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26/09/2007

Crianças da Faixa de Gaza são vítimas freqüentes de mísseis e tiros israelenses

The New York Times
Steven Erlanger*
Na Cidade de Gaza
Os três pais de sobrenome Abu Ghazala estão de luto, do jeito palestino, sentados com os seus parentes em um pátio sombreado que dá para uma plantação de melancias e berinjelas, o local onde os seus filhos morreram.

As crianças - Yehiya, 12, Mahmoud, 9, e Sara, 9 - pastoreavam as cabras da família e brincavam de pique em 29 de agosto último quando uma peça de artilharia ou foguete israelense explodiu, despedaçando-as. "As crianças subiam naquela palmeira", diz Ramadan Abu Ghazala, o pai de Yehiya, apontando para uma árvore a 300 metros de distância. "Elas iam brincar lá todos os dias".

Shawn Baldwin/The New York Times 
Ramadan Abu Ghazala (dir.), pai de Yehiya, e Suleiman Abu Ghazala, pai de Sara

No dia da tragédia, enquanto os pais, todos agricultores, conversavam, um dirigível israelense equipado com câmeras pairava no céu sobre Beit Hanoun, na extremidade norte da Faixa de Gaza, um avião não tripulado israelense zumbia no ar e uma torre de observação israelense erguia-se ameaçadora na fronteira próxima. Supõe-se que foi o dirigível ou o avião que identificou primeiro o alvo.

O Fatah, o mais secular e nacionalista dos dois principais movimentos palestinos, e a oposição daqui, controlada pelo Hamas, adotaram os três jovens primos mortos pelos israelenses. Uma bandeira do Fatah tremula sobre a casa onde as crianças viviam. O Fatah publicou um pôster apresentando as três como mártires, no qual Sara é representada, entre os dois garotos, por um grande buquê de rosas vermelhas. Qualquer um que morra por qualquer motivo na luta contra Israel é visto pelos palestinos como um mártir, que conta com um caminho rápido para alcançar o céu.

O exército israelense declarou que as crianças estavam brincando perto de um lançador utilizado para disparar foguetes Qassam contra Israel. Segundo os militares, esses lançadores têm como objetivo matar ou destruir qualquer pessoa ou coisa que se encontre onde eles caírem - crianças, soldados, animais. Sderot, uma cidade israelense visível daqui, era o alvo principal, e os seus moradores vivem com medo, correndo para abrigos toda vez que soa um alarme. Às vezes não dá tempo de se abrigar.

Segundo os israelenses, as crianças tocaram no lançador. Mas eles não revelam que tipo de munição as atingiu, dizendo apenas que foi disparada do solo. Acredita-se que tenha sido um míssil, dirigido ou disparado pelas tropas israelenses que freqüentemente espreitam nos pomares e campos de cultivo dos palestinos, tentando matar os ativistas que lançam os Qassams.

Os israelenses, que argumentam que precisam fazer tudo o que puderem para impedir que os foguetes caiam sobre israelenses inocentes, disseram não ter percebido que os alvos neste caso eram crianças, exceto quando já era muito tarde. Os Abu Ghazala não defendem o lançamento de foguetes a partir da plantação da família.

Desde 1° de junho último, 18 palestinos da Faixa de Gaza com menos de 19 anos foram mortos por algum tipo de ação armada israelense: sete deles tinham menos de 15 anos, sem contar um bebê de um ano que morreu esperando em uma barreira militar, e 11 com idades entre 11 e 18 anos, segundo estatísticas do Grupo Palestino de Monitoramento dos Direitos Humanos.

Suleiman Abu Ghazala, o pai de Sara, disse que o lançador de foguetes estava no campo havia três meses. Os outros concordam com essa versão.

A capitã Noa Meir, uma porta-voz do exército israelense, diz que isso é impossível. E embora as crianças tenham sido mortas por armas disparadas do solo, ela ofereceu à reportagem uma entrevista com um piloto israelense de caça, identificado apenas como "Major Asaf", que falou emotivamente sobre como Israel procura de todas as maneiras "impedir ações terroristas contra os civis israelenses" e, ao mesmo tempo, "não ferir inocentes do outro lado".

