UOL Notícias Internacional
 

29/09/2007

Novos horizontes para a corrida espacial são inspiradores mas incertos

The New York Times
John Schwartz
Cinqüenta anos de vôos espaciais levaram pessoas até a Lua e enviaram veículos não tripulados para os limites do sistema solar. O que os próximos 50 anos poderiam trazer?

Muito mais, ou potencialmente não muito mais. A viagem espacial financiada pelo governo poderá estagnar diante da crescente aversão dos Estados Unidos ao risco e uma espécie de enfado orbital. Afinal, a Nasa tentou por mais de uma década desenvolver veículos substitutos aos falhos ônibus espaciais e está no processo de tentar novamente.

O setor privado está aumentando sua participação, mas o setor ainda é frágil.

Michael D. Griffin, o administrador da Nasa, disse em uma entrevista estar confiante de uma coisa no futuro previsível: "Nós teremos um programa espacial".

Fora isto, nada se sabe.

NASA/AFP - 18.set.2007 
Atores fazem performance durante a apresentação multimídia "Solaris"

"A única coisa da qual estamos certos", escreveu Griffin em um recente ensaio para o site da revista "Aviation Week and Space Technology", "é que se tentarmos prever o mundo de 2057, duas gerações à frente, nós erraremos".

Mas especialistas em governo, indústria e ciência concordam que estas três tendências mais amplas moldarão as próximas décadas no espaço:

-A Nasa embarcou em um programa para retorno à Lua em 2020, não apenas para o que alguns críticos chamam de "bandeiras e pegadas", mas sim para uma presença duradoura, com pesquisa científica e preparação para expedições a asteróides e, eventualmente, a Marte. O programa do ônibus espacial será encerrado em 2010 para a criação da próxima geração de veículos.

-Outros países, notadamente a Rússia e a China, têm planos ambiciosos e poderão estimular uma corrida espacial como a que enviou os americanos à Lua. "Foi necessário o Sputnik para reconhecermos do que a União Soviética era capaz", disse Harrison H. Schmitt, que voou na última missão para a Lua, em 1972. "Eu não sei o que será necessário desta vez."

-O empreendimento privado está dando passos à frente, começando pelo turismo espacial e, posteriormente, serviços de transporte para a Nasa e outros governos até postos avançados como a Estação Espacial Internacional. Além disto, empreendimentos poderiam incluir mineração em asteróides e produção de medicamentos no espaço.

John M. Logsdon, diretor do instituto de política espacial da Universidade George Washington, disse que a grande pergunta ainda precisa ser respondida.

"Na esfera governamental, eu acho que ainda não sabemos por que estamos enviando pessoas para o espaço", disse Logsdon. "É uma pergunta decente e acho que ainda não foi respondida."

Isto deixa o programa espacial tripulado em uma posição precária, ele disse, acrescentando: "Se as atuais propostas para reiniciar a exploração humana fracassarem politicamente, de fato, o esforço de um vôo espacial tripulado sob os auspícios do governo poderá perder seu impulso. Eu obviamente espero que isto não aconteça. Mas está longe de certo que voltaremos à Lua e iremos a Marte."

Empreendedores dizem ter a resposta -dinheiro. Peter Diamandis, um fundador do Ansari X Prize, a competição de US$ 10 milhões para colocar um piloto no espaço sem financiamento do governo, disse que com toda a energia e minérios que podem ser encontrados lá, "os primeiros trilionários surgirão no espaço".

Nos próximos 50 anos, disse Diamandis, "motores econômicos", e não políticos, expandirão a fronteira espacial.

Logsdon está cético. "Há uma série de perspectivas atraentes que estão presentes desde o início dos últimos 50 anos, mas que ainda estão lá como perspectivas atraentes", ele disse. "E ainda não conseguimos saber se podem ser transformadas em realidade ou não." A dependência persistente de foguetes químicos, por exemplo, limita o peso que pode ser levado ao espaço.

Mesmo assim muita coisa mudou nos últimos 50 anos e que poderiam estabelecer as fundações para os próximos 50. Uma nova geração de empreendedores ultra-ricos, que cresceram fascinados pelo espaço, estão investindo suas fortunas pessoais para tornar reais os negócios no espaço.

Paul G. Allen, um fundador da Microsoft, pagou pelo SpaceShipOne, a minúscula nave que conquistou o X Prize em 2004. Elon Musk, um fundador do PayPal, está desenvolvendo foguetes por meio de sua empresa, a Space Exploration Technologies, e conta com financiamento da Nasa, o que poderá fazer com que sua espaçonave venha a transportar pessoas e suprimentos para a Estação Espacial Internacional.

Jeffrey P. Bezos, o fundador da Amazon.com, está desenvolvendo foguetes em uma área de sua propriedade no oeste do Texas.

