UOL Notícias Internacional
 

02/10/2007

Uma nova onda de apoio para a árvore doente de Anne Frank

The New York Times
John Tagliabue

Em Amsterdã, Holanda
Sessenta e dois anos depois de morrer de tifo no campo de concentração de Bergen-Belsen, Anne Frank continua assombrando inúmeros leitores de seu diário, com sua exuberância juvenil, humor seco e indícios da violência que varreriam seu mundo. Mas poucas pessoas sabem sobre a alta castanheira que confortava Anne durante os mais de dois anos que ela e sua família se esconderam durante a ocupação alemã.

A árvore, no quintal da casa onde Anne se escondeu, ganhou fama há mais de uma década quando um vazamento de óleo no quintal levou a prefeitura a limpar suas raízes e o solo à sua volta, para impedir a morte da árvore.

Em 13 de maio de 1944, apenas três meses antes de sua família ser capturada, Anne escreveu em seu diário: "Nossa castanheira está toda florida. Está coberta de folhas e ainda mais bonita que no ano passado".

Herman Wouters/The New York Times 
Anne Frank escreveu em seu diário que gostava de olhar pela janela de sua casa de árvore

Nos últimos anos, a árvore passou a sofrer de novos males: fungos apodreceram quase metade de seu tronco e uma infestação de traças atacou sua copa. A revista de notícias alemã "Der Spiegel" informou no ano passado que botânicos passaram meses realizando testes e observando a árvore, mas seus esforços não melhoraram sua condição significativamente. Logo, as autoridades locais disseram que ele teria que ser derrubada.

Mas agora, inúmeros procedimentos administrativos parecem ter dado à árvore, que tem um século e meio, uma nova vida.

"Nós preferimos meticulosidade em vez de pressa", disse Ton Boon, um porta-voz do conselho municipal. "E estamos bastante cientes de que muitas pessoas estão nos observando."

Três fãs e admiradores de Anne Frank se uniram para contestar o decreto municipal. Aquela não era apenas uma árvore, eles argumentaram. No verão de 1942, o pai dela, Otto Frank, um judeu alemão que trocou Frankfurt por Amsterdã, decidiu que sua família e vários amigos se esconderiam nos quartos dos fundos de seu local de trabalho, ao longo do canal Prinsengracht margeado de árvores, até a libertação da Holanda.

A princípio, Anne encontrava conforto no pouco da natureza que podia vislumbrar das janelas escurecidas dos quartos onde se escondia. Depois, as janelas serviram para atividades menos exaltadas. "Ontem eu descobri um novo passatempo", ele confidenciou ao seu diário em 28 de novembro de 1942. "O uso de bons binóculos para espiar os quartos iluminados dos vizinhos."

A situação da árvore provocou várias reações de lugares próximos e distantes, disse Boon, apontando para uma pilha de mensagens de e-mail impressas. Alguns pediam por lascas da madeira da árvore, caso fosse cortada; outros pediam mudas da castanheira. Um inglês se ofereceu para transformar a madeira em casinhas de pássaros. As ofertas foram rejeitadas, apesar da cidade ter oferecido plantar uma árvore mais jovem, transplantada da castanheira existente, em seu lugar.

Herman Wouters/The New York Times)
A famosa árvore no quintal da casa onde Anne Frank se escondeu, em Amsterdã
Enquanto isso, os defensores da árvore argumentavam que seu simbolismo exigia que todas as medidas fossem adotadas para prolongar sua vida, desde que não ameaçassem os prédios ao redor. "As pessoas sempre dizem sobre as árvores: 'Esta árvore já viu muita coisa', algo que nunca diriam sobre um prédio", disse Annemiek van Loon, uma especialista em árvores da Fundação da Árvore Holandesa, uma organização sem fins lucrativos que cuida de árvores monumentais por toda a Holanda. "Elas as vêem como uma coisa viva."

Ela acrescentou: "Esta árvore conscientizou Anne da importância de sair, de forma que é um símbolo de liberdade. Talvez devesse ser um símbolo de brincar ao ar livre para todas as crianças".

A fundação está reunindo uma equipe de especialistas em árvores para pesquisar formas de prolongar a vida da castanheira. A árvore imensa, com um tronco do tamanho de várias pernas de elefante, teve sua copa podada para reduzir sua exposição aos ventos fortes; suas folhas ficam curvadas e douradas no verão por causa da traça Cameraria ohridella que a infesta; dois fungos, o Fomes fomentarius e o Armillaria mellea, estão apodrecendo seu tronco.

Os diretores da Casa Anne Frank, atualmente um museu, concordaram originalmente com o decreto municipal e planejavam a substituição da árvore por uma muda extraída dela. Eles agora concordam com os defensores da árvore. No ano passado o museu escolheu o simbolismo de galhos e folhas da árvore para um novo site Anne Frank. Os visitantes podem criar folhas na árvore digital, para enfatizar a comunidade daqueles que admiram Anne e das escolas por todo o mundo que levam seu nome.

"Para Anne, a árvore representava conforto, consolo, liberdade, um anseio por liberdade", disse Annemarie Bekker, uma diretora do museu, acrescentando que um florista foi contratado para extrair mudas das árvores, que serão enviadas para escolas de todo mundo dedicadas à memória de Anne Frank e do Holocausto. "Nesta relação, a árvore é importante."

O poder da árvore como símbolo ocorreu a Anne especialmente após ter encontrado consolo na amizade com Peter van Daan, o filho adolescente de uma família que Otto Frank levou para o esconderijo. "Nós dois", ela escreveu no diário em 23 de fevereiro de 1944, se referindo a Peter e a si mesmo, "olhamos para o céu azul, para a castanheira desfolhada reluzindo com o orvalho, as gaivotas e outros pássaros cintilando enquanto mergulhavam pelo ar, e ficamos tão tocados e encantados que não podíamos falar".

Na casa vizinha à Casa Anne Frank, também um alto ex-depósito, vive Sylvio S. Mutal, que se estabeleceu em Amsterdã há vários anos e é descendente de judeus de Istambul. De sua mesa, situada sob um grande pôster de Anne Frank, com seu sorriso tímido e olhos profundos espiando o insondável, ele pode ver os amplos galhos da castanheira.

Como um ex-funcionário da Unesco com grande experiência na conservação de monumentos, Mutal, 73 anos, foi pego pelas manobras burocráticas para salvá-la. Ele olha para a árvore como um membro da família. "Em termos comparativos", ele disse, "a situação está melhor do que no ano passado. Sua saúde parece melhor". George El Khouri Andolfato

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