UOL Notícias Internacional
 

03/10/2007

Tráfico de drogas, antes de passar a fronteira dos EUA, cria raízes e cobra seu preço no México

The New York Times
James C. McKinley Jr.
Zamora, México
Quando ela fica doidona, Lupita Diaz diz que entra em uma doce ilusão de paz, um alívio de sua dor e raiva de si mesma. Ela deita na grama com outros viciados, nos limites da cidade, olha para as estrelas e brinca com sua gaita azul e velha.

O nascer do sol traz uma sensação de queda. Suas articulações doem. Sua boca fica seca. Ela tem suores frios, fica assustada com as sombras, ouve vozes em sua cabeça. Mais uma vez, se dispõe a se prostituir para conseguir US$ 5 (em torno de R$ 10) para obter outra dose de crack ou metanfetamina. Ela está viciada há anos, e seu corpo magro está quase acabado. Ela deu seus dois filhos para outros criarem.

"Não há nada de bom em estar aqui", diz ela, arrastando as palavras e cobrindo os olhos cheios de lágrimas com um par de óculos cor de rosa. "Parece feio não ficar com seus filhos. Parece horrível. Não é o que quero. Não é o que eu gosto. Mas quando eu tenho dinheiro, quero drogas."

Jennifer Szymaszek/The New York Times 
Usuários de drogas em centro de reabilitação em Zamora, México

A história de Diaz é comum na maior parte das grandes cidades dos EUA, mas até poucos anos era rara no México central. Isso mudou. Hoje o México não é mais um país de trânsito para as drogas dirigidas aos EUA. Também é um país de usuários.

Na medida em que os cartéis de drogas mexicanos cresceram, começaram a abrir mercados locais para formas baratas de drogas altamente viciadoras, como o crack e o ice, como é chamada a metanfetamina. Agora, até cidades de médio porte, como Zamora, têm populações grandes e crescentes de viciados, e um aumento em crimes violentos.
"Dez ou 15 anos atrás, nem víamos cocaína, só maconha", disse o comandante Juan Carlos Espinosa, do departamento de polícia de Zamora. "Então, há cerca de três anos, começamos a ver muitos sinais de ice, crack e heroína."

A tendência alarmou as autoridades mexicanas. Em julho, o presidente Felipe Calderon iniciou um programa para examinar o uso de drogas em todos os alunos do ensino médio. O advogado geral, Eduardo Medina Mora, repetidamente levantou a bandeira vermelha nos últimos meses.

"É um fenômeno -deve-se dizer claramente- que não recebeu atenção nas últimas décadas neste país, e agora temos que voltar os olhos e lidar com a realidade: que nós também somos um país de consumidores", disse Medina Mora recentemente ao jornal El Universal.

Uma medida da tendência é o numero de pessoas que se inscreveram nos centros de reabilitação federal para viciados em drogas. O número de viciados em crack buscando o tratamento em todo o país triplicou desde 2001; o número que busca ajuda contra o vício em metanfetamina dobrou.

O ministro da saúde, Jose Angel Cordova Villalobos, admitiu em julho que o governo não tinha clínicas, leitos em hospitais e recursos para lidar com a onda de viciados.

O país tem cerca de 20.000 leitos, disse ele, mas apenas 120 em clínicas públicas.

Em Zamora, comunidade de 170.000 pessoas no Estado de Michoacan, no sudoeste do México, a evidência do vício está em toda parte. Pessoas maltrapilhas dormem em terrenos baldios e nas ruas. O crime é comum. Algumas ruas tornaram-se bazares de drogas, com casas de crack entre mercearias e lojas de vídeo.

Centros de reabilitação privados brotaram em quase todo bairro pobre, uma espécie de indústria. Na maior parte são minúsculas casas esquálidas, nas quais os viciados são trancados por três meses e recebem um curto curso sobre o programa de 12 passos desenvolvido pelos Alcoólatras Anônimos.

Em entrevistas, viciados em vários estágios de recuperação descreveram como sua dependência da metanfetamina ou do crack fez deles traficantes, prostitutas e ladrões. A maior parte descreve um processo de decadência, quando experiências com drogas levaram ao vício insaciável que os fez venderem tudo e, eventualmente, cometerem crimes.