"No momento em que percebemos que não existe certeza de que todas as pessoas em determinada área estão armadas, a nossa política é cancelar a missão", garante Asaf.

Moussa Abu Ghazala, o pai de Mahmoud, descreveu o dia como sendo "tranqüilo, como agora", exceto pelo zumbido do avião teleguiado. Eram cerca de 17h30, e não houve nenhum aviso. "Naquela ocasião não havia foguete algum, mas subitamente houve um ruído sibilante e uma explosão. Nós estávamos sentados aqui, e vimos os nossos filhos morrer".

Os Abeed
No campo de refugiados de Nusseirat, na região central da Faixa de Gaza, os Abeed estão de luto pela morte de Nizar, 22. O rapaz foi morto a tiros por soldados israelenses quando tentava passar pela barreira na divisa com Israel, em agosto passado. A família e os amigos dizem que ele tentava conseguir um trabalho em Israel, assim como o seu irmão, Ghassan, 24, que havia feito o mesmo quatro vezes.

Nizar havia concluído o segundo grau, mas não tinha condições financeira para freqüentar a faculdade, e encontrava pouco trabalho, conta o seu pai, Rajid al-Abeed, 47, um motorista de táxi e chefe de uma família ampliada de 13 pessoas que vivem em três quartos.

"Eles não pedem permissão a mim quanto tentam passar pela barreira, porque sabem que eu não permitiria", conta o pai. "Mas esta juventude não tem futuro. Eles querem trabalho em Israel, e os caminhos legais estão fechados".

Certa vez Ghassan passou 18 meses trabalhando em Israel, antes de ser pego e enviado de volta para a Faixa de Gaza. Ele trabalhou na agricultura, na construção e como encanador, na maioria das vezes em Beersheba, onde a família, que veio da região de Darfur, no oeste do Sudão, vários séculos atrás, tem parentes. "Os israelenses me tratavam como se eu fosse um deles".

Mas ele não encontrou trabalho estável na Faixa de Gaza. O seu pai citava um provérbio árabe: "Sete profissões, mas falta de sorte".

Ghassan explica que a barreira na fronteira era eletrônica, mas que aprendeu a conectar duas partes da cerca para manter a conexão elétrica enquanto cortava o obstáculo para entrar em Israel. Ele faz isso à luz do dia, tendo passado horas observando a rotina das patrulhas israelenses.

Mas Ghassan diz que, na sua tentativa, Nizar foi abatido pelas tropas israelenses, que todos sabem que disparam contra aqueles que tentam cruzar a barreira. "É claro que farei o mesmo de novo", garante Ghassan. "Estou aqui, não estou fazendo nada. Acordo e durmo. Me levanto, tento encontrar trabalho e não consigo. Eu desejo um futuro".

O seu pai lamenta: "Não é fácil perder um filho. Eu disse a ele, 'Não quero nada de você, apenas que viva a sua vida".

Ghassan retruca: "Mas quero algo para mim. Quero um futuro".

"A situação está bem pior desde que o Hamas assumiu o controle", diz o pai. "Agora tudo está fechado. Espero que o Hamas e o Fatah consigam se reconciliar. Essa é a nossa esperança, mas é uma esperança fraca".

E quanto à perspectiva de criação de um Estado palestino? "É algo que parece estar tão longe quanto a distância que separa a terra do céu", afirma ele.

Os Abu Zubeida e os Majdalawi
Em Faluja, ao norte de Beit Lahiya, duas outras famílias da Faixa de Gaza ainda estão de luto.

Em junho último, no primeiro dia de férias após as provas finais na escola, quatro garotos brincavam na praia, perto das ruínas de ex-assentamento israelense de Dugit, na região no extremo noroeste da Faixa de Gaza, cerca de cem metros da barreira entre o território palestino e Israel, um outro bom lugar para o lançamento dos Qassams.