Robert Bigelow, que fez fortuna em hotéis, está desenvolvendo um sistema de transporte espacial e uma estação espacial que poderia ser usada como um hotel ou base de pesquisa orbital.

A autoridade encarregada da regulamentação de vôos espaciais comerciais, Patricia Grace Smith, da Administração Federal de Aviação, disse em uma entrevista: "Quando olho 50 anos à frente, eu acredito plenamente que haverá espaçoportos de verdade, operacionais", de propriedade privada e com operações comerciais.

No amplo e empoeirado Mojave Air and Space Port na Califórnia, sonhadores e pragmáticos se unem no planejamento do futuro.

Jeff Greason, o fundador da Xcor Aerospace, uma das várias empresas de foguetes de lá, disse que sua indústria está pronta para pensar grande após anos tentando se livrar do ranço da ficção científica. "Nós temos que deixar de nos concentrar no grande e glorioso futuro", ele disse, "porque caso contrário, as pessoas não nos levarão a sério como negócios. Nós conscientemente desligamos o lado visionário".

"Nós estamos obtendo progresso nos negócios reais que dão lucro", ele acrescentou.

Outras empresas já estão no jogo. A vizinha de Greason, a Scaled Composites, está trabalhando no veículo sucessor de seu SpaceShipOne.

A empresa de Richard Branson, a Virgin Galactic, que comprará os veículos, conta com uma longa lista de turistas espaciais potenciais.

Esther Dyson, a guru de tecnologia que está encorajando o investimento no espaço, disse que o desenvolvimento das empresas de foguetes é semelhante aos primórdios da computação pessoal e da Internet. O financiamento inicial do governo criou tecnologias cujo uso era em grande parte restrito ao governo e à academia.

"No final todo este pessoal comercial ingressou e repentinamente toda uma renda surgiu", ela disse. "Ela se beneficiou do pessoal de pesquisa assim como do pessoal comercial. E criou uma infra-estrutura para o público."

Isto levou, por sua vez, aos atuais Google, Netscape, Google Earth, "todas estas coisas maravilhosas que damos por certas".

Greason prevê que o governo assumirá a dianteira na exploração de longa distância, mas que a indústria assumirá as coisas mais próximas de casa. Assim como as forças armadas empregam transporte aéreo privado, ele disse, "os esforços do governo se tornarão clientes dos esforços privados".

Enquanto isso, a Nasa tentará ampliar o alcance da humanidade. Griffin, seu administrador, esboçou um cronograma para as metas estabelecidas pelo presidente Bush em 2004.

Ele vê claramente os marcos ao longo do caminho, o retorno à Lua em 2020, com um "um pequeno posto avançado lunar" poucos anos depois, a caminho de "cidades na Lua". Os primeiros vôos para Marte poderiam ocorrer na década seguinte, ele disse, de forma que no 100º aniversário dos vôos espaciais, em 2057, "nós poderemos estar comemorando o 20º aniversário do primeiro pouso de um ser humano em Marte".

Mas se os Estados Unidos quiseram liderar tal caminho, ele disse, o relógio já está correndo.

"Esta é a última geração de americanos que terá a oportunidade inquestionável de liderar tal empreendimento", disse Griffin. "Porque na próxima geração teremos, pelo menos, a Rússia, China, Índia e Europa com a mesma capacidade que nós. Será uma questão de interesse, política, vontade ou desejo da sociedade. Mas não será uma questão de capacidade."

Independente de quem venha a assumir, os desafios serão maiores do que qualquer um que as nações espaciais já enfrentaram. Eles envolvem níveis de radiação com os quais a ciência ainda não sabe lidar e problemas como a gravidade reduzida e a poeira da Lua, que é ultrafina, quimicamente reagente e altamente abrasiva, tudo isto podendo representar sérios problemas de saúde para os astronautas.

Em uma conferência em junho sobre assentamentos lunares, James S. Logan, um ex-chefe de operações médicas do Centro Espacial Johnson e um fundador da Space Medicine Associates, um grupo de consultoria médica, apontou que as missões anteriores à Lua envolveram apenas um total de 600 horas-homem na superfície, um número que provavelmente será ultrapassado no primeiro retorno à Lua.

Em sua apresentação, Logan apontou que os tempos de exposição anteriores, "apesar de significativos", não forneceram forte evidência de que uma exposição por tempo prolongado é segura.

Em uma conferência de medicina espacial neste ano no Instituto Baker de Política Pública da Universidade Rice, Peggy A. Whitson, uma astronauta que está prestes a iniciar sua segunda estadia a bordo da Estação Espacial Internacional, disse que a radiação continuará sendo um problema.

"Nós temos que aceitar o fato de que se pretendemos explorar", disse Whitson, "nós teremos que aceitar um nível mais elevado de radiação" do que, digamos, a Administração de Saúde e Segurança Ocupacional permite para os trabalhadores do setor nuclear.

