UOL Notícias Internacional
 

05/10/2007

Antropologia guia o Exército em zonas de guerra

The New York Times
David Rohde

No Vale Shabak, Afeganistão
Nesta fortaleza isolada do Taleban no leste do Afeganistão, soldados pára-quedistas americanos estão empregando em campo uma nova arma crucial nas operações de contra-insurreição daqui: uma antropóloga civil de fala suave chamada Tracy.

Tracy, que pediu para que seu sobrenome não fosse citado por motivos de segurança, é membro da primeira Equipe de Terreno Humano, um programa experimental do Pentágono que envia antropólogos e outros cientistas sociais para unidades de combate americanas no Afeganistão e Iraque. A capacidade de sua equipe de entender pontos sutis das relações tribais -em um caso perceber uma disputa de terras que permitiu ao Taleban intimidar partes de uma grande tribo- obteve elogio de oficiais que disseram estar vendo resultados concretos.

O coronel Martin Schweitzer, comandante da 82ª unidade da Divisão Aerotransportada que trabalha com os antropólogos aqui, disse que as operações de combate da unidade diminuíram 60% desde que os cientistas sociais chegaram em fevereiro, e que os soldados agora são capazes de se concentrar mais em fornecer uma melhor segurança, atendimento de saúde e educação para a população.

Tomas Munita/The New York Times 
Garoto ouve afegão e médicos do Exército dos EUA discutirem seu caso durante clínca

"Nós estamos olhando para isto de um ponto de vista humano, do ponto de vista de um cientista social", ele disse. "Nós não estamos concentrados no inimigo. Nós estamos concentrados em proporcionar governança para as pessoas."

Em setembro, o secretário de Defesa, Robert M. Gates, autorizou uma ampliação de US$ 40 milhões do programa, que fornecerá equipes de antropólogos e cientistas sociais para cada uma das 26 brigadas de combate americanas no Iraque e Afeganistão. Como resultado, oficiais militares estão lutando para encontrar mais acadêmicos dispostos a serem enviados para as linhas de frente. Desde o início de setembro, cinco novas equipes foram enviadas para a área de Bagdá, elevando o total para seis.

Mas críticas estão surgindo no meio acadêmico. Citando o uso indevido de ciências sociais no passado em campanhas de contra-insurreição, como no Vietnã e na América Latina, alguns condenam o programa como "antropologia mercenária", que explora a ciência social para ganho político. Os oponentes temem que, independente de quais forem as intenções, os acadêmicos que trabalham com as forças armadas poderiam inadvertidamente fazer com que todos os antropólogos sejam vistos como coletores de inteligência para os militares americanos.

Hugh Gusterson, um professor de antropologia da Universidade George Mason, e 10 outros antropólogos estão circulando uma petição online que pede aos antropólogos que boicotem as equipes, particularmente no Iraque.

"Apesar de freqüentemente apresentado por seus defensores como um trabalho visando um mundo mais seguro, no fundo ele acaba contribuindo para uma guerra brutal de ocupação que resultou em baixas imensas", diz a petição.

No Afeganistão, os antropólogos chegaram juntamente com 6 mil soldados, que dobraram a força militar americana na área que patrulham, o leste do país.

Uma versão menor do aumento de tropas promovido pelo governo Bush no Iraque, o aumento no Afeganistão permitiu às unidades americanas executarem estratégia de contra-insurreição aqui, onde as forças americanas geralmente enfrentam menos resistência e estão melhor capacitadas para assumir riscos.

Desde que o general David H. Petraeus, o comandante geral das forças americanas no Iraque, supervisionou a elaboração do novo manual de contra-insurreição do Exército no ano passado, a estratégia se tornou o novo mantra das forças armadas. Uma recente operação militar americana aqui ofereceu uma janela sobre como os esforços para aplicar a nova abordagem estão transcorrendo de forma contra-intuitiva.

