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30/09/2007

Amor moderno: meus três anos como filha adorada

The New York Times
Por Erin Brown
Quando fiz 29 anos, meus pais me telefonaram de Boise para dar os parabéns, mas logo depois começaram a contar sobre os incêndios em Idaho, os piores que tinham visto em muitos anos. Suas vozes pareciam mais fracas, devido à distância, e eu sabia que eles tinham coisas mais importantes na cabeça do que o aniversário de sua filha adulta.

David Chelsea/The New York Times 

Depois do clique solitário do telefone, pensei em minha outra família, os pais que não iriam telefonar. Os pais que acreditavam que nenhuma filha é velha demais para ter uma festa de aniversário, com bolo e tiara de princesa.

Durante três anos, quando eu morava em Nova York, os pais da minha melhor amiga me amaram. Eles me amaram porque amavam muito sua filha, uma devoção que testemunhei no Dia de Ação de Graças, na Páscoa, nos jantares de formatura e aniversário -as ocasiões em que eu deixava a cidade com minha amiga para visitá-los.

Houve até um ano em que fiquei presa na cidade na véspera de Natal, fazendo plantão como garçonete. No dia seguinte, sentindo-me urbana, calejada e corajosa, peguei um trem de subúrbio no Terminal Grand Central em Manhattan e rumei para Westport, Connecticut, para a casa que eu sentia como se quase fosse minha.

Eu tinha preparado uma sacola adequada, cheia de presentes bem embrulhados: um porta-retrato de uma loja em Park Slope, Brooklyn, livros de Barbara Ehrenreich e Paul Bowles, brincos de prata da feirinha no Bryant Park em Manhattan e uma garrafa de Châteauneuf-du-Pape.

Eu sabia que eles iam dizer que era demais, que eu não precisava ter feito isso, realmente, mas também sabia que eles teriam presentes para mim. Além disso, eu estava agradecida pelo convite, agradecida por ser envolvida mais uma vez pela manta protetora desse amor familiar.

E como eles amam sua filha! Ao tentar explicar a força desse relacionamento para minhas outras amigas, eu ficava perdida, como se tivesse de captar em poucas palavras as maravilhas do Grand Canyon ou das florestas tropicais da Costa Rica.

"Vocês não entendem", eu dizia, arregalando os olhos e balançando a cabeça. "Eles simplesmente a amam!"

Era uma família de abundância: de amor, inteligência, ambição, comida. Coquetel de camarão, drinques em taças de martini de pé alto, queijo de cabra com groselhas, filé mignon, abricós com molho de chocolate, margaritas, vinho, porto. Eu comia até meus olhos ficarem vidrados.

Tinha certeza de que nem meu casamento seria comparável ao luxo de fazer uma refeição festiva com minha família da costa leste. O prazer era sempre um prato principal naquela mesa, e eu devorava avidamente a felicidade natural que eles sentiam por estarem juntos.

Havia nessa família uma intensa lealdade que eu nunca tinha encontrado. Acho que devia ter algo a ver com férias no Havaí, ir juntos aos jogos de futebol -tudo o que minha infância não teve.

O pai de minha amiga se interessava muito por sua carreira. Sempre que ela falava sobre suas dificuldades no escritório, ele escutava com atenção e inevitavelmente ficava do seu lado. Podíamos ver o sangue ferver, e temíamos que ele fizesse telefonemas para defendê-la.
Sua mãe era menos direta. Ela simplesmente ficava de luto pelas pessoas que prejudicavam sua filha -como um reconhecimento cerimonial de que aquela pessoa deixara de existir.

"Para mim morreu", dizia, sempre que o nome de um ex-namorado surgia na conversa. "Não conheço ninguém com esse nome."

Eu secretamente esperava que um ex-namorado meu fosse alvo de sua ira.

Em toda família há certos papéis a serem cumpridos, e o meu era o de oferecer uma espécie de comicidade autodepreciativa. Eu divertia a mesa com histórias do Peace Corps, nas quais eu era a estrela e durante as quais muitas vezes me via abanando os braços ou apontando de modo ridículo para minha cabeça.

E, meu Deus, como eles riam! Tenho certeza de que minha necessidade desesperada de ser adorada, minha grande vulnerabilidade, não passava despercebida para os pais de minha amiga. Eu tinha piadas da África, tinha piadas do bar... e eles riam, e me amavam por isso. Adoravam o fato de eu ser uma garçonete, possivelmente porque isso significa que sua filha não era.

Opostos como o leste e o oeste
Não se enganem: meus próprios pais me amavam. Mas seu amor se manifestava de maneiras que eu comecei a ver como sinal de uma divisão leste-oeste. Quando saí de casa, foi como se meus pais tivessem me mandado em uma carroça de pioneiros para conseguir meu próprio terreno no vale. Eles achavam que tudo de que eu precisava já estava na carroça.

Respeitavam minha autonomia, achavam que ser garçonete era uma aventura quase tão válida quanto o Peace Corps e acreditavam que era melhor ser medianamente pobre com muito tempo livre e a promessa de boas coisas do que estar bem empregada e decepcionada.

Eles mandavam dinheiro para preencher buracos ocasionais em meu orçamento, mas não me enchiam de presentes e elogios e não se preocupavam comigo. O tempo da preocupação tinha passado. Minha independência era algo pelo qual eu lutara durante todo o período do colégio, e finalmente a conquistara através da idade e da distância, mas não me conformava com a fé silenciosa de meus pais em minha capacidade.

