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25/09/2007

Índia procura terceirizar a sua terceirização

The New York Times
Anand Giridharadas
Em Mysore, Índia
Vindos de toda a Índia, milhares de recrutas se apresentam nas instalações da Infosys Technologies, aqui, no extremo sul do país. Em meio a gramados bem cuidados e a prédios modernos, eles aprendem as técnicas mais sofisticadas de programação.

Mas, ultimamente, grupos de estrangeiros têm circulado pelo local. Muitos são norte-americanos, recém-formados em universidades. Alguns foram procurados por empregadores cobiçados como o Google. Em vez disso, eles aceitaram uma tarefa nova na Infosys, a gigante tecnológica indiana: voar para cá a fim de aprender a programar a partir da estaca zero, e depois retornar aos Estados Unidos para trabalhar em um departamento administrativo da companhia.

Agora a Índia está terceirizando a terceirização.

Pavel Horejsi/The New York Times 
Trabalhadores da Infosys no escritório em Brno, República Tcheca

Um dos fatores constantes da economia global têm sido o fato de as companhias deslocarem tarefas - e empregos - para a Índia, onde tais tarefas podem ser realizadas a preços mais reduzidos. Mas o aumento dos salários de programadores aqui, uma moeda em alta e a necessidade das companhias de contar com funcionários que estejam no mesmo fuso horário dos seus clientes, ou que falem outras línguas além do inglês, são fatores que estão desafiando esse modelo.

Ao mesmo tempo a Índia está se deparando com uma concorrência cada vez maior de país que tentam imitar o seu sucesso como departamento administrativo dos vizinhos mais ricos: é o caso, por exemplo, da China em relação ao Japão, do Marrocos em relação à França e do México em relação aos Estados Unidos.

Procurando superar esses novos rivais, as mais importantes companhias indianas estão abrindo departamentos administrativos naqueles países, terceirizando o trabalho neles antes que os seus atuais clientes o façam.

Atualmente, na Índia, muitos executivos admitem que a terceirização, que ocorreu de forma mais intensa na Índia, fará recrudescer a pulverização das tarefas por todo mundo. "O futuro da terceirização é pegar o trabalho em qualquer parte do mundo e transferi-lo para qualquer outra região do planeta", resume Ashok Vemuri, vice-presidente da Infosys.

Em maio último, a rival indiana da Infosys, a Tata Consultancy Services, anunciou a abertura de uma nova unidade administrativa em Guadalajara, no México. A empresa já conta com 5.000 funcionários no Brasil, no Chile e no Uruguai. A Cognizant Technology Solutions, que tem a maior parte das suas operações na Índia, acaba de abrir departamentos desse tipo em Phoenix, no Estado do Arizona, e em Xangai. A Wipro, uma outra companhia indiana, terceirizou departamentos no Canadá, na China, em Portugal, na Romênia e na Arábia Saudita, entre outros países.

No mês passado, a Wipro anunciou que estava abrindo um centro de desenvolvimento de software em Atlanta que empregaria 500 programadores em três anos.

Em uma reflexão poética a respeito da nova face da terceirização, Azim Premji, o presidente da Wipro, disse neste ano a analistas de Wall Street que está pensando em abrir departamentos nos Estados de Idaho e de Virgínia, além da Geórgia, a fim de tirar vantagem de "Estados que são menos desenvolvidos".

A Infosys está criando um verdadeiro arquipélago de departamentos administrativos para terceirização - no México, na República Tcheca, na Tailândia e na China, bem como em regiões de baixos custos nos Estados Unidos. A companhia deseja tornar-se uma mediadora global: todas as vezes em que uma companhia desejar fazer negócios em algum outro lugar, ainda que do outro lado da rua, a Infosys espera receber a ligação.

Trata-se de uma ambição peculiar para uma companhia que simboliza o fluxo de tarefas do Ocidente para a Índia. A maior parte dos 75 mil funcionários da Infosys é composta de indianos que moram na Índia, e eles respondem pela maioria das vendas da companhia no valor de US$ 3,1 bilhões durante o período de um ano encerrado em 31 de março último, para clientes como o Bank of America e a Goldman Sachs. "A Índia continua sendo a localização número um para a terceirização", afirmou em uma entrevista por telefone S. Gopalakrishnan, o diretor-executivo da companhia.

Mas a Infosys está discretamente montando um colar de centros globais de terceirização, em locais onde os funcionários trabalham com pouco auxílio dos seus patrões indianos. A companhia abriu uma filial nas Filipinas em agosto e, um mês antes, adquiriu departamentos administrativos na Tailândia e na Polônia, da Royal Philips Electronics, uma companhia holandesa.

