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25/09/2007

Livros sobre a Amazônia, mas não como você pensa

The New York Times
Larry Rohter

Em Manaus
A Amazônia é um reino de paisagens fantásticas com inúmeras fábulas e lendas, a começar pela das guerreiras de um único seio que deram nome à região. Mas também é o lar de escritores que, apesar do enorme panorama diante deles e de seu talento considerável, tiveram problemas para ser ouvidos além da selva.

Pergunte a Márcio Souza ou Milton Hatoum, dois importantes romancistas brasileiros de temática amazônica. Ambos nasceram e cresceram nesta cidade portuária fervilhante, etnicamente diversificada, no coração da maior floresta tropical do planeta, mas tiveram de sair daqui e lutar para ser reconhecidos.

"Não nos encaixávamos em qualquer dos modelos ou nichos estabelecidos", disse Souza, 61, em uma entrevista em seu estúdio em Manaus. "Não somos realistas mágicos" como Gabriel García Márquez e outros autores latino-americanos célebres, ele disse, "e não vivemos os momentos interessantes que os europeus do Leste viveram".

"Talvez precisássemos de mais desflorestamento aqui para recebermos alguma atenção", acrescenta mordazmente Souza, autor de romances satíricos e picarescos como "Galvez, Imperador do Acre" e "Mad Maria". "É assim que o mundo dos livros parece funcionar".

Para ter um mínimo de reconhecimento, os autores amazônicos, sejam do Brasil ou de países vizinhos, lutam contra o isolamento e a insularidade. Até recentemente eles estavam afastados dos principais centros intelectuais de seus países, que por sua vez pensavam na Amazônia, nas raras ocasiões em que ela vinha à mente, em termos estereotipados.

"A maioria das pessoas de fora ainda pensa na Amazônia como um ambiente natural povoado por indígenas, quando é povoado", disse Nicomedes Suárez-Arauz, editor de "Literary Amazonia: Modern Writing by Amazonian Authors" [Amazônia Literária: Textos modernos de autores amazônicos] (University Press of Florida, 2007) e professor de literatura latino-americana no Smith College. "A imagem de 'terra incognita', de uma terra selvagem, persiste e é promovida, por isso quando você menciona cultura e escritores causa uma surpresa imediata na maioria das pessoas".

Nos últimos anos, porém, a Amazônia tornou-se o que Suárez-Arauz chama de "uma realidade urbanizada", e é esse o mundo literário de Milton Hatoum. Em romances premiados como "Dois Irmãos" e "Cinzas do Norte", Hatoum, que descende de libaneses, escreveu sobre os imigrantes árabes que têm um papel importante no comércio da Amazônia e suas relações com outros grupos étnicos e raciais, desde os povos indígenas até os descendentes dos colonizadores portugueses.

Hatoum, 55, disse que quando começou a escrever enfrentou o desafio de evitar o exotismo associado à Amazônia e ao Levante, e que ainda teme que lhe atribuam o rótulo de exótico.

"Não sei por que uma palmeira é considerada exótica e a neve não, porque para mim a neve é muito exótica", ele disse. "E existe um motivo pelo qual 80% da população da Amazônia vivem em cidades. Conheço a idéia romântica do retorno à natureza, mas a Amazônia não é idílica. Viver na floresta é difícil e às vezes terrível".

Souza e Hatoum manifestaram admiração pelo trabalho de seu colega brasileiro Dalcídio Jurandir, talvez o primeiro grande autor modernista amazônico. Mas os mais de dez romances de Jurandir, um comunista muitas vezes perseguido que morreu em 1979, são difíceis de encontrar, mesmo no Brasil, e raramente foram traduzidos.

"É um grande mistério, porque ele é um autor muito, muito bom", disse Lucia Sá, autora de "Rain Forest Literatures: Amazonian Texts and Latin American Culture" [Literaturas da Floresta Tropical: Textos amazônicos e cultura latino-americana] (University of Minnesota Press, 2004) e professora na Universidade de Manchester, Inglaterra. "Os cânones são feitos de exclusões e de inclusões, e neste caso a exclusão de Jurandir tem a ver, acredito, com o fato de ele ser um realista regional numa época em que ninguém prestava atenção na Amazônia".