O amor de minha família da costa leste era palpável. Era bons vinhos e creme chantilly, cachecóis de tricô e álbuns de fotos. Eu invejava a preocupação e a adulação que eles dedicavam a sua filha. Queria um pouco para mim. Quando entrei na faculdade, eu liguei para minha família do oeste, mas minha família do leste ligou para mim. Estavam muito orgulhosos, e disseram isso: "Estamos tão orgulhosos!" Pensei que eu poderia continuar um membro da minha família da costa leste para sempre.

Mas as famílias muitas vezes se separam, até as mais atraentes, e a minha não foi diferente. Minha amiga e eu muitas vezes brincávamos sobre as características conflitantes de nossas personalidades, como se as diferenças entre nós livrassem a amizade das pequenas brigas que outras amigas costumam ter. Talvez soubéssemos o tempo todo que nunca poderia haver uma pequena briga entre nós, só uma grande.

E afinal aconteceu. Tivemos nossa grande briga. Discutimos até chegar ao muro do pedido de desculpas, e nenhuma das duas conseguiu subir nele. Acho que ambas ficamos surpresas ao ver como nossa amizade era tênue, na verdade. Palavras amargas, toda a mágoa que um relacionamento íntimo demais pode gerar, telefones desligados, e assim se passaram três meses.

Aquém do muro
O Dia de Ação de Graças chegou sem uma palavra de minha amiga ou de seus pais. Perdida na costa leste, fui a anfitriã do meu jantar e convidei todas as almas desgarradas que conhecia. Fingi não estar esperando a ligação, mas carreguei o telefone no bolso do avental enquanto preparava purê de batatas suficiente para todos os meninos de rua de um romance de Dickens.

Mas no Natal... com certeza eles iriam me procurar no Natal. Eu sabia que minha amiga não ligaria, provavelmente nunca mais. O que eu queria era ser procurada por seus pais. Queria que me perdoassem pela minha parte no fim da amizade, que me dissessem que ainda era deles, apesar de não poderem me convidar.

Eu queria ser embalada em seu amor, o mesmo amor incondicional que eles reservavam para seus filhos. Seria desejar demais? Eu sabia que meus pais verdadeiros não julgariam uma amiga que rompesse comigo, mas também sabia que eles prestavam menos atenção nos meus relacionamentos, eram menos envolvidos emocionalmente nos detalhes da minha vida.

Os pais da minha amiga sabiam o nome de todos os seus amigos desde o jardim-de-infância. Sabiam os nomes das garotas que a desprezaram na sexta série, e às vezes evitavam deliberadamente os pais delas em jantares e feiras agrícolas.

Meus pais eram mais democráticos em relação aos dramas da vida. Quando havia uma rixa, eles tinham certeza de que eu havia feito minha parte para causá-la, e sempre que eu contava sobre uma discussão balançavam a cabeça e levantavam as sobrancelhas. "E por que você acha que ela está se sentindo desse jeito?", perguntavam.

Não era o tipo de apoio que eu procurava.

De certo modo, porém, era o que eu queria que os pais de minha amiga dessem a ela. Eu havia desprezado o temperamento comedido da minha família, pensando que indicasse uma falta de interesse ou de sentimento.

Agora queria que meus pais da costa leste assumissem alguns aspectos da enervante imparcialidade dos meus pais do oeste: buscar equilíbrio, ver a coisa do meu ponto de vista. Eu me sentia como uma filha choramingona, puxando suas mangas: "A culpa não é só minha! A culpa não é só minha!"

Quando uma amizade termina, você começa a medir o tempo pelo que sua amiga perdeu. Nos dois anos que se passaram, eu terminei com alguns namorados, fui assaltada sob ponta de faca, minha irmã se casou. Escrevi um romance que não foi publicado, depois mais um.

Através de todas as mudanças que ocorrem em alguns anos, sejam monumentais ou ridículas, senti falta da minha amiga. Senti falta de seu sarcasmo, de sua perspicácia. De sua mãe e seu pai. Ah, como eles teriam se preocupado comigo! Como teriam rido das minhas histórias! Como teriam compreendido minhas frustrações, dando-me batatas e tortas para aliviar minha fossa sentimental, expressando indignação diante dos bilhetes de recusa que se empilhavam ao lado do meu computador.

Sem a lealdade mafiosa da minha família do leste, minhas conquistas pareciam menos brilhantes, minhas decepções mais terríveis.

Pensei em lhes mandar um cartão: "Vocês estão de luto por mim?"

Mas temi que eles não achassem graça. Temi que não respondessem. Imaginava os jantares, as bandejas de canapés circulando. Imaginava alguém citando meu nome à mesa. Podia ver a mãe de minha amiga parar de mastigar e estreitar os olhos, balançando um dedo: não nesta casa.

Era demais; nunca escrevi. Afinal, percebi que eu adorava os pais de minha amiga exatamente pelo motivo de seu silêncio: porque amavam sua filha tão intensamente, ativamente, inabalavelmente. Tinham um núcleo de amor reluzente e glorioso, com limites precisamente definidos.

E eu tinha saído desses limites. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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