políticos, no mês passado, para os monges budistas, na última semana, e destes para uma grande parcela da população que encheu as ruas nos últimos dias, o governo pareceu contar a cada momento com menos opções.

As manifestações ocorrem sob a sombra da última grande convulsão nacional, em 1988, quando protestos pró-democracia ainda maiores foram esmagados pelas forças armadas ao custo de cerca de 3.000 vidas.

"Estamos em um território não mapeado", disse o embaixador britânico em Mianmar, Mark Canning, falando por telefone de Yangun, após ter observado os manifestantes na segunda-feira. "Essas manifestações parecem estar ganhando ímpeto. Elas estão geograficamente disseminadas. São muito bem organizadas, estimuladas por problemas econômicos genuínos e realizadas de uma forma pacífica, mas muito eficiente".

Um possível resultado é que as manifestações simplesmente percam a energia. Mas o crescimento rápido e o descontentamento contido que está na raiz da rebelião fazem com que isso seja improvável. A cada dia o tamanho das multidões parece atrair ainda mais participantes.

Uma outra possibilidade é o surgimento de alguma forma de acordo ou diálogo entre o governo e os seus oponentes. Mas esta é uma opção que os governantes militares do país jamais levaram em consideração.

Em vez disso, eles prenderam os oponentes políticos, mantiveram a líder pró-democracia Aung San Suu Kyi sob prisão domiciliar e rejeitaram as demandas das minorias étnicas marginalizadas do país.

E quando os desafios aos generais pareceram ser ameaçadores, eles recorreram à força, como em 1988 e em 2003, quando o governo liberou um bando de brutamontes para atacar Aung San Suu Kyi, quando os militares sentiram que perdiam o controle sobre a popularidade dela.

Juntamente com a energia palpitante das manifestações de massa, Mianmar está borbulhando com boatos de uma iminente ação militar. Grupos exilados com contatos no país têm falado a respeito de possíveis movimentações de tropas e de alertas aos hospitais a fim de que estes se prepararem para lidar com um grande número de baixas.

Mas os analistas dizem que vários fatores que não estavam presentes em 1988 podem atualmente estar fazendo com que o governo hesite em agir.

O primeiro é o fato de o mundo inteiro estar observando os acontecimentos. Após 1988 Mianmar tornou-se um alvo de condenações internacionais devido aos abusos de direitos políticos e humanos e à forma como o governo tratou Aung San Suu Kyi, que esteve sob prisão domiciliar durante 12 dos últimos 18 anos.

O país tornou-se um embaraço para os seus nove parceiros na Associação das Nações do Sudeste da Ásia, uma organização regional política e econômica, alguns dos quais foram boicotados pelos Estados Unidos devido à inclusão de Mianmar no grupo.

Usando táticas econômicas e políticas, a associação tem exigido de maneira cada vez mais explícita reformas em Mianmar.

"Esperamos que os atuais protestos sejam resolvidos de maneira pacífica", frisou uma declaração do governo de Cingapura, que detém a atual presidência rotativa do grupo, e que possui amplos vínculos comerciais com Mianmar. Os outros membros do grupo são Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã.

O maior elemento de dissuasão para o comportamento de Mianmar pode ser a China, o vizinho gigantesco, que tem apoiado o governo daquele país com auxílios financeiros e laços econômicos, minando desta forma as sanções econômicas impostas pelas nações ocidentais.

"A China deseja estabilidade aqui, e a situação atual não é consistente com tal desejo", afirmou um diplomata ocidental em Mianmar, por telefone.

As empresas chinesas investiram pesadamente em Mianmar, que é também uma grande fonte de matérias-primas, especialmente petróleo e gás, além de ser um elo de ligação com portos no Mar de Andaman.

A China afirmou repetidamente que os problemas de Mianmar são uma questão interna do país. No ano passado Pequim bloqueou uma iniciativa norte-americana no sentido de colocar as violações dos direitos humanos praticadas por Mianmar na agenda do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas recentemente os chineses tomaram iniciativas públicas para pressionar Mianmar a fim de que este promova reformas democráticas. Em junho, a China organizou uma reunião altamente incomum, em Pequim, entre representantes de Mianmar e dos Estados Unidos, durante a qual os norte-americanos pediram a libertação de Aung San Suu Kyi.

E no início deste mês, enquanto as manifestações continuavam em Mianmar, um diplomata chinês graduado, Tang Jiaxuan, disse ao ministro das Relações Exteriores mianmarense, Nyan Win, que visitava Pequim: "A China espera sinceramente que Mianmar procure instituir um processo democrático que seja apropriado para o país".

Usando um fraseado político rebuscado, Jiaxuan rogou ao governo de Mianmar que "promova ativamente a reconciliação nacional".

Mas os analistas dizem que, com a população se rebelando contra a junta militar, naquela que é a maior contestação ao regime nas últimas duas décadas, pode ser muito tarde para pedir aos generais que ajam com calma.

"Neste momento, creio que todas as apostas estão canceladas, e que os chineses não terão nenhuma influência real sobre aquilo que os generais farão", afirma Dave Mathieson, funcionário especialista em Mianmar do grupo internacional de direitos humanos Human Rights Watch. UOL

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