Nas entrevistas, os oficiais americanos não pouparam elogios ao programa de antropologia, dizendo que o conselho dos cientistas sociais provou ser "brilhante", os ajudando a verem a situação do ponto de vista afegão e lhes permitindo reduzir as operações de combate.

A meta, eles dizem, é melhorar a atuação das autoridades de governo locais, persuadir os membros das tribos locais a ingressarem na polícia, reduzir a pobreza e proteger os aldeões do Taleban e criminosos.

Autoridades civis afegãs e ocidentais também elogiaram os antropólogos e a nova abordagem militar americana, mas foram cautelosos na previsão de sucesso a longo prazo. Muitos dos problemas políticos e econômicos que alimentam a instabilidade podem ser resolvidos apenas com um grande número de especialistas civis afegãos e americanos.

"Meu sentimento é de que as forças armadas passaram por uma enorme mudança agora que reconheceram que não terão sucesso militarmente", disse Tom Gregg, a principal autoridade da ONU no sudeste do Afeganistão. "Mas eles ainda não dispõem das equipes de especialistas para implementar" uma estratégia não-militar coerente, ele acrescentou.

Empregando pequenos grupos de soldados americanos em áreas remotas, os pára-quedistas de Schweitzer organizaram jirgas, ou conselhos locais, para solucionar as disputas tribais que persistem há décadas. Os oficiais minimizaram as perguntas sobre se os militares se sentiam à vontade com o que David Kilcullen, um antropólogo australiano e um dos arquitetos da nova estratégia, chama de "obra social armada".

"Quem mais vai fazer isto?" perguntou o tenente-coronel David Woods, comandante do 4º Esquadrão, 73º de Cavalaria. "É preciso evoluir. Caso contrário, você se torna inútil."

A equipe de antropologia daqui também teve um grande papel no que os militares chamaram de Operação Khyber. Este foi um esforço recente de 15 dias no qual 500 soldados afegãos e 500 soldados americanos tentaram remover cerca de 200 a 250 rebeldes talebans de grande parte de província de Paktia, proteger a estrada mais importante do sudeste do Afeganistão e colocar um fim a uma série de ataques suicidas contra tropas americanas e governadores locais.

Em um dos primeiros distritos que a equipe entrou, Tracy identificou uma concentração incomumente alta de viúvas em uma aldeia, disse Woods. Ela determinou que a falta de renda das viúvas criava uma pressão financeira sobre seus filhos para sustentarem suas famílias, um fardo que poderia levar os jovens a ingressarem na insurreição melhor remunerada. Citando o conselho de Tracy, oficiais americanos decidiram desenvolver um programa de treinamento profissional para as viúvas como forma de ajudar a reduzir seu fardo financeiro.

Em outro distrito, a antropóloga interpretou a decapitação de um ancião tribal local mais como um ato aleatório de intimidação: a meta do Taleban, ela disse, era dividir e enfraquecer os zadran, uma das maiores tribos do sudeste do Afeganistão. Se os oficiais afegãos e americanos pudessem unir os zadran, ela disse, a tribo poderia impedir o Taleban de atuar na área.

"Chame como quiser, isto funciona", disse Woods, natural de Denbo, Pensilvânia. "Ajuda a definir os problemas, não apenas os sintomas."

A criação das equipes teve início no final de 2003, depois que os oficiais americanos no Iraque se queixaram de que tinham pouca ou nenhuma informação sobre a população local. Autoridades do Pentágono contataram Montgomery McFate, uma antropóloga cultural formada em Yale, que trabalhava para a Marinha e defendia o uso de ciência social para melhorar as estratégias e operações militares.

McFate ajudou a desenvolver um banco de dados informatizado em 2005 que fornecia aos comandantes informações detalhadas sobre a população local. No ano seguinte, Steve Fondacaro, um coronel reformado das Operações Especiais, ingressou no programa e defendeu a inclusão de cientistas sociais nas unidades de combate americanas.