As forças israelenses estavam dentro da Faixa de Gaza, em busca de grupos de lançamento de foguetes. Os soldados viram os garotos rastejando em direção à barreira e dando a impressão de cavar e instalar algo, supostamente explosivos.

Os israelenses dizem que advertiram os garotos por meio de um megafone e dispararam tiros de advertência, e depois tiros de verdade. Dois dos garotos, Ahmed Abu Zubeida, 9, e Zaher al-Majdalawi, 10, foram mortos. Muhammad al-Atawanah, 16, ficou seriamente ferido e foi levado pelos israelenses para um hospital em Israel, onde foi tratado e submetido a um interrogatório pelo Shin Bet, a agência israelense de inteligência. Muhammad Abu Tabaq, 15, conseguiu fugir correndo.

Alguns palestinos dizem que os garotos estavam cavando em busca de sucata de metal. Outros afirmam que as crianças soltavam uma pipa e que quiseram escondê-la enquanto iam à praia. É mais ou menos essa a história contada por al-Atawanah, o garoto baleado que sobreviveu.

"Nós nadamos, brincamos e soltamos a pipa, mas ela bateu em algo e caiu", conta ele, que está se recuperando na sua casa. "Nós nos agachamos para tentar descobrir o que havia de errado com a pipa e consertá-la, mas foi aí que eles atiraram. Ahmed não se movia. Zaher estava sangrando. Eu levei um tiro nas costas".

Os soldados israelenses transportaram-no para o hospital, mas ele os acusa de não terem ajudado Zaher. "Eles são criminosos!", acusa o adolescente. "Tudo isso por causa de uma pipa!".

Os pais dos garotos ficaram desesperados, e os irmãos furiosos. O pai de Zaher, Jaber, 59, estava em meio às orações na mesquita quando recebeu a má notícia. "Por que Israel não os prendeu?", gritou ele mais tarde. "Por que Israel não os baleou nas pernas?".

Na casa de Zubeida, 14 pessoas compartilham uma pequena casa dividida em quatro pequenos aposentos, e que tem um chuveiro e uma cozinha. O pai de Ahmed, Sabri, 52, não conseguia deixar de chorar. Muhammad, 18, irmão de Ahmed, treme de raiva.

"Nesta grande prisão, tudo o que temos é o mar!", reclama o rapaz. "Eles eram inocentes, inocentes". Muhammad quer ser psicólogo, "a fim de orientar os jovens", diz ele. "Mas dentro de mim há muita raiva devido ao que os judeus fizeram com Ahmed!".

O exército israelense concordou em mostrar uma versão editada do filme de observação gravado naquele momento por uma câmera de fronteira, instalada a pelo menos cem metros de distância. A gravação tem cerca de 11 segundos, cobrindo o período de 14h14m37s a 14h14m48s. Mas o momento em que os israelenses atiraram não está incluído na fita editada. Os garotos são vistos rastejando em uma área aberta próxima ao mar, escavando a areia. Enquanto se afastam, vê-se um deles retirando algo que parece ser um fio - ou, talvez, a linha de uma pipa.

Um oficial do exército que mostrou o filme, mas que se recusou a fornecer o seu nome, disse: "Todo palestino sabia que nós estávamos na área, que aquela era uma área proibida, e que a nossa suposição era de que eles estavam tentando esconder uma bomba ou uma armadilha explosiva para atacar as nossas forças caso entrássemos na Faixa de Gaza".

Tais emboscadas têm sido comuns. E às vezes os garotos são pagos pelos mais velhos para fazer tal trabalho perigoso, devido à suposição de que os israelenses não matariam crianças.

E, afinal, os soldados encontraram um dispositivo explosivo?

"Não, eles não encontraram um artefato explosivo", admite o oficial. "Mas tampouco encontraram uma pipa".

* Taghreed El-Khodary contribuiu para esta matéria. UOL

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