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02/10/2007

Derretimento amplo e rápido da calota polar do Ártico assusta os cientistas

The New York Times
Andrew C. Revkin
A camada de gelo que cobre o Ártico diminuiu tanto neste verão que as ondas por um breve período marulharam ao longo de duas rotas navais árticas que durante muito tempo existiram apenas na imaginação dos navegadores, a Passagem do Noroeste, no Canadá, e a Rota do Mar do Norte, na Rússia.

De maneira geral, o gelo flutuante sofreu uma redução sem precedentes em um século ou mais, segundo várias estimativas.

Agora o período de seis meses de escuridão retornou ao Pólo Norte. No frio cada vez mais intenso, o novo gelo já está se formando sobre vastas áreas do Oceano Ártico. Perplexos com as mudanças presenciadas no verão, os cientistas estão estudando as forças que transformaram uma área 2,6 milhões de quilômetros quadrados superior à média da banquisa (banco de gelo) ártica em mar aberto - o equivalente a seis Estados da Califórnia (ou a aproximadamente 10,5 Estados de São Paulo) -, na primeira vez que se registra este fenômeno desde que satélites começaram a fazer tais medições em 1979.

U.S. Fish and Wildlife Service/The New York Times 
Urso polar se alimenta em região costeira do Alasca

Em uma recente reunião de especialistas em gelo marinho na Universidade do Alasca em Fairbanks, o geofísico Hajo Eicken resumiu a situação da seguinte forma: "O nosso estoque de reserva parece estar desaparecendo".

Os cientistas também andam nervosos com as conseqüências do verão nos anos vindouros, e com a capacidade da comunidade de pesquisas de prever essas conseqüências.

Para complicar o cenário, a drástica mudança ártica foi resultado tanto da movimentação do gelo quanto do derretimento, segundo a opinião de vários especialistas. Um novo estudo, liderado por Son Nghiem, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, e que foi publicado nesta semana no periódico científico "Geophysical Research Letters", utilizou satélites e bóias para revelar que desde 2000 os ventos empurraram grandes quantidades de gelo antigo e espesso da região ártica central para além da Groenlândia. Segundo os autores do trabalho, os blocos finos que se formaram no mar aberto resultante derreteram-se com maior rapidez, ou puderam ser empilhados pelos ventos e expelidos da região de forma similar.

O ritmo da mudança excedeu em muito aquilo que era esperado com base em quase todas as simulações usadas para determinar de que maneira o Ártico responderá às concentrações crescentes de gases causadores do efeito estufa vinculados ao aquecimento global. Mas isso pode ser interpretado de duas formas. Os modelos são demasiadamente conservadores? Ou eles estão desprezando influências naturais que podem causar amplas oscilações na quantidade de gelo e na temperatura, minimizando portanto a importância do lento aquecimento subjacente?

O mundo está prestando mais atenção do que nunca a essas questões.

A Rússia, o Canadá e a Dinamarca, motivados em parte por anos de aquecimento e pelo encolhimento da banquisa ártica deste ano, intensificaram a retórica e as ações no sentido de garantir a posse de rotas marítimas e das riquezas do fundo do mar.

Os defensores da redução das emissões de gases de efeito estufa citam o derretimento da banquisa como prova de que as atividades humanas estão provocando um fenômeno que conduzirá a uma calamidade global.

Porém, os especialistas no Ártico dizem que as coisas não são assim tão simples. Mais de uma dúzia de especialistas disseram em entrevistas que a redução extrema da calota polar revelou a existência de pelo menos tantos fatos que continuam sendo um mistério em relação ao Ártico quanto outros que podem ser explicados. Mesmo assim, muitos desses cientistas dizem que estão se convencendo de que o sistema está se deslocando rumo a um estado novo e mais aquoso, e que o aquecimento global causado pelos humanos está desempenhando um grande papel nisso tudo.

Os especialistas estão tendo dificuldades em descobrir quaisquer registros da Rússia, do Alasca ou de outras regiões que indiquem uma retração tão generalizada do gelo ártico nas eras recentes, algo que fortalece a hipótese de que os seres humanos podem ter desequilibrado a balança climática. Muitos cientistas afirmam que o último aquecimento substancial registrado na região, que alcançou o seu apogeu na década de 1930, afetou principalmente as áreas próximas à Groenlândia e à Escandinávia.

Alguns cientistas que há muito duvidavam de que uma influência humana pudesse ser nitidamente discernida na alteração climática no Ártico agora concordam que é difícil atribuir esse fenômeno a qualquer outro fator.

"Costumávamos argumentar que grande parte da variação ocorrida até o final da década de 1990 foi induzida por mudanças nos ventos, alterações naturais que não estão obviamente relacionadas ao aquecimento global", explica John Michael Wallace, cientista da Universidade de Washington. "Mas as alterações nos últimos anos nos fazem questionar tal explicação. Estou muito mais aberto à idéia de que podemos ter ultrapassado um ponto a partir do qual as mudanças tornam-se essencialmente irreversíveis".

