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05/10/2007

A economia americana é capaz de superar o petróleo a US$ 80?

The New York Times
Michael M. Grynbaum
Os preços do petróleo, um flagelo econômico em décadas passadas, dispararam, alcançando níveis recordes nos últimos anos. Mas o efeito negativo muitas vezes pareceram ser insignificante: os norte-americanos continuaram gastando, o índice de emprego aumentou e as fábricas, as equipes de construções e as lojas mantiveram-se ocupadas.

Agora, no entanto, a economia pode estar começando a ratear, à medida que o anêmico mercado imobiliário norte-americano emperra o crescimento. Se as folhas de pagamento diminuírem significativamente, o preço elevado do petróleo começará a provocar sofrimentos de uma forma que não ocorre há quase três décadas?

Muitos economistas acham que não, e sustentam que, caso os Estados Unidos entrassem em uma recessão, o preço do petróleo cairia rapidamente.

"Os Estados Unidos são a nação que mais consome petróleo no mundo", afirma Stephen P.A. Brown, diretor de economia do setor de energia do Federal Reserve Bank de Dallas. "Uma desaceleração do crescimento aqui provocaria a queda do preço do petróleo".

Mas essa opinião está longe de ser unânime. A economia global tem crescido rapidamente, e o consumo de petróleo no exterior continua aumentando. Alguns poucos economistas dizem ser possível que, mesmo se a economia norte-americana tornar-se debilitada, a demanda no exterior será suficientemente forte para manter os preços do petróleo elevados.

"A nossa importância relativa nos mercados globais está diminuindo", observa Larry Goldstein, presidente da Fundação de Pesquisa da Indústria de Petróleo, em Nova York. "Uma desaceleração econômica norte-americana não provocaria um impacto visível na demanda por petróleo, e tampouco teria um efeito perceptível sobre os preços do produto".

Se esta hipótese estiver correta, os Estados Unidos poderiam se ver em uma situação semelhante à dos anos setenta, com o fraco crescimento econômico e o elevado preço do petróleo significando uma mordida dupla no bolso do consumidor.

A situação é nebulosa em parte porque existem poucos precedentes históricos que possibilitem a compreensão do atual mercado de petróleo. Há menos de uma década, o preço do barril do petróleo caiu para menos de US$ 11. O petróleo a US$ 50 era uma possibilidade remota, e a idéia generalizada era de que um aumento dessa magnitude não causaria danos sérios à economia.

Mas, conforme a economia global prosperou, o petróleo superou a barreira dos US$ 50 em 2004, e ultrapassou os US$ 60 em meados de 2005. Muitos norte-americanos reclamaram do preço crescente da gasolina, mas a economia desprezou os preços nos postos de gasolina superiores a US$ 0,79 o litro, e continuou crescendo.

Em 20 de setembro último, o preço do petróleo para remessa no mês seguinte atingiu o recorde de US$ 83,32 o barril, e desde então se manteve acima dos US$ 80, tendo fechado na quinta-feira (04/10) a US$ 81,44, o que representou um aumento de US$ 1,50 em relação à quarta-feira (com o ajuste para a inflação no período, o preço recorde do petróleo foi de quase US$ 102 o barril no início de 1980, após a revolução iraniana, mas esse patamar não se sustentou por muito tempo).

Parece evidente que parte do motivo pelo qual o petróleo caro não provocou muitos danos foi o fato de a economia ter se tornado menos sensível aos preços da energia do que era na década de 1970.

De acordo com os economistas, duas tendências importantes reforçaram-se mutuamente. Devido aos preços mais elevados, diversas indústrias tornaram-se mais eficientes ao utilizar combustíveis. E o setor de serviços, que exige menos energia do que o setor industrial, passou a representar uma parcela bem maior da economia. De forma geral, a quantidade de energia necessária para gerar um dólar na economia foi reduzida quase que pela metade desde 1980, segundo demonstram estatísticas do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

Alguns economistas afirmam que o preço elevado do petróleo tem sido um empecilho para a economia nos últimos anos. Mas o efeito pode ter se limitado a reduzir pouquíssimo uma taxa de crescimento que seria muito robusta, de forma que foi difícil perceber qualquer impacto.

Os preços elevados do petróleo reduzem a atividade econômica, mas eles ocorrem no momento mais oportuno possível", afirma Goldstein. "Os consumidores estão na melhor posição imaginável para absorver o choque do aumento do preço".

Alguns negócios, especialmente no setor de transportes, experimentaram um aumento acentuado dos custos devido ao petróleo caro. As empresas aéreas do mundo inteiro esperam gastar US$ 132 bilhões com a compra de combustível para aviões a jato neste ano, comparados aos US$ 40 bilhões gastos com esta finalidade em 2002. O setor estima que a parcela dos custos operacionais referente aos combustíveis dobrou em seis anos.

De forma similar, a indústria de transporte de cargas rodoviárias calcula que gastará US$ 107 bilhões com a compra de óleo diesel neste ano, contra US$ 45 bilhões em 2002. Isso significa que a compra de combustível abocanha grande parte dos lucros anuais dessa indústria, mas um boom nos negócios tem garantido uma margem suficiente de lucratividade. "Se isso tivesse ocorrido dez anos atrás, a indústria teria sido dizimada", diz Bob Costello, economista da Associação Americana de Transportes por Caminhões.

Com a gasolina cara já drenando dinheiro dos bolsos dos consumidores, há quem tema que uma recessão poderia fazer com que a população reduzisse ainda mais o consumo. Mas os economistas dizem que se houvesse uma recessão, os preços do petróleo cairiam de maneira suficientemente rápida para proporcionar algum alívio aos consumidores.

Os Estados Unidos ainda respondem por quase um quarto do mercado mundial de petróleo, apesar do ritmo rápido de crescimento econômico global. A fatia da China tem aumentado sistematicamente durante mais de uma década, o que é um importante fator para o aumento dos preços. Mas a China ainda utiliza menos de 9% do petróleo mundial.

"Os Estados Unidos ainda são a maior economia do mundo", afirma Brian Pearce, economista da Associação Internacional de Transporte Aéreo. "Não acredito de forma alguma que os preços do petróleo cairão para o patamar de 2002. Mas creio que existe uma acentuada desaceleração da economia norte-americana, o que puxará os preços do petróleo para baixo".

E quanto à possibilidade de que o crescimento contínuo no exterior faça com que o petróleo aumente ainda mais de preço, talvez o suficiente para elevar o risco de uma recessão nos Estados Unidos?

Economistas e executivos da indústria petrolífera dizem que não enxergam nenhum fator de mercado capaz de fazer com que isso aconteça no curto e no médio prazo. "Muita gente que está fazendo planejamentos de longo prazo no setor petrolífero tem trabalhado com um preço do petróleo em torno de US$ 60 o barril", afirma Lynn Westfall, economista da Tesoro Corporation, uma grande refinaria.

Mas esses indivíduos admitem que uma crise política, acompanhada de potenciais interrupções do abastecimento, poderia ser suficiente para fazer com que o petróleo ultrapassasse a psicologicamente importante barreira dos US$ 100 - ainda que por pouco tempo.

"Se houvesse uma guerra entre o Irã e o Ocidente, o preço do petróleo poderia ficar bastante elevado", adverte Brown, do Federal Reserve Bank de Dallas. UOL

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