UOL Notícias Internacional
 

26/09/2007

Cidades repensam leis contra imigrantes ilegais

The New York Times
Ken Belson e Jill P. Capuzzo

Em Riverside, Nova Jersey
Há pouco mais de um ano, o Comitê Municipal desta desbotada cidade fabril fez com que esta se tornasse a primeira municipalidade em Nova Jersey a aprovar uma legislação penalizando quem contratasse ou alugasse para imigrantes ilegais.

Em questão de meses, centenas, talvez milhares de imigrantes recentes do Brasil e de outros países latino-americanos fugiram. O barulho, a agitação e o trânsito que acompanharam sua chegada ao longo da última década, diminuíram.

A lei funcionou. Talvez, para alguns, bem demais.

Com a partida de tantas pessoas, a economia local sofreu. Salões de beleza, restaurantes e lojas que atendiam os imigrantes viram seus negócios despencarem; várias fecharam. O comércio que tinha ressuscitado no centro voltou a fechar.

Ao mesmo tempo, a cidade foi atingida por dois processos contestando a lei. As despesas legais começaram a se acumular, comprometendo o orçamento já limitado da cidade. De repente, muitas pessoas -incluindo algumas que eram favoráveis à lei- começaram a ter dúvidas.

Assim, na semana passada, a cidade revogou a lei, se juntando à pequena mas crescente lista de municipalidades de todo o país que começaram a repensar tais leis, à medida que suas conseqüências legais e econômicas se tornaram mais claras.

"Eu acho que as pessoas não sabiam que o impacto econômico seria tamanho", disse o prefeito George Conard, que votou a favor da lei original. "Muitas pessoas não olharam três anos à frente."

Nos últimos dois anos, mais de 30 cidades em todo o país aprovaram leis para tratar dos problemas atribuídos à imigração ilegal, de falta de moradias e escolas superlotadas à sobrecarga de trabalho para as forças policiais. A maioria destas leis, como a de Riverside, impõe multas e até mesmo pena de prisão para as pessoas que alugam conscientemente imóveis para imigrantes ilegais ou lhes dão emprego.

Em alguns lugares, os empresários fizeram objeção à repressão que afugentou seus clientes imigrantes. E em muitos lugares, as leis foram contestadas na Justiça por grupos de imigrantes e pela União das Liberdades Civis Americanas.

Em junho, um juiz federal concedeu uma liminar contra a lei de imóveis de Farmers Branch, Texas, que impunha multas aos proprietários que alugavam para imigrantes ilegais. Em julho, a cidade de Valley Park, Missouri, revogou uma lei semelhante, após uma versão anterior ter sido derrubada por um juiz estadual e uma revisão ter provocado novos processos. Uma semana depois, um juiz federal derrubou as leis em Hazleton, Pensilvânia, a primeira cidade a aprovar leis proibindo imigrantes ilegais de trabalharem e alugarem residências lá.

Muzaffar A. Chishti, diretor do escritório de Nova York do Instituto de Política de Migração, um grupo sem fins lucrativos, disse que a decisão de Riverside de revogar sua lei -que nunca foi aplicada- foi claramente influenciada pela decisão de Hazleton, e ele previu que outras cidades farão o mesmo.

"As pessoas em muitas cidades agora estão pesando os custos sociais, econômicos e legais de tentar tais leis", ele disse.

De fato, Riverside, uma cidade de 8 mil habitantes situada na margem oposta do Rio Delaware, em relação à Filadélfia, já gastou US$ 82 mil defendendo sua lei e corre o risco de ter que arcar com as despesas legais dos querelantes se perder na Justiça. A batalha legal forçou a cidade a adiar a pavimentação de ruas, a compra de um caminhão de lixo e reparos na prefeitura, disseram as autoridades. Mas se a meia volta de Riverside poderá reparar seu orçamento, poderá levar anos para cicatrizar as feridas emocionais causadas quando a lei "nos colocou no mapa nacional de um modo ruim", disse Conrad.

Grupos de defesa rivais no debate da imigração transformaram esta cidade sonolenta em um exemplo para suas causas. Diante das câmeras, Riverside foi alternadamente rotulada como um enclave racista e uma cidade lutando pelos valores americanos.

Alguns moradores que apoiaram a proibição no ano passado agora estavam relutantes em discutir sua posição, apesar de culparem os forasteiros por interpretarem erroneamente seus motivos. A maioria disse que a lei foi um sucesso, porque afugentou os imigrantes ilegais, apesar de ter prejudicado a economia.

"Ela mudou um pouco a face de Riverside", disse Charles Hilton, o ex-prefeito que pressionou pela lei. (Ele foi afastado do cargo pelo voto no ano passado, mas disse que não foi porque apoiou a lei.)