A experiência de terceirização indiana da Infosys a ensinou a formular projetos, a destinar cada parcela das tarefas para o trabalhador adequado, a reexaminar a qualidade e a exportar um produto final remontado. A companhia acredita ser capaz de clonar os seus departamentos administrativos indianos em nações pouco conhecidas, e ensinar os chineses, os mexicanos e os tchecos a apresentar uma produtividade maior do que aquela que resulta das lições das empresas locais de terceirização.

"Nós fomos os pioneiros deste movimento", afirma Gopalakrishnan. "Esses novos países não contam com a experiência nem com a maturidade para fazer tal coisa, e é por isso que estamos indo até eles".

Alguns analistas comparam essa estratégia à penetração japonesa da indústria automotiva dos Estados Unidos na década de 1970. Assim como os japoneses aprenderam a fabricar automóveis nos Estados Unidos sem trabalhadores japoneses, os vendedores indianos estão aprendendo a terceirizar sem indianos, explica Dennis McGuire, presidente da TPI, uma firma de consultoria com sede no Texas, especializada em terceirização.

Por ora, o trabalho feito em outros países ainda se constitui em uma pequena parcela nos negócios da Infosys, mas é uma parcela que cresce. A companhia costuma agir com base no sigilo, mas os seus executivos concordaram em descrever alguns dos novos projetos com a condição de que os clientes não fossem identificados.

Em um dos projetos, um banco norte-americano precisou construir um sistema de computação para lidar com um novo programa de empréstimos elaborado especificamente para clientes hispânicos. O sistema precisava funcionar em espanhol e, ao tomar as decisões relativas à aprovação de empréstimos, necessitava compreender variáveis específicas do mercado hispânico. Muitos hispânicos, por exemplo, enviam dinheiro para as suas famílias no exterior, o que afeta as suas contas bancárias. O banco achou que uma equipe mexicana contaria com as habilidades lingüísticas corretas e compreenderia as sutilezas culturais.

Mas em vez de recorrer a uma vendedora mexicana ou estadunidense com filiais mexicanas, o banco recorreu a 36 engenheiros da Infosys, que recentemente abriu uma filial em Monterrey, no México.

É assim que funciona a nova terceirização. Uma companhia nos Estados Unidos paga uma empresa vendedora indiana a 11,2 mil quilômetros de distância para que esta forneça funcionários mexicanos situados 240 quilômetros ao sul da fronteira entre México e Estados Unidos.

Também na Europa as companhias atualmente contratam a Infosys para que esta gerencie trabalhos de departamentos administrativos que ficam em seus quintais.

Em um exemplo disso, uma grande indústria norte-americana que possui fábricas pela Europa precisava lidar com contas de fornecedores de vários países europeus. Cada fornecedor cobrava da companhia no país do próprio fornecedor, criando uma complexa rede de pagamentos para múltiplos fornecedores, de múltiplos departamentos e em moedas múltiplas.

A Infosys gerencia essa rede. Os escritórios da indústria escaneiam as contas e as enviam para a Infosys, onde cada uma delas é passada para a equipe de linguagem apropriada. As equipes verificam as contas e enviam o pagamento para os fornecedores enquanto estão conectadas ao sistema de computador do cliente. Mais de uma dúzias de idiomas são falados no escritório em Brno, na República Tcheca.

O programa norte-americano em Mysore tem como objetivo manter aberto um canal para diversos trabalhadores da companhia. Os recrutas não têm conhecimento de software. Ao ensinar os novatos, a Infosys espera poupar dinheiro e atrair funcionários que rejeitarão companhias mais conhecidas devido à chance de aprender uma nova habilidade.

"É o equivalente a fazer um curso de graduação em ciência da computação em seis meses", afirma Melissa Adams, uma recruta de 22 anos de idade. Adams formou-se no segundo trimestre deste ano pela Universidade do Estado de Washington, obtendo um diploma em negócios, e trocou o Google pela Infosys.

Mesmo assim, no momento em que a terceirização busca novos rumos, as antigas percepções continuam vivas.

Quando Jeff Rand, 23, um outro recruta norte-americano, disse à sua avó, "Vou para a Índia trabalhar como engenheiro de software nos próximos seis meses", ela retrucou, "Talvez eu tenha que falar com você quanto tiver um problema com o meu cartão de crédito".

"Demorei duas ou três semanas para conseguir explicar à minha avó que eu não iria trabalhar em um call center", diz Rand com um riso triste. UOL

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