UOL Notícias Internacional
 

02/10/2007

Putin se posiciona para se tornar primeiro-ministro após a presidência

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Moscou
Vladimir V. Putin, que está constitucionalmente impedido de buscar outro mandato consecutivo como presidente da Rússia, anunciou na segunda-feira que poderá se tornar primeiro-ministro no próximo ano.

O anúncio de Putin parece confirmar o que muitos analistas presumiam: que ele planeja manter o poder que acumulou ao longo dos últimos oito anos.

Putin, que falou no congresso do partido Rússia Unida, a força política dominante do país, disse que encabeçará a lista daquele partido nas eleições parlamentares de dezembro.

Yuri Kochetkov/EFE - 1.out.2007 
Presidente Vladimir Putin faz discurso durante congresso do partido Rússia Unida, ontem

O presidente, que é popular entre os cidadãos russos e consolidou seu controle do governo, sempre disse que pretendia permanecer envolvido na política após seu segundo mandato como presidente. Ele até mesmo disse que poderia tentar a reeleição após outro presidente ocupar o cargo, o que é permitido pela Constituição russa.

Mas até agora, Putin não tinha identificado um cargo político específico para si mesmo imediatamente após a eleição presidencial de março.

"Chefiar o governo é uma proposta bastante realista", disse Putin, antes de acrescentar uma qualificação que freqüentemente usa quando discute publicamente seus planos para 2008: "Mas é cedo demais para pensar a respeito".

O discurso de Putin aqui elevou a arte teatral do Kremlin a novos níveis. O congresso partidário do Rússia Unida comandou a atenção da imprensa nacional, que exibiu cenas de Putin sentado em uma posição elevada acima de cada orador, enquanto se dirigiam para a platéia que olhava para cima na direção dele, de forma reverente.

Uma oradora, uma tecelã do Ivanovo Oblast, ou distrito, implorou aos líderes do partido que encontrassem uma forma de manter Putin na presidência para um terceiro mandato. "Eu vejo tantos grandes chefes e pessoas inteligentes nesta convenção", disse a tecelã, Yelena Lapshina. "Eu apelo a todos vocês -vamos pensar em algo juntos, para que Vladimir Vladimirovich Putin permaneça presidente da Rússia depois de 2008."

O uso de uma tecelã de Ivanovo faz referência direta à iconografia soviética e ao panteão de heróis do proletariado endossados pelo Estado. Os assessores de Putin rapidamente superaram até mesmo tal símbolo óbvio, quando um atleta em cadeira de rodas ocupou o palco e elogiou o presidente.

"Vladimir Vladimirovich, você tem sorte", disse o atleta, Mikhail B. Terentyev, um campeão de esqui das Paraolimpíadas. A platéia aplaudiu vigorosamente. Terentyev prosseguiu: "E enquanto você for presidente, a sorte acompanhará a Rússia. Você se tornou um talismã para dezenas de milhões de pessoas, um símbolo do desenvolvimento bem-sucedido do país. É claro, cabe a você decidir que lugar na vida política do país você ocupará, mas independente de qual seja sua decisão, eu quero que permaneça conosco, com a Rússia."

Putin olhava para baixo de seu assento, cabeça inclinada, sobrancelhas erguidas, emanando calma e poder.

Os eventos do dia provocaram uma nova rodada de especulação sobre que caminho Putin trilhará até as eleições.

O cargo de primeiro-ministro na Rússia é freqüentemente visto como um passo na direção da presidência: o próprio Putin foi brevemente o premiê sob o presidente Boris Yeltsin antes de ascender rapidamente ao cargo máximo.

No mês passado Putin nomeou abruptamente Viktor A. Zubkov, um confidente de pouca proeminência anterior, ao posto de primeiro-ministro. Ele então insinuou que Zubkov poderia sucedê-lo como presidente. Os comentários de Putin, somados, sugere que quando seu mandato terminar, ele poderia descer um degrau na escada de governo -e então subir novamente.

Mas o mais recente discurso de Putin também acompanhou sua aceitação de um novo tipo de proeminência: a de chefe simbólico do partido político russo dominante, o Rússia Unida. O partido apóia firmemente o Kremlin e Putin, apesar do presidente nunca ter ingressado nele e não tê-lo feito na segunda-feira.

Ao aceitar a posição de encabeçar a lista de candidatos do partido, Putin instantaneamente cedeu ao partido sua enorme estatura política doméstica -e, provavelmente, os recursos do governo russo- aos seus esforços de ampliar seu controle da Duma, a câmara baixa de 450 cadeiras do Parlamento russo.

O partido parecia pronto para lucrar com seu relacionamento estreito com Putin. Seu slogan para a campanha parlamentar, mesmo antes de Putin ter concordado em ingressar na lista do partido, era "O Plano de Putin: Vitória da Rússia".

O partido conta atualmente com uma forte maioria das cadeiras da Duma. Sua liderança disse na segunda-feira que o novo apoio público de Putin garantiria uma vitória incondicional nas próximas eleições, marcadas para 2 de dezembro.

A pequena oposição remanescente reconheceu isto logo após os comentários do presidente, transmitidos pela TV para todo país. Grigory A. Yavlinsky, chefe do partido de oposição Yabloko, disse para a rádio "Ekho Moskvy" que os eventos do dia eram mais uma prova de um "sistema de partido único na Rússia".

Se Putin poderia servir no Parlamento e na presidência simultaneamente é uma pergunta em aberto. A Constituição russa e a lei eleitoral permitem que os partidos indiquem candidatos para o Legislativo que não sejam filiados ao partido, mas a Constituição russa também exige uma separação de poderes como um de seus princípios fundamentais.

Mas Maya Grishina, membro da Comissão Eleitoral Central federal, disse para a agência de notícias oficial "RIA-Novosti" que o "chefe de Estado não está proibido de indicar sua candidatura a qualquer eleição, incluindo a eleição parlamentar. Paralelamente a isto ele ainda pode exercer seus deveres. A lei não contém qualquer restrição a isto."

Gleb O. Pavlovsky, um cientista político que dirige um instituto de pesquisa com laços estreitos com o Kremlin, disse que Putin daria seu nome ao partido como uma locomotiva eleitoral, mas que não buscaria ativamente uma cadeira no Parlamento após a apuração dos resultados em dezembro.

Em vez disso, disse Pavlovsky, Putin teria identificado o partido e a campanha parlamentar como outra possível base de poder após deixar o cargo. "O partido poderia se tornar seu principal instrumento após o fim de sua presidência", ele disse por telefone. "O novo presidente não seria capaz de nomear um primeiro-ministro sem o apoio do líder do partido."

Um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Tom Casey, relutou em interpretar a ação de Putin.

"Veja bem, como ele está fazendo isto no contexto das leis da Rússia, então certamente esta é uma opção dele e do partido dele", ele disse. Casey disse que as autoridades americanas acompanharão atentamente as eleições russas para verificar se são livres, justas e transparentes. "Mas certamente, como ele está fazendo isto dentro do contexto e limites da lei russa e do sistema legal russo, então certamente é uma opção dele."

Um alto diplomata ocidental também propôs a idéia de que seus mais recentes comentários públicos eram em parte uma charada, e que Putin, temeroso de traição ou da perda de influência no Kremlin, poderia mudar de curso e decidir servir outro mandato, independente da proibição constitucional.

"Eu acho que o que está claro, de uma forma ou de outra, é que ele está montando uma estrutura paralela", disse o diplomata por telefone. "Mas no final ele poderá descartar tudo e decidir permanecer."

* Brian Knowlton, em Washington, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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