Os especialistas afirmam que a redução da calota polar deverá ser ainda maior no próximo verão, já que o congelamento neste inverno está iniciando-se com um enorme déficit de gelo. Pelo menos um pesquisador, Wieslaw Maslowski, da Escola de Pós-graduação Naval em Monterey, na Califórnia, acredita que, a partir de 2013, o planeta terá um Oceano Ártico completamente azul.

Basicamente, as águas árticas podem estar se comportando de maneira semelhante àquelas em torno da Antártica, onde uma vasta calota de gelo marítimo forma-se a cada inverno austral, para quase desaparecer no verão (em um reflexo das diferenças de geografia e dinâmica nos dois pólos, houve um ligeiro aumento da área de gelo marinho em torno da Antártica nas últimas décadas).

Embora águas desimpedidas no Ártico possam significar um boom para a navegação, a pesca e a exploração de petróleo, uma oscilação anual drástica entre períodos com e sem gelo pode ser um golpe particularmente duro para os ursos polares.

Muitos cientistas especializados no Ártico alertam que ainda é muito cedo para começar a mandar navios porta-contêineres para o topo do mundo. "Variações naturais poderiam passar por uma reversão, e contrabalançar a mudança provocada pelos gases causadores de efeito estufa, talvez até estabilizando o gelo por algum tempo", afirma Marika Holland, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, em Boulder, no Colorado.

Mas ela acrescenta que tal fenômeno não seria duradouro. "Cedo ou tarde as variações naturais reforçariam novamente a mudança provocada pelos seres humanos, talvez levando a uma retração ainda mais rápida da banquisa", opina Holland. "Assim, eu não assinaria nenhum contrato de navegação para a região para os próximos cinco ou dez anos. Mas talvez ou fizesse para as próximas duas ou três décadas".

Embora os especialistas discordem quanto aos detalhes, muitos deles concordam que o desaparecimento do gelo marinho neste ano foi provavelmente causado por forças conjugadas, tais como a presença na atmosfera de vapor d'água e nuvens que aprisionam o calor e a influência dos céus ensolarados de junho e julho no aquecimento do oceano. Outros fatores importantes foram os ventos quentes que se deslocaram da Sibéria em torno de um sistema de alta pressão atmosférica estacionado sobre o oceano. Os ventos não só teriam derretido o gelo fino, mas também empurraram blocos de gelo para o mar aberto, onde as correntes marinhas e os ventos puderam empurrá-los para fora do Oceano Ártico.

Mas provavelmente houve a influência de um outro fator, que remonta a aproximadamente 1989. Naquela época, um alteração periódica nos padrões de ventos e pressão atmosférica sobre o Oceano Ártico, denominada Oscilação Ártica, firmou-se em um padrão cuja tendência foi impedir que durante anos o gelo seguisse um movimento circular, de forma que a banquisa ficasse mais espessa, e em vez disso possibilitou que os blocos de gelo deslocassem-se para o Atlântico Norte.

"O novo estudo da Nasa sobre os antigos blocos de gelo empurrados para fora do Ártico se baseia em medições prévias que demonstraram que a proporção de blocos espessos e duráveis de pelo menos dez anos de idade diminuiu de 80% na primavera de 1987 para apenas 2% na primavera deste ano", afirma Ignatius G. Rigor, especialista em gelo da Universidade de Washington e autor do novo estudo liderado pela Nasa.

Sem a grossa camada de gelo, capaz de resistir a meses de sol contínuo de verão, uma maior área de mar aberto, que é mais escuro, e de gelo fino, absorve energia solar, contribuindo para o derretimento e atrasando o congelamento de inverno.

O gelo mais fino e recém-formado é também mais vulnerável ao derretimento provocado pelo calor mantido próximo à superfície do oceano por nuvens e vapor d'água. Talvez seja aí que a influência crescente dos seres humanos sobre o sistema climático global possa estar exercendo a maior influência regional, segundo Jennifer A. Francis, da Universidade Rutgers.

Outros especialistas no Ártico, incluindo Maslowski, de Monterey, e Igor V. Polyakov, da Universidade do Alasca em Fairbanks, também acreditam na influência do aumento de fluxos de água mais quente que penetram no Oceano Ártico através do Estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, e das correntes profundas que correm para o norte, vindas do Oceano Atlântico, nas proximidades da Escandinávia.

Uma legião de cientistas especializados no Ártico afirma que é muito cedo para saber se o efeito do aquecimento global já colocou o sistema em uma condição na qual o gelo marinho, durante os verões, ficará rotineiramente limitado a algumas poucas rotas fechadas no norte do Canadá.

Mas na universidade em Fairbanks - onde os sinais do aquecimento no norte incluem crateras formadas pelo derretimento da permafrost (camada de terra congelada) em torno do centro de pesquisa do Ártico, pertencente à instituição -, Eicken e outros especialistas estão tendo dificuldades em identificar uma situação capaz de reverter essa tendência.

"Pode até ser que o Ártico conte com um outro trunfo escondido para ajudar o gelo a retornar", diz Eicken. "Mas, com base em tudo o que conhecemos neste momento, os meios capazes de possibilitar o retorno do gelo são bastante limitados". UOL

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