O La Esperanza é um centro de reabilitação privado, típico das duas dúzias em Zamora, um abrigo na rua Matamoros. A casa de família hospeda mais de 30 viciados, que dormem em beliches e compartilham um único banheiro malcheiroso.

As portas são trancadas o dia todo, e há grades nas janelas. As famílias pagam US$ 100 (cerca de R$ 200) para colocar seus parentes ali.

Entre os moradores está Aurora Victoria Gómez, mulher de 28 anos que fugiu de casa, viciou-se em metanfetamina e se tornou prostituta aos 13. Ela tem três filhos que nunca vê. "Para mim, foi uma vida perdida, triste, vagando nas ruas, rejeitada, humilhada", disse ela. "A verdade é que nunca tive um momento feliz."

Alguns viciados mais velhos dizem que mal reconhecem sua cidade atualmente.

Joaquin Antonio Gutierrez, 39, disse que ficou viciado em metanfetamina em 1988, quando estava trabalhando ilegalmente como jardineiro em San Diego. Logo, ele passou a vender a droga para financiar seu hábito. Ele passou duas temporadas em prisões da Califórnia, antes de ser deportado. De volta a Zamora, ele ficou surpreso em ver que a metanfetamina e o crack tinham criado raízes em sua cidade natal.

"Quando eu era menino, nunca víamos drogas", disse ele. "Hoje, porém, em toda rua você vê gente vendendo."

Há dois anos, Gutierrez finalmente livrou-se do vício em uma clínica ambulatorial, conhecida como Centro de Integração Juvenil, com a ajuda de anti-depressivos e psicoterapia. A clínica é a única do tipo no Estado de Michoacan.

Jose Francisco Gil Cerda, psicólogo que dirige a clínica, disse que viciados em crack e metanfetamina tendem a ser agressivos, violentos e paranóicos. A maior parte deles começa a usar as drogas como forma de estimulante, para ficarem acordados e trabalharem mais. Depois de um curto período, entretanto, a droga rouba o sono deles, elimina seu apetite e corrói seus órgãos, inclusive o cérebro.

Domingo Castro, 33, vendedor de rua atualmente na clínica, disse que tentou matar seu pai a pauladas e estuprou uma amiga da sua mãe. A metanfetamina quase o matou, disse ele.

"Com o ice, cara, você é como Deus", disse ele. "Tudo é seu. Tudo pertence a você. Mas destrói seu sistema. Você está se enganando."

Do outro lado da cidade, um grupo de 33 viciados em cocaína e metanfetamina lutam contra seus demônios em uma casa verde discreta de dois andares, da organização Viciados em Drogas Anônimos. Os viciados cozinham e vendem pão para sustentar o centro.

Um típico jovem viciado de 24 anos que não quis divulgar seu nome conta que começou a usar metanfetamina de brincadeira, quando tinha 15 anos, na cidade de Apatzingan, sede do famoso cartel de drogas de Valencia.

Viciou-se rapidamente e fugiu de casa para morar nas ruas, roubando dinheiro de seus pais. Aos 18 anos, ele tentou entrar para o exército para se endireitar, mas viu que o uso de drogas era comum também entre os soldados.

Então, desertou depois de dois anos e voltou para as ruas, vivendo em uma casa abandonada e assaltando as pessoas. Cada dose da droga custa cerca de US$ 5, e algumas vezes, ele tinha que roubar duas ou três pessoas para conseguir o suficiente. Ele era magérrimo, sujo, com uma barba cheia de nós.

"Chega uma hora em que você precisa e se você não consegue, começa a suar e a se desesperar", disse ele. "Você ouve coisas que não existem. Você vê uma sombra e acha que alguém quer te matar."

Finalmente, no dia 1º de janeiro de 2004, sua paranóia e medo da polícia chegaram a tal ponto que ele tinha medo de deixar a casa arruinada em que vivia. Ele procurou o pai para pedir ajuda. O pai o levou para uma clínica em Morelia. Desde então, ele tem travado a batalha diária contra o chamado silencioso da droga.

"Há um temor", diz ele, virando os olhos assustados para a rua fora da clínica. "Lá fora, no mundo, é mais fácil da tentação vencer você." Deborah Weinberg

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