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29/09/2007

Taiwan estaria desenvolvendo mísseis capazes de atingir alvos na China

The New York Times
David Lague
Em Taipei
Deparando-se com um crescimento do arsenal militar da China, Taiwan, que fica bem atrás do enorme país vizinho em termos de poder de fogo, está implementando discretamente planos para o desenvolvimento de mísseis capazes de atingir o continente, de acordo especialistas em defesa e segurança.

Segundo analistas militares, nos últimos meses Taiwan testou um míssil de cruzeiro terra-terra, com um alcance de 1.000 quilômetros, capaz de lançar ogivas de 400 quilos contra alvos tão distantes como Xangai.

Alguns especialistas militares taiwaneses argumentam há décadas que Taiwan deveria desenvolver armas ofensivas, incluindo mísseis, como elemento de dissuasão contra a China continental, que ameaçou atacar esta ilha que tem governo próprio, caso Taipei tente declarar formalmente a sua independência. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos estima que a China conte com 900 mísseis apontados para Taiwan.

Atualmente as forças armadas de Taiwan não possuem nenhum míssil de longo alcance capaz de ser utilizado para atacar alvos distantes na China continental.

Militares de alta patente e parlamentares do governista Partido Progressivo Democrático do presidente Chen Shui-bian confirmaram que os mísseis de cruzeiro de ataque terra-terra estão sendo desenvolvidos.

Eles afirmaram que tais mísseis são essenciais para a defesa de Taiwan porque os investimentos chineses em armas estão desequilibrando a balança militar em favor da China.

"Eles querem fazer com que a China hesite antes de lançar qualquer ataque", afirma Andrei Chang, de Hong Kong, especialista nas forças armadas chinesas e taiwanesas e editor da revista "Kanwa Defense Review". "Esses mísseis são capazes de destruir não apenas alvos militares, mas também econômicos. Os taiwaneses querem criar pânico maciço".

Há relatos não confirmados em Taiwan de que as forças armadas estão desenvolvendo mísseis balísticos de curto alcance.

O governo de Chen, favorável à independência taiwanesa, se recusa a tecer comentários sobre a existência de um programa de mísseis balísticos.

O governo Bush indicou que se opõe a qualquer iniciativa de Taiwan para desenvolver armas ofensivas, incluindo mísseis.

Em um momento no qual Taipei enfurece a China com uma decisão de fazer um referendo sobre a proposta da ilha de reingressar na Organização das Nações Unidas (ONU) com o nome de Taiwan (o nome oficial do país é República da China), a instalação de mísseis capazes de atingir o continente poderia fazer com que as tensões aumentassem ainda mais.

Em setembro houve relatos na mídia Taiwanesa de que o governo Chen, pressionado por Washington, teria abandonado os seus planos de instalar mísseis terra-terra na ilha de Matsu, pertencente a Taiwan, e que fica próxima à costa da província chinesa de Fujian.

Mísseis instalados em Matsu seriam capazes de atingir alvos no continente nos quais a China concentrou o seu arsenal de aeronaves, mísseis e tropas terrestres hostis à Taiwan.

As forças armadas de Taiwan recusaram-se a fazer comentários sobre o assunto, mas nesta semana Pequim reagiu com intensidade a esses relatos. "Nós advertimos enfaticamente as autoridades de Taiwan que não brinquem com fogo", disse Li Weiyi, um porta-voz do Departamento de Questões de Taiwan do Conselho de Estado da China, durante uma entrevista à imprensa na última quarta-feira, de acordo com uma reportagem publicada pela agência de notícias Xinhua. "Quem brinca com fogo acaba se queimando".

Mas os analistas acreditam que será difícil para o governo Bush conter as iniciativas de Taipei enquanto a China continuar aumentando um arsenal de mísseis que poderia ser usado para atacar alvos militares e complexos de infra-estrutura vitais em Taiwan.

As forças armadas norte-americanas e taiwanesas calculam que a China acrescenta anualmente cem novos mísseis ao seu arsenal voltado para a ilha.

"Taiwan prosseguirá com o seu projeto", garante Andrew Yang, secretário-geral do Conselho Chinês de Estudos Políticos Avançados, um instituto de segurança política com sede em Taipei. "O governo taiwanês indica que a ilha não ficará esperando sentada por um ataque de Pequim contra Taiwan".

Chang e outros especialistas acreditam que o míssil de cruzeiro terra-terra Hsiung Feng-2E, desenvolvido pelo Instituto Chungshan de Ciência e Tecnologia, pertencente às forças armadas de Taiwan, poderá ser produzido em breve. "Tenho certeza de que ele está quase pronto", diz Chang.

