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30/09/2007

Movimento russo rejeita os Estados Unidos, não o Bronx

The New York Times
De Paul Lauener

Em Moscou
Em uma rua fechada no coração desta cidade, Aleksandr Pushkin, o grande poeta russo do século 19, assistia algo incomum diante de seus olhos esculpidos. Não centenas de soldados e policiais marchando, algo que ele já viu antes. Nem milhares de moscovitas carregando balões e bandeiras para celebrar o 860º aniversário da fundação da capital. Não. Era Sergey Bokov girando agressivamente sobre suas mãos, cabeça e costas ao ritmo de James Brown, em uma mistura de acrobacia e dança hip-hop.

Sergei Kivrin/The New York Times 
Sergey Bokov, 23, b-boy moscovita: 'acho que é a primeira vez em que a maioria viu o break

Quando Bokov, que usa violência simulada em suas rotinas de dança, foi declarado vencedor na batalha com um oponente, uma confusão tomou o palco. Os que assistiam pareciam um pouco confusos, aplaudindo apenas educadamente a apresentação. "Eu acho que esta é a primeira vez que a maioria na platéia viu uma dança break", disse Bokov, 23 anos, ao recolocar seu boné depois do show.

O sentimento antiamericano pode ser grande na política russa no momento, um tema vencedor para os líderes do país, mas a adoção popular da cultura ocidental está em alta, incluindo uma comunidade de discípulos fervorosos do movimento hip-hop e da dança break, que vivem, dormem e comem a dança break, ou vida de 'b-boy' (diminutivo de break boy, o dançarino de break).

"É como ganho dinheiro, como descanso, como danço", disse Abdul Anasov, 23 anos, um membro do grupo de dança Mafia 13, que ensina break. "É realmente minha vida."

De suas raízes no Bronx nos anos 70, o estilo de dança conquistou convertidos passionais da Coréia do Sul até a Alemanha, que se apresentam e competem uns contra os outros com movimentos e trajes de hip-hop que ganhariam respeito em Nova York no início dos anos 80. Um dos maiores eventos de dança break, a Batalha do Ano, ocorre em Braunschweig, Alemanha.

Mas a Rússia é um caso especial. Os poucos e passionais seguidores do break parecem emblemáticos da divisão entre a retórica anti-Ocidente dos líderes e o apetite cultural de muitos russos comuns, especialmente os mais jovens. "A política não nos influencia nem um pouco", disse Vadim Toporenok, 23 anos, que também é membro do Mafia 13.

Toporenok desistiu de uma carreira como chef treinado para apresentar e ensinar dança break. "Nós somos pessoas livres, nosso estilo é livre e podemos nos comunicar com os espanhóis, alemães, ingleses e americanos", ele disse.

Yegor Sheremetyev, que abriu a escola de dança onde Toporenok trabalha desde que tinha 17 anos, concordou. "O break não tem nada a ver com política", ele disse. "Não deixamos de gostar só porque veio da América. Os jovens são livres disso tudo."

Mas Sheremetyev reconheceu que aprendeu a dançar break para impressionar as garotas.

A adoção ambivalente do Ocidente pela Rússia ocorre há séculos. Mark Steinberg, um professor de história russa e editor da "Slavic Review", uma revista de Champaign, Illinois (EUA), lembrou que as festas luxuosas dadas por Pedro o Grande, a corte do czar se vestia com a mais recente moda francesa.

"Não é exatamente o mesmo com a dança break", disse Steinberg, "mas é a mesma noção de 'nós podemos adaptar qualquer coisa que exista no Ocidente, nós podemos torná-la parte nossa'".

Os b-boys russos são claros sobre as raízes da dança break. "Ela chegou da América", disse Maksim Pavlenko, 29 anos, um gerente de produto de uma empresa de aditivos alimentares. "Mas desenvolvemos nossa própria linha, nossa própria direção, separadamente, mas exatamente no estilo do hip-hop, do break e do funk."

Quando muitas pessoas pensam na dança tradicional russa, elas vêem as danças de cossacos agachados de braços cruzados, um tipo de 'can-can' próximo do chão, que representa a ligação estreita dos russos com a terra. Isto ainda pode ser visto na forma como alguns dançarinos se apresentam.

"Há esta espiritualidade particular ligada à terra, ao céu e às árvores", disse Steinberg. "É possível ver isto nas religiões tradicionais das aldeias russas, que nunca desapareceram."

Assim como nos Estados Unidos, as cidades russas estão cheias de jovens vestidos em jeans largos, lenços de cabeça e camisetas. Muitos extraem suas influências -e aprendem o básico da dança break- da mesma forma que muitos jovens americanos: de vídeos de hip-hop na MTV. Mas também há uma velha escola de break russo que de alguma forma conseguiu se interessar na era soviética, quando a música rap e a dança break eram proibidas como representações da cultura ocidental.

"Eu vi um documentário de propaganda da União Soviética sobre a 'vida ruim' nos Estados Unidos", lembrou Dima Morovkin, 38 anos, conhecidos como Master Crab, que aprendeu seus movimentos nos anos 80. "Havia um pequeno trecho onde garotos negros estavam dançando nas ruas, e o documentário dizia que grandes gângsteres americanos os faziam dançar para ganhar dinheiro", ele acrescentou rindo.

Morovkin não acreditou no que o documentário disse, mas acreditou em seus olhos: uma dança cheia de energia e rebeldia.

"A dança break é como um espírito de liberdade, de auto-expressão, uma forma de ser único que não era apreciada pela União Soviética", ele disse. "Toda vez que dançávamos na rua, a polícia soviética vinha e nos dizia para parar, nos acusando de propaganda anti-soviética. Aquilo era uma grande inspiração para nós continuarmos fazendo."

Em meados dos anos 80, milhares de pessoas tinham aprendido alguns poucos movimentos simples. Em festas e discotecas, as pessoas se enfileiravam para todos realizarem o mesmo movimento em clássicos rap do Rock Steady Crew. Mas eles logo se cansaram da moda. Houve "festas de despedida b-boy" um ano depois, nas quais os dançarinos queimavam sua parafernália.

Aquela primeira geração desfrutou de uma fantasia coletiva baseada em poucos filmes e vídeos. "Nós todos falávamos como as pessoas nos filmes", disse Morovkin. "Nós todos fazíamos as mesmas coisas. Nos vestíamos da mesma forma. Agora é tudo diferente. Somos um país aberto, podemos ver o que está acontecendo no exterior e não temos as ilusões que tínhamos nos tempos soviéticos."

Ainda assim, ele soou melancólico sobre aquela era anterior. "Para a velha escolha, é quase triste assistir ao que está acontecendo com o break agora", ele disse, "porque o conto de fadas se perdeu". George El Khouri Andolfato

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