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28/09/2007

Sob as cidades que prosperam, o futuro da China está secando - parte 3

The New York Times
Jim Yardley

Em Shijiazhuang, China
Buscando um milagre da água
Há três décadas, quando Deng Xiaoping afastou a China da ideologia maoísta e colocou o país na rota do crescimento econômico, uma geração de tecnocratas gradualmente assumiu o poder e começou a reconstruir um país que a ideologia quase destruiu. Hoje, toda a liderança do Partido Comunista -incluindo Hu Jintao, o presidente da China e chefe do partido- tem formação em engenharia.

Apesar de não serem membros da elite política, Wang Baosheng, o engenheiro no projeto de transposição de água, e seu colega Yang Guangjie têm a mesma formação. Na primavera chinesa deste ano, no local de construção fora de Shijiazhuang, tratores abriam um corte em forma de V na terra enquanto equipes de operários em macacões azuis e capacetes laranjas alisavam o concreto ainda úmido sobre um canal que terá quase a largura de um campo de futebol.

Yang, o supervisor, compara o projeto de transposição ao represamento do Rio Colorado no oeste dos Estados Unidos e ao sistema de desvio de águas concebido para o Sul da Califórnia no início do século 20.

"Eu estive na Represa Hoover e realmente admiro as pessoas que a construíram", disse Yang. "Na época, eles fizeram uma grande contribuição para o desenvolvimento de seu país."

"Talvez sejamos como a América nos anos 20 e 30", acrescentou Yang. "Nós estamos construindo o país."

A desvantagem da China, em comparação aos Estados Unidos, é que ela conta com reservas muito menores de água e uma população quase cinco vezes maior. A China conta com cerca de 7% dos recursos de água do mundo e cerca de 20% de sua população. Também conta com um severo desequilíbrio regional de água, com cerca de 80% das reservas de água no sul.

A visão de Mao de pegar emprestada a água o Yangtze para o norte era de uma simplicidade quase profunda, mas os engenheiros e cientistas passaram décadas debatendo o projeto antes do governo aprová-lo, em parte por desespero, em 2002. Hoje, a demanda é muito maior no norte e a qualidade da água se deteriorou enormemente no sul. Cerca de 41% da água de esgoto da China é atualmente despejada no Yangtze, aumentando a preocupação de que o desvio de água limpa para o norte exacerbará os problemas de poluição no sul.

Os pontos mais distantes da linha central deverão estar concluídos a tempo de fornecer água para Pequim nos Jogos Olímpicos do próximo ano. Evans, o consultor do Banco Mundial, chamou o projeto completo de "essencial", mas acrescentou que o sucesso dependerá do tratamento do esgoto e de uma distribuição eficiente da água.

Liu, o hidrólogo, disse que a agricultura não receberá nada da nova água e que as cidades e indústrias devem melhorar rapidamente o tratamento de esgoto. Atualmente, Shijiazhuang despeja água de esgoto não tratada em um canal que os agricultores locais usam para irrigar os campos.

Por anos, as autoridades chinesas achavam que eficiência na irrigação era a resposta para reverter o declínio da água subterrânea. Eloise Kendy, uma especialista em hidrologia da The Nature Conservancy que estudou a Planície Norte da China, disse que os agricultores fizeram melhorias mas que o lençol freático continua encolhendo. Kendy disse que a água derramada, que antes era considerada "desperdício", na verdade encharcava o solo e chegava ao aqüífero. A eficiência acabou com tal recarga. Os agricultores também usaram os ganhos em eficiência para irrigar mais terras.

Kendy disse que os cientistas descobriram que o lençol freático está encolhendo por causa da água perdida pela evaporação e transpiração do solo, plantas e folhas. A soma desta água perdida, combinada com as baixas precipitações anuais, não é suficiente para atender a demanda.

Os agricultores não têm escolha. Eles perfuram mais fundo.

Du Bin/The New York Times 
Visão geral de trecho do Han Jiang, uma das rotas da bacia do Rio Yangtze

E agora?

Para muitas pessoas que vivem na planície norte da China, a noção de uma crise de água parece distante. Ninguém está caminhando em um deserto seco em busca de um oásis. Mas todo ano, o lençol freático continua diminuindo. Nacionalmente, o uso de água subterrânea quase dobrou desde 1970 e agora representa quase 20% do total da água usada pelo país, segundo Birô de Levantamento Geológico da China.

O Partido Comunista está ciente dos problemas. Está sendo considerada uma nova lei contra a poluição da água que aumentaria enormemente as multas contra poluidores. Diferentes cidades costeiras estão construindo usinas de dessalinização. Empresas multinacionais de tratamento de esgoto estão sendo recrutadas para ajudar a enfrentar este enorme problema.

Muitos cientistas acreditam que enormes ganhos podem ser obtidos por uma melhor eficiência e conservação. No Norte da China, projetos piloto estão a caminho para tentar reduzir o desperdício de água com as plantações de trigo de inverno. Algumas cidades aumentaram o preço da água para promover a conservação, mas ela continua subsidiada na maioria dos lugares. Algumas cidades ao longo da rota do projeto de transferência já estão recuando devido aos preços mais altos planejados. Algumas dizem que simplesmente continuarão bombeando.

ÁGUA CHINESA
Du Bin/The New York Times
Reservatório de Huang Bi Zhuang
PARTE 1
PARTE 2
Mas duras escolhas políticas parecem inevitáveis. Estudos de diferentes cientistas concluíram que o aumento do consumo de água na planície norte da China inviabiliza a continuidade da plantação de inverno. As ramificações internacionais seriam significativas caso a China se torne uma consumidora cada vez maior do mercado mundial de grãos. Alguns analistas há muito alertam que os preços dos grãos podem aumentar de forma constante, contribuindo para a inflação e dificultando para outros países em desenvolvimento comprarem comida.

As implicações sociais também seriam significativas dentro da China. Perto de Shijiazhuang, a aldeia rural de Wang Jingyan depende de poços de 200 metros de profundidade. A não plantação do trigo de inverno representaria um suicídio econômico.

"Nós perderíamos de 60% a 70% de nossa renda caso não plantássemos o trigo de inverno", disse Wang. "Todo mundo aqui planta o trigo de inverno."

Outra proposta de água também é radical: uma rápida e imensa urbanização. Os cientistas dizem que a conversão de terras rurais em áreas urbanas economizaria água suficiente para impedir o declínio do lençol freático, se não revertê-lo, porque a ampla produção rural ainda usa mais água do que as áreas urbanas. É claro, uma urbanização em grande escala, já em andamento, poderia piorar a qualidade do ar; o ar de Shijiazhuang já está entre os piores da China por causa da pesada poluição industrial.

Por ora, a prioridade de Shijiazhuang, como a de outras grande cidades chinesas, é crescer o mais rápido possível. O produto interno bruto da cidade cresceu em média 10% ao ano desde 1980, apesar da disponibilidade de água per capita ser atualmente de apenas 1/33 da média mundial.

"Nós temos escassez de água, mas precisamos nos desenvolver", disse Wang Yongli, um engenheiro sênior do birô de conservação de água da cidade. "E o desenvolvimento será colocado em primeiro lugar."

Wang passou quatro décadas mapeando o declínio constante do aqüífero da planície norte da China. Ele disse que Shijiazhuang tinha mais de 800 poços ilegais e lembrava Israel em termos de escassez de água. "Em Israel, as pessoas consideram a água mais importante que a própria vida", ele disse. "Em Shijiazhuang, não é assim. As pessoas estão concentradas na economia." George El Khouri Andolfato

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