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27/09/2007

China se prepara para mudanças em Mianmar -se ocorrerem

The New York Times
David Lague

Em Pequim
Enquanto a China pede publicamente pela estabilidade e reconciliação em Mianmar, ela também se prepara para a possibilidade dos protestos crescentes provocarem a queda da junta militar em seu vizinho rico em recursos, disseram analistas políticos na quarta-feira.

Apesar da China ser uma aliada estratégica, investidora e a parceira comercial mais importante de Mianmar, Pequim também mantém elos discretos com oponentes de seus governantes militares, assim como tolera a atividade de oposição de alguns exilados em solo chinês, disseram os analistas.

MONGES CONTRA O GOVERNO
Reuters
Noviço observa protesto de monges em Yangun, em Mianmar
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A JUNTA MILITAR
Se por um lado Pequim tem protegido o governo de Mianmar das críticas internacionais -por exemplo, ao bloquear a resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava seu retrospecto de direitos humanos, neste ano- ela também está pedindo à junta que evite repetir a repressão violenta aos manifestantes de 1988, que levou a períodos prolongados de prisão domiciliar para a líder da oposição, Daw Aung San Suu Kyi.

O Conselho de Segurança tinha uma reunião marcada em Nova York, às 15 horas de quarta-feira, horário local, para discutir a crise em Mianmar.

Tang Jiaxuan, um membro do Conselho de Estado da China e ex-ministro das Relações Exteriores, disse ao ministro das Relações Exteriores de Mianmar, U Nyan Win, em 13 de setembro, que o governo chinês espera que seu vizinho possa restaurar a estabilidade e promover a reconciliação nacional, informou a agência de notícias oficial "Xinhua".

"Se Daw Aung San Suu Kyi se tornar líder de Mianmar amanhã, a China seria o primeiro país a estender o tapete vermelho", disse Bertil Lintner, um analista de política de Mianmar, na Tailândia. "Mas ela não gostaria que acontecesse."

A China, já atormentada pelos ativistas de direitos humanos, que alertaram que seus laços com o governo repressivo do Sudão poderiam rotular os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 como as "Olimpíadas do Genocídio", quer evitar maiores danos à sua reputação pela forma como Mianmar vier a lidar com os dissidentes políticos, disseram analistas e diplomatas estrangeiros em Pequim.

Eles também notaram que a China deseja estabilidade em Mianmar porque é uma importante fornecedora de matéria-prima, incluindo madeira e minérios. O comércio bilateral entre os países aumentou 39,4% nos primeiros sete meses deste ano em comparação ao mesmo período em 2006, chegando a US$ 1,11 bilhão, segundo números oficiais do governo chinês.

Os analistas disseram que a China está ávida para importar energia do país, que conta com 50 bilhões de metros cúbicos de reservas comprovadas de gás natural, segundo uma revisão estatística da energia mundial de 2007.

A China também gostaria de manter um governo maleável no poder para desenvolver importante acesso estratégico ao Oceano Índico, segundo especialistas em segurança.

Em um esforço para expandir sua influência em Mianmar, a China se tornou a maior fornecedora de armas para a junta, assim como estendeu os empréstimos com desconto e ajuda para desenvolvimento ao país em dificuldades econômicas.

Além disso, os analistas estimam que mais de um milhão de comerciantes e empreendedores chineses cruzaram a fronteira e se estabeleceram em Mianmar na última década.

Há relatos de que a China deseja construir um oleoduto de US$ 2 bilhões da costa de Mianmar, na Baía de Bengala, até a província de Yunnan, na China. Tal oleoduto permitiria a chegada de petróleo do Oriente Médio à China sem a necessidade de passar pelo Estreito de Malaca, um território infestado de piratas e que poderia ser facilmente fechado em uma guerra ou crise internacional.

Oficialmente, a China mantém sua posição diplomática habitual de não interferência nos assuntos internos de outros países.

"Como vizinhos de Mianmar, nós esperamos ver a estabilidade de sua sociedade e o desenvolvimento de sua economia", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, na terça-feira, em uma coletiva de imprensa regular em Pequim. "Nós esperamos e acreditamos que o governo e a população de Mianmar consigam lidar apropriadamente com seus problemas atuais."

Mas os analistas disseram que há evidência de que a China está garantindo suas apostas nos desdobramentos políticos em Mianmar há alguns anos.

Lintner, o analista da Tailândia, disse que Pequim mantém contatos não oficiais com grupos de oposição de Mianmar, exilados na Tailândia e em outros países do Sudeste Asiático, em uma tentativa de minimizar seu antagonismo e melhorar seu entendimento dos desdobramentos políticos.

Ele disse que Pequim também tolera a presença destes grupos em Ruili, uma cidade chinesa na fronteira com Mianmar, na província de Yunnan, onde alguns deles mantêm escritórios não oficiais.

Outros especialistas concordaram que estes contatos informais com os exilados, juntamente com as recentes declarações oficiais de Pequim pedindo por uma solução pacífica das diferenças entre todos os grupos em Mianmar, sugerem que a China tem dúvidas em relação à sobrevivência da junta.

"Eles esperam que um dia os militares não mais governarão o lugar", disse Trevor Wilson, um especialista em Mianmar da Universidade Nacional Australiana, que foi embaixador australiano naquele país de 2000 a 2003.

"Serão partidos políticos, talvez até mesmo a atual oposição, que governarão o país", ele disse, "e a China precisa manter abertos alguns canais de comunicação com eles, não colocá-los totalmente de lado".

Apesar dos estreitos laços políticos e econômicos da China com a junta, há também sinais de que ela está insatisfeita com alguns aspectos de sua atuação.

Wilson disse que altos diplomatas chineses em Mianmar criticaram duramente a má gestão econômica da junta e sua incapacidade de conter o fluxo de drogas ilegais pela fronteira chinesa.

Por vezes nesta década, as tensões políticas levaram a China a suspender novos empréstimos a Mianmar, ele disse. Os analistas políticos também notaram que a China tem pedido abertamente para a junta exibir restrição na forma de lidar com os protestos.

Em seu encontro neste mês com o ministro das Relações Exteriores de Mianmar, U Nyan Win, Tang, o representante diplomático chinês, também disse que Pequim queria que Mianmar começasse a dar passos na direção de um "processo democrático apropriado para o país", informou Xinhua.

Isto não significa que a China deseje que Mianmar adote uma democracia ao estilo Ocidental, disseram os analistas, mas foi uma sugestão de que a junta deve buscar um acordo com seus oponentes.

A China também demonstrou recentemente que está preparada para usar sua influência com a junta para reduzir as tensões diplomáticas com os Estados Unidos. Em junho, a China organizou em Pequim as discussões de mais alto nível entre os Estados Unidos e Mianmar em cinco anos. George El Khouri Andolfato

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