Desde os tempos coloniais a Amazônia também atraiu escritores estrangeiros, fascinados por sua diferença. Na era moderna essa linha vai de "Green Mansions" de W. H. Hudson e "O Mundo Perdido" de Arthur Conan Doyle ao peruano Mario Vargas Llosa, que ambientou na região três de seus romances -"Pantaleão e as Visitadoras", "A Casa Verde" e "O Falador".

Mas considerar qualquer um deles autores amazônicos "é como rotular Joseph Conrad de autor africano ou E. M. Forster de indiano", afirma Suárez-Arauz, um boliviano que cresceu na Amazônia. "Esses visitantes dos séculos 19 e 20 estão mais próximos dos primeiros cronistas e exploradores, que também foram atraídos pelo exotismo da Amazônia".

Santiago Roncagliolo, autor de um dos romances amazônicos mais aclamados dos últimos anos, "El Príncipe de los Caimanes", não conhecia a região quando escreveu o livro. Um peruano de 32 anos, Roncagliolo admitiu num ensaio que estava na Espanha em 2001, "morrendo de fome e numa situação de imigração indefinida" quando aceitou a oferta de uma editora para escrever um romance de viagem.

"Eu era desconhecido e precisava publicar algo urgentemente, por isso propus a Amazônia", ele escreveu. "Fui a bibliotecas, vasculhei livrarias e conseguiu 46 livros sobre o assunto, e com eles construí uma Amazônia de palavras, tecida a partir das histórias de exploradores e romancistas. O principal mérito dessa novela foi demonstrar que sou um bom mentiroso".

A obra de Hatoum foi traduzida em mais de dez idiomas, incluindo o árabe, mas ele diz que gostaria que fosse mais publicada na língua nativa de seus pais. Conta que seu pai, muçulmano, levou sua mãe, católica, à igreja todos os domingos durante 50 anos, como um exemplo do tipo de tolerância que o mundo árabe deveria absorver.

"A diluição das próprias origens é uma das boas coisas do Brasil", ele disse. "Temos uma sociedade mestiça cuja riqueza vem da fusão e do diálogo de diferentes culturas. Minha mulher é de origem italiana, e quando adolescente eu fui cantor numa banda pop cujo guitarrista era um judeu sefardita. Não me considero libanês-brasileiro, mas apenas brasileiro".

Souza construiu uma carreira paralela escrevendo e dirigindo peças fortemente baseadas nas lendas e na mitologia das tribos indígenas amazônicas. A perseguição política causada pela natureza alegórica de algumas de suas peças foi um dos fatores que o obrigaram a deixar a Amazônia quando o Brasil esteve sob regime militar, um quarto de século atrás.

"Manaus era uma sociedade muito fechada naquele tempo, e o trabalho teatral de Márcio sempre foi muito crítico dessa sociedade", disse Sá. "Ele é um rebelde que enfrentou uma dificuldade única trabalhando em um lugar que era considerado marginal e não deveria produzir literatura."

Mas depois de duas décadas morando no Rio de Janeiro, Souza voltou a Manaus em 2002 e hoje escreve em um apartamento que fica a meio caminho entre a ópera da cidade e seu porto. Ele está completando uma tetralogia de romances sobre a violenta integração da Amazônia ao Brasil depois que o país conquistou a independência de Portugal, em 1822.

"As pessoas esperavam um livro engraçado e bem-humorado, porque sou considerado um autor cômico", ele diz. "Mas mais uma vez não estou atendendo às expectativas, e esse é o meu problema. Os massacres e a destruição que ocorreram na época não são nada engraçados".

Hatoum, por sua vez, continua morando em São Paulo, para onde se mudou aos 15 anos, "porque lá estou mais perto de meus leitores, de minha editora e do centro da vida cultural brasileira". Mas ele diz que o desejo de se recarregar na floresta tropical nunca o abandona.

"Eu viajo à Amazônia todas as manhãs às 7 horas, quando me sento para escrever", diz. "Mas também tenho de voltar para lá duas ou três vezes por ano, porque é lá que estão minha infância e minhas memórias. Você não pode negar suas origens." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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