McFate, a consultora sênior de ciência social do programa e autora do novo manual de contra-insurreição das forças armadas, rejeitou as críticas a acadêmicos trabalharem com as forças armadas.

"Eu sou freqüentemente acusada de militarizar a antropologia", ela disse. "Mas na verdade nós estamos antropologizando as forças armadas."

Roberto J. Gonzalez, um professor de antropologia da Universidade Estadual de San Jose, chamou os participantes do programa de ingênuos e não éticos. Ele disse que os militares e a CIA consistentemente usam a antropologia de forma indevida em campanhas de contra-insurreição e propaganda e que agora empresas com contratos com as forças armadas também estão contratando antropólogos visando conhecimento local.

"Aqueles que servem aos interesses de curto prazo das forças armadas, agências de inteligência e empresas contratadas por estes acabarão prejudicando toda a disciplina a longo prazo", ele escreveu na edição de junho da "Anthropology Today", uma revista acadêmica.

Argumentando que seus críticos não entendem os programas e nem os militares, McFate disse que outros antropólogos estão ingressando nas equipes. Ela disse que a meta deles é ajudar os militares a diminuírem os conflitos em vez de provocá-los, e negou veementemente que os antropólogos coletam inteligência para as forças armadas.

No leste do Afeganistão, Tracy disse que sua meta era reduzir o uso de operações militares de mão pesada, voltadas apenas para matar rebeldes, que ela disse que alienam a população e criam mais rebeldes. "Eu posso voltar e ampliar o entendimento dos militares, para não cometermos os mesmos erros que cometemos no Iraque", disse Tracy.

Além de oferecer conselhos aos comandantes militares, ela disse, a equipe de cinco membros cria um banco de dados detalhado dos líderes locais e tribos, assim como dos problemas sociais, questões econômicas e disputas políticas. O banco de dados permanece permanentemente disponível, ela disse, e será usado por diferentes unidades americanas ao realizarem o rodízio pela área.

Durante a recente operação, enquanto os soldados procuravam por homens-bomba, Tracy e uma equipe de médicos do Exército ofereciam consultas médicas gratuitas. Eles disseram esperar que o fornecimento de atendimento médico possa mostrar aos aldeões que o governo afegão está melhorando suas vidas.

Soldados americanos que cuidam de assuntos civis então tentaram mediar as facções divididas da tribo Zadran sobre onde construir uma nova escola de US$ 100 mil. Os americanos esperam que a escola, que atenderia crianças de ambos os grupos, possa colocar fim a uma disputa de 70 anos entre os grupos em torno do controle de uma encosta da montanha, coberta de madeira lucrativa.

Apesar de elogiarem o novo programa, autoridades afegãs e ocidentais disseram que ainda é preciso esperar para ver se os ganhos persistirão a longo prazo. Elas também questionaram se o governo afegão dispõe de pessoal capacitado suficiente para promover as complexas mudanças políticas e econômicas necessárias para estabilizar a área.

"Este será o desafio, preencher o vácuo", disse Gregg, o representante da ONU. "Há um ponto de interrogação sobre se o governo possui habilidade para tirar proveito dos ganhos."

Outros também questionam se as forças militares americanas já no limite e seus aliados da Otan poderão manter o ritmo das operações.

Após seis anos de promessas americanas, os afegãos também parecem estar aguardando para ver se os americanos ou os talebans vencerão a prolongada disputa aqui. Eles disseram que os últimos meses foram apenas um capítulo de uma luta potencialmente longa.

Em uma "super jirga" realizada aqui pelas autoridades afegãs e americanas, um membro do Parlamento afegão, Nader Khan Katawazai, expôs o desafio diante de dezenas de anciãos tribais.

"A Operação Khyber visava apenas poucos dias", ele disse. "O Taleban surgirá de novo." George El Khouri Andolfato

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