"O distrito comercial está praticamente vazio agora, mas não são os negócios legítimos que fecharam", ele disse. "São aqueles que apoiavam os imigrantes ilegais, ou, como costumo chamá-los, estrangeiros criminosos."

Muitos negócios que continuam funcionando estão passando por dificuldades. Angelina Guedes, uma cabeleireira nascida no Brasil, abriu A Touch from Brazil, um salão de beleza, na Scott Street há dois anos para atender à população imigrante. A certa altura, ela contava com 10 funcionários.

Os negócios rapidamente secaram após a aprovação da lei contra os imigrantes ilegais. Na semana passada, no que costumava ser uma tarde movimentada de quinta-feira, Guedes comia salada e fazia as unhas de uma amiga, enquanto cinco cadeiras permaneciam vazias.

"Agora só eu trabalho", disse Guedes, 41 anos, falando uma mistura de espanhol e português. "Todos partiram. Eu também quero ir embora, mas não consigo porque ninguém quer comprar meu negócio."

Várias vitrines na Scott Street estão vazias ou tampadas com tábuas, com placas de "à venda" penduradas. Os negócios caíram pela metade na River Dance Music Store de Luis Ordonez, que vende celulares, perfumes e faz remessas de dinheiro pela Western Union. Na porta ao lado, seu restaurante, o Scott Street Family Cafe, que conta com um cardápio multiétnico em inglês, espanhol e português, estava vazio na hora do almoço.

"Eu vim para cá à procura de oportunidade de abrir um negócio e encontrei, e as pessoas também precisavam do serviço", disse Ordonez, que é do Equador. "Ficava lotado e todos se esforçavam para fazer o melhor para sustentar suas famílias."

Alguns se adaptaram melhor do que outros. Bruce Behmke abriu a lavanderia R&B Laundromat em 2003, após ter visto imigrantes arrastando sacos de lixo cheios de roupas para uma lavanderia a 1,5 quilômetro de distância. Os negócios prosperaram em sua pequena loja, onde há anúncios de emprego em português pregados em um mural e cópias do jornal "Brazilian Voice" se encontram ao lado da porta.

Quando as vendas despencaram no ano passado, Behmke iniciou um serviço de tinturaria para jovens profissionais.

"Isto aqui virou uma cidade fantasma", ele disse.

Imigração não é uma novidade para Riverside. Antes um resort de verão para os moradores da Filadélfia, a cidade há um século foi ímã para imigrantes europeus, atraídos por suas fábricas, incluindo a Philadelphia Watch Case Company, cuja carcaça vazia ainda paira sobre a cidade. Até os anos 30, os minutos das reuniões do conselho escolar eram marcados em alemão e inglês.

"Sempre há algum bode expiatório", disse Regina Collinsgru, que dirige o jornal local "The Positive Press" e cujo marido esteve entre a onda de imigrantes portugueses que vieram para cá nos anos 60. "Os alemães foram os primeiros, houve problemas quando os italianos vieram, depois quando os poloneses vieram. Esta é a natureza de muitas cidades pequenas."

Os imigrantes da América Latina começaram a chegar por volta de 2000. A maioria era de brasileiros atraídos não apenas pelos empregos em construção em meio ao boom do mercado imobiliário, mas também pela presença de empresas de língua portuguesa na cidade. Entre 2000 e 2006, estimaram os donos de negócios e autoridades locais, mais de 3 mil imigrantes chegaram. Não há números confiáveis sobre o número de imigrantes que estavam ou não legalmente no país.

Como as ondas anteriores de imigrantes, os brasileiros e latinos provocaram reações conflitantes. Alguns lojistas adoraram os dólares adicionais gastos nas ruas Scott e Pavilion, vias públicas modestas que ancoram o centro da cidade. Mas alguns moradores se esquivavam das lojas onde o português e o espanhol eram as línguas preferenciais. Alguns prestadores de serviço se beneficiaram da nova oferta de mão-de-obra barata. Outros reclamavam de concorrência desleal de rivais que contratavam trabalhadores sem documentos.

Nas ruas residenciais arborizadas da cidade, alguns moradores admiravam o ânimo dos recém-chegados, que freqüentemente trabalhavam seis dias por semana, e alguns até mesmo começaram a praticar capoeira, a arte marcial brasileira. Mas muitos vizinhos odiavam as vans brancas com placas de outros Estados e escadas no teto, estacionadas em locais que antes consideravam seus. As bandeiras brasileiras que tremulavam em várias casas irritavam muitos moradores mais antigos.

Não se sabe se os imigrantes brasileiros e latinos que deixaram Riverside retornarão. Com o declínio do mercado imobiliário, pode haver pouca razão para voltar. Mas se voltarem, alguns residentes disseram que eles poderão provocar novas tensões.

Hilton, o ex-prefeito, disse que alguns imigrantes ilegais já começaram a voltar para a cidade. "Não é o Velho Oeste como era antes, mas pode voltar a ser." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host