Em março, o jornal "Defense News", de Washington, anunciou que esse míssil foi testado em 2 de fevereiro deste ano na base de testes de Jiupeng, no condado de Pingtung, na costa sudeste de Taiwan. De acordo com o jornal, o ministro da Defesa de Taiwan confirmou o teste, sem fornecer maiores detalhes.

Analistas do setor de defesa observam que Taiwan admitiu publicamente pela primeira vez neste ano que mísseis ofensivos são agora parte do seu plano de resposta a um ataque lançado pela China.

Na primeira fase das suas manobras anuais de treinamento Han Kuang, em abril último, as forças armadas de Taiwan realizaram uma simulação por computador de um confronto com a China, no qual mísseis virtuais foram disparados contra alvos militares no continente.

Uma delegação dos Estados Unidos, da qual fazia parte o ex-comandante das forças norte-americanas no Pacífico, Almirante Dennis Blair, observou o exercício, segundo informaram analistas de defesa taiwaneses.

Após as manobras, o governo Bush pediu a Taipei que evite desestabilizar o Estreito de Taiwan, e que se concentre em armamentos defensivos.

"Acreditamos que uma capacidade ofensiva de qualquer dos lados do Estreito de Taiwan é um fator de desestabilização e, portanto, prejudica a paz e a estabilidade", afirmou Dennis Wilder, diretor de Questões do Leste Asiático do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

O ministro da Defesa de Taiwan negou que os mísseis que estão sendo desenvolvidos sejam armas ofensivas. Ele disse que caso se decida instalar esses artefatos, eles só seriam usados se a ilha fosse atacada.

"O nosso país não faria provocações", assegurou o ministro em uma declaração pública. "Nós só retaliaríamos de fato caso sofrêssemos um ataque inimigo".

Yang, do Conselho de Estudos Políticos Avançados, diz que a decisão de Taiwan de desenvolver mísseis de maior alcance faz parte de uma reavaliação estratégica do método mais eficaz de conter o poder de fogo das forças terrestres, aéreas e navais da China, que ficam a cada dia mais fortes.

De acordo com Yang, os Estados Unidos e outras potências não se dispuseram a fornecer esse tipo de armamento a Taiwan, de forma que a ilha não teve escolha, a não ser desenvolvê-lo por conta própria.

Equipes de pesquisa e desenvolvimento das forças armadas de Taiwan continuaram aprimorando o alcance, a carga útil e os sistema de direcionamento dos mísseis de cruzeiro para ataque a navios, a tal ponto que estes poderiam ser usados contra alvos militares costeiros no continente.

Yang diz que alguns dos relatos a respeito da capacidade desses novos mísseis de cruzeiro podem ser exagerados.

Segundo ele, os mísseis só foram testados em distâncias de cerca de 300 quilômetros, o que só seria suficiente para alcançar alvos litorâneos no continente.

Mas existe um potencial para aprimoramento dessas armas à medida que prosseguem os trabalhos para desenvolvê-las.

"Em cinco anos este raio de ação poderá aumentar", afirma Yang.

A maioria dos especialistas em forças armadas diz ser improvável que os mísseis de cruzeiro taiwaneses tenham um impacto drástico sobre o equilíbrio militar no Estreito de Taiwan, tendo em vista a velocidade e a magnitude da modernização do arsenal bélico da China.

Mas tais mísseis permitiriam que Taiwan atingisse importantes alvos militares, incluindo pistas de pouso, instalações para lançamento de mísseis, bases militares, centros logísticos e depósitos de combustíveis.

Além de atrapalhar as operações militares da China, tais ataques poderiam constituir-se em um golpe psicológico sobre a população chinesa e minar o apoio público a um ataque contra Taiwan.

Embora os Estados Unidos continuem se opondo aos planos taiwaneses de fabricação de mísseis ofensivos, o Pentágono anunciou neste mês que está se preparando para vender a Taiwan 12 aeronaves anti-submarino P-3C Orion e mísseis terra-ar, como parte de um acordo de venda de armas no valor de US$ 2,2 bilhões.

Isso é bem menos do que o pacote de armamentos no valor de US$ 18 bilhões, incluindo os aviões P-3C, submarinos convencionais e baterias anti-mísseis PAC-3, do qual Taiwan necessitaria para aprimorar as suas defesas, segundo afirmou em 2001 o governo Bush.

O Kuomintang, o principal partido oposicionista de Taiwan, tem bloqueado seguidamente as tentativas do governo Chen de aprovar o orçamento para a aquisição do pacote bélico integral, mas um investimento parcial foi aprovado em junho último.

Na semana passada Pequim solicitou aos Estados Unidos que cancelassem as vendas e cortassem os vínculos militares com Taiwan. UOL

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