Jonathan Clark, um ex-cirurgião de vôo da Nasa que estava presente no painel com Whitson, disse: "Para mim, um nível inaceitável de risco seria uma exposição a radiação que resultaria em efeitos agudos e substanciais sobre o desempenho, seja fatalidade ou declínio cognitivo".

Se os efeitos forem tão debilitantes a ponto da missão fracassar, disse Clark, "não haveria sentido em ir".

Pode haver outros problemas na missão para Marte que os cientistas apenas estão começando a explorar. Na conferência na Rice, Nick Kanas, da Universidade da Califórnia, em San Francisco, um psiquiatra que estudou astronautas, descreveu o que chamou de fenômeno "Terra fora de vista".

A pesquisa de Kanas revelou que uma das partes mais positivas de ir ao espaço é ver a Terra. Mas em uma viagem a Marte, a Terra encolheria a um pontinho azulado.

"Ninguém na história da humanidade estudou como é ver a Terra tão pequena quanto um ponto", ele disse.

Em uma entrevista, Kanas disse que perder o contato visual com o planeta natal poderia ser um "fator estressante singular".

As comunicações desacelerariam acentuadamente, com atrasos de mais de 40 minutos, ele disse. O pronto acesso a telescópios poderosos e acervos de imagens da Terra poderia ajudar, mas seria importante combater tais sentimentos de "isolamento e solidão extremos".

Griffin reconheceu que problemas como a radiação representam graves desafios em cada novo ambiente, mas acrescentou que está confiante de que as proteções serão descobertas, assim como os primeiros marinheiros descobriram que chucrute e limões podiam protegê-los do escorbuto em longas viagens.

E previu que as lições aprendidas sobre o crescimento dos ossos, biologia celular, prevenção de danos e reparos ajudariam a tratar doenças na Terra.

Schmitt, o astronauta da Apollo, concordou. Apesar dos riscos reais de viver no espaço e em outros planetas, ele disse: "Eu não vejo nenhum dissuasor".

Stuart Witt, administrador-geral do Mojave Air and Space Port, vê ainda mais a longo prazo. Em seu escritório, com naves sendo projetadas em prédios vizinhos, Witt lembrou que há cinco séculos, Magalhães partiu da Espanha com cinco navios e 270 homens. Dois anos depois, apenas um navio retornou, com 18 homens.

Ele citou de cabeça uma passagem do livro "A History of Knowledge: Past, Present, and Future" (uma história do conhecimento: passado, presente e futuro, 1991) de Charles Van Doren, apontando que após o navio sobrevivente ter retornado carregado de especiarias valiosas, as expedições subseqüentes "nunca careceram de marinheiros para tripulá-las e de capitães para comandá-las".

"Eles sabiam que o espírito da exploração era muito maior do que qualquer indivíduo", disse Witt.

O argumento repercute em Griffin: "Toda vez que no passado os seres humanos investiram em romper novas fronteiras, o lucro foi nosso".

"Pode ser duro para os exploradores individuais, mas foi muito benéfico para a raça humana -enquanto estamos sentados aqui", ele continuou, gesticulando para seu escritório, Washington e os Estados Unidos, "no que antes era o Novo Mundo".

"Nós perderemos pessoas", ele disse de forma franca, e os riscos devem ser minimizados. Mas explorar está "gravado em nosso DNA".

O anseio de ir além pode de fato estar entranhado nas curvas helicoidais de nossos genes como uma das muitas características comportamentais que agora são associadas a predisposições genéticas, disse Jeffrey M. Friedman, diretor do Centro Starr para Genética Humana da Universidade Rockefeller.

Se permitindo um pouco de especulação por insistência do repórter, Friedman disse que "é muito plausível sugerir" que pode haver um anseio primário de explorar e correr riscos.

"E há alguma evidência direta disto na história das migrações humanas", ele acrescentou. Em qualquer população, haveria um espectro de características, desde permanecer em casa até explorar, com ambos os extremos do espectro prosperando em algumas circunstâncias e sofrendo em outras.

O futuro detém promessa e risco, como qualquer visitante no Mojave pode ver. Na Scaled Composites, uma explosão no mês passado matou três funcionários. O acidente envolveu o óxido nitroso que a Scaled Composites usa como propelente, mesmo que nenhum teste de foguete estivesse sendo realizado no momento. O acidente está sendo investigado.

Enquanto isso, a empresa continua a desenvolver sua próxima nave e a Virgin Galactic disse que nenhum cliente cancelou. Quando perguntado sobre se o acidente o fez hesitar, James Lovelock, o cientista e autor britânico de 88 anos, disse: "Eu não tenho nenhum receio". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,38
    3,156
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,41
    65.277,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host