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02/10/2007

Fazendas de café 'fair trade' lucram com a demanda

The New York Times
Andrew Downie

Em Varginha
Rafael de Paiva a princípio estava cético. Se ele quisesse um certificado de "fair trade" (comércio justo) para sua plantação de café, o agricultor brasileiro teria que aderir a uma longa lista de regras sobre pesticidas, técnicas agrícolas, reciclagem e outros assuntos. Ele até mesmo precisaria comprovar que seus filhos estavam matriculados na escola.

"Eu achei, 'Isto é difícil'", lembrou o agricultor humilde. Mas os 20% a mais que recebeu recentemente pela sua primeira colheita "fair trade" fizeram o esforço valer a pena, disse Paiva, acrescentando: "Nos ajudou a ter uma vida decente".

Mais agricultores provavelmente receberão tais ofertas, à medida que importadores e varejistas correm para atender a crescente exigência de consumidores e ativistas de adesão a padrões ambientais e sociais mais rígidos.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Sacas de café em estoque em cooperativa em Laginha, Minas Gerais

Neste mês, os grãos de Paiva estarão no café de marca própria vendido pelo Sam's Club, o braço atacadista do Wal-Mart. Dunkin' Donuts, McDonald's e Starbucks já vendem café fair trade.

"Nós estamos vendo um verdadeiro impulso agora que as grandes empresas e instituições estão adotando o fair trade", disse Paul Rice, presidente e executivo-chefe da TransFair USA, a única certificadora independente de fair trade nos Estados Unidos.

A Associação Internacional de Comércio Justo, um grupo de organizações em mais de 70 países, define fair trade como uma "preocupação com o bem-estar social, econômico e ambiental dos produtores pobres marginalizados" e "não maximização do lucro às custas deles".

Segundo as Organizações Internacionais de Rotulagem de Comércio Justo, um grupo de certificadores de todo o mundo, os consumidores gastaram aproximadamente US$ 2,2 bilhões em produtos certificados em 2006, um aumento de 42% em comparação ao ano anterior, beneficiando mais de 7 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento.

Como a conscientização dos consumidores de produtos orgânicos há uma década, a conscientização do fair trade está crescendo. No ano passado, 27% dos americanos disseram estar cientes da certificação, em comparação a 12% em 2004, segundo um estudo da Associação Nacional do Café, com sede em Nova York.

Os produtos fair trade que apresentaram o maior salto na demanda incluem café, cacau e algodão, segundo as Organizações Internacionais de Rotulagem.

Dezenas de outros produtos, incluindo chá, abacaxi, vinho e flores, são certificados por organizações, que visitam os produtores rurais para verificar se estão atendendo os muitos critérios que proíbem, entre outras coisas, o uso de mão-de-obra infantil e produtos químicos prejudiciais.

Não há padrão governamental para a certificação de fair trade, como "orgânico" até poucos anos atrás.

Alguns produtos fair trade também apresentam o selo de orgânico, mas a maioria não. Uma importante diferença é o foco dos selos: orgânico se refere à forma como o produto é cultivado, enquanto a preocupação principal do fair trade é a condição do agricultor e seus trabalhadores rurais.

Grandes redes estão comercializando o café fair trade de formas diferentes. Todos os cafés expressos servidos nas 5.400 lojas da Dunkin' Donuts nos Estados Unidos, por exemplo, são fair trade. Todas as lojas do McDonald's na Nova Inglaterra vendem apenas café fair trade. E no ano passado, a Starbucks comprou 50% mais café fair trade do que em 2005.

Os produtos fair trade continuam representando um percentual minúsculo do comércio mundial, mas estão crescendo. Apenas 3,3% do café vendido nos Estados Unidos no ano passado apresentava certificação fair trade, mas foi oito vezes mais do que em 2001, segundo a TransFair USA.

Apesar do Sam's Club já vender sete importados fair trade, incluindo café, esta será a primeira vez que colocará seu selo Member's Mark em um produto fair trade, o que Rice da TransFair considerou uma "declaração de compromisso com o fair trade".

Ele acrescentou: "O impacto em termos de volume e o impacto sobre os agricultores e suas famílias é dramático".

Michael Ellgass, diretor de marcas próprias do Sam's Club, disse que a empresa poderá bancar o custo adicional do fair trade e manter o preço baixo ao café da marca própria da rede por ter reduzido o número de intermediários.

O café geralmente passa dos agricultores por torrefadoras, embaladores, traders, transportadoras e depósitos antes de chegar às lojas. Mas o Sam's Club comprará produto pronto para a prateleira diretamente da Café Bom Dia, a torrefadora aqui da região de café do Brasil.

"Nós cortamos vários passos do processo ao trabalharmos diretamente com o agricultor", disse Ellgass.

Alguns críticos do fair trade dizem que trabalhar com milhares de pequenos produtores rurais torna o cumprimento rígido das regras do fair trade mais difícil.

Outros argumentam que o café fair trade é tão explorador quanto o convencional, especialmente em países que produzem os grãos de melhor qualidade -como Colômbia, Etiópia e Guatemala. Os agricultores de fair trade de lá recebem pouco mais que seus pares no Brasil, apesar de seus grãos terem se tornado marcas gourmet, vendidas por um preço mais alto, disse Geoff Watts, vice-presidente da Chicago's Intelligentsia Coffee & Tea, uma importadora de café.

Mas no Brasil, um país com pouco café de alta qualidade, a parceria entre pequenos produtores e grandes varejistas é um casamento melhor, disse Watts.

Os produtores fair trade no Brasil recebem pelo menos US$ 1,29 por libra (0,45 kg) de café, em comparação ao atual valor de mercado de cerca de US$ 1,05 por libra, disse Sydney Marques de Paiva, presidente da Café Bom Dia.

A maioria dos produtores de café é organizada em cooperativas e parte do adicional é canalizado de volta à comunidade, para financiar projetos sociais como escolas e água potável.

Como a maioria dos cerca de 3 mil membros de sua cooperativa -e três quartos dos produtores de café do mundo- Paiva, o agricultor (sem parentesco com De Paiva), cultiva menos de 10 hectares de terra. Ele produz cerca de 200 sacas de 132 libras para a cooperativa, 70% das quais são vendidas como fair trade para a Café Bom Dia.

A empresa compraria mais caso houvesse mais mercado para café fair trade, ela disse.

O café fair trade rende a Paiva cerca de R$ 258 por saca, em comparação a cerca de R$ 230 pelas sacas não fair trade. Neste ano isto lhe rendeu R$ 3.920 a mais, uma soma enorme aqui na região serrana pobre de Minas.

"É ótimo para nós", disse Paiva com um grande sorriso desdentado. "Agora eu considero as pessoas da cooperativa como minha família."

Ellgass, o executivo do Sam's Club, disse que a rede espera expandir seus produtos fair trade.

Os agricultores brasileiros também. "Todos estão se esforçando para atender aos padrões para podermos vender nosso café como fair trade", disse Conceição Peres da Costa, uma das produtoras de fair trade da cooperativa. "Todos querem ganhar o máximo que puderem." George El Khouri Andolfato

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