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07/10/2007

A arte da Índia, em alta e agitando

The New York Times
Steven Henry Madoff

Em Mumbai, Índia
Para um ocidental não iniciado, chegar até uma das novas galerias de arte desta cidade pode ser um estudo desorientador de contrastes. Nas ruas lotadas atrás do hotel Taj Mahal Palace & Tower, onde o ar é carregado do cheiro de gasolina e flores, você é abordado por mulheres mendigando dinheiro e comida. Homens gritam convites para entrar em suas lojas de tapetes ou para comprar coisas como relógios, revistas, jaquetas de couro e cigarros.

Então, em uma rua estreita, você entra em um pátio onde um homem está sentado vestindo um uniforme preto de segurança. Ele não fala inglês, mas quando lhe é pedido uma direção, ele aponta para um lance de escada de madeira tão gasto que está empenado no meio. No alto, uma porta é aberta por uma mulher descalça em um sari escarlate. Atrás dela se encontra uma galeria de arte tão branca e polida quanto qualquer espaço em Chelsea.

Estas contradições não surgem de algum exotismo calculado. Esta é simplesmente a nova Índia.

Christie's Images Ltd./The New York Times 
"Three Painters" (1996), trabalho do artista indiano Atul Dodiya

"Não é como se não soubéssemos o que está acontecendo em Nova York, Berlim ou na China", disse a marchande Usha Mirchandani em uma entrevista na galeria. "Nós apenas nos encontramos em uma nova posição e precisamos encontrar nosso caminho."

"Somos uma civilização antiga. Temo tesouros incontáveis. Mas o que está acontecendo aqui desde o último ano e meio mudou as coisas, com o boom da economia, tanta arte sendo vendida e os preços indo às alturas."

O mundo da arte indiana mais que mudou. Ele estourou. Os preços multiplicaram por dez desde 2002. Apenas nos últimos dois anos, eles quase dobraram. Obras dos artistas contemporâneos da Índia mais vendidos -Atul Dodiya e Subodh Gupta são os dois nomes mais freqüentemente citados- podem chegar a centenas de milhares de dólares. O preço em leilão de pinturas da geração mais velha de grandes modernistas indianos, como M.F. Husain ou F.N. Souza, podem facilmente passar de um milhão de dólares -pouco incomum para importantes artistas ocidentais, mas desconcertante em um país onde a renda média entre os 1,1 bilhão de habitantes é de cerca de US$ 820 por ano.

Apesar das metáforas habituais serem usadas para descrever a nova cena da arte -um velho oeste, uma corrida do ouro- há sinais de que especuladores começaram a recuar desde que o governo impôs novos impostos sobre ganhos de capital em vendas de arte. Ainda assim, o mundo global da arte está encantado. O fascínio durável com a nova arte da China agora se espalhou para sua vizinha a sudoeste, com marchands e curadores internacionais chegando na tentativa de descobrir talento.

Apenas nas próximas poucas semanas, pelo menos sete exposições de grande escala de arte indiana contemporânea serão abertas na Itália, Suíça e Estados Unidos.

Dada a atenção e grande quantidade de dinheiro dedicadas à arte indiana, mais e mais galerias estão abrindo ou se remodelando. Alguns espaços estão sendo adaptados ou construídos para acomodar obras maiores e as instalações de vídeo ou multimídia mais complexas, que são novas adições à prática artística na Índia.

Em Nova Déli, a Gallery Espace, Vadehra Art Gallery e Talwar Gallery são três exemplos elegantes. Uma quarta é a Nature Morte, considerada por muitos como uma galeria proeminente de arte contemporânea na Índia. Ela recentemente abriu um segundo espaço em Déli para abrigar projetos de artistas e um terceiro espaço em Kolkata com sua parceira de Nova York, a galeria Bose Pacia.

Há uma energia semelhante em Mumbai, onde a Galerie Mirchandani + Steinruecke, Bodhi Art (que possui espaços em Nova York, Déli e Cingapura), Sakshi Gallery, Project 88 e Chatterjee & Lal foram abertas, se mudaram ou foram ampliadas durante o crescimento do mercado.

Shilpa Gupta, uma artista de 31 anos de Nova Déli cujos vídeos e instalações são exibidos na Ásia, Europa e nos Estados Unidos, confirma o momento de tirar o fôlego. "Não importa quem é a estrela no momento", ela disse. "É lindo. Nós podemos sair, curtir. Todos se conhecem e todos estão se saindo muito bem. É fantástico."

Mas paradoxos surgem mesmo nas conversas mais breves com artistas, marchands, colecionadores e escritores aqui.

O dinheiro que ingressa no mundo da arte, vindo de indianos residentes no exterior que fizeram fortuna nos Estados Unidos e na Europa, juntamente com o motor da economia indiana de US$ 4 trilhões, permitiu aos artistas viajarem ao exterior com mais freqüência que antes. Mas com esta mudança vem a lenta dissolução da comunidade unida idealizada por Gupta e que agora se reúne nas muitas inaugurações de exposições -dificilmente um fórum para discussões intensas de assuntos e obras de arte. E apesar da recente abundância, como apontou o consultor de arte Jai Danani, o dinheiro ainda precisa dar seu toque de Midas ao mundo da arte indiana como um todo -isto é, gerando o retorno necessário para criação de escolas de arte, estúdios e museus para a arte contemporânea.

Ao lado dos leilões, inaugurações de arte e jantares em restaurantes da moda como o Indigo, em Mumbai, outra realidade se encontra em uma rua não pavimentada na aldeia de Khirki, no sul de Nova Déli. Lá, em um prédio de dois andares, se encontra as oficinas KHOJ, o único programa de residência para artistas contemporâneos em todo o país. Do outro lado da rua, um homem dorme diretamente no chão perto de uma família cercada de moscas. Dentro há cinco pequenos estúdios e dois recintos para artistas visitantes. Na "sala de referência", catálogos de exposição balançam em pilhas no chão, organizados por categorias anotadas em folhas de papel coladas com fita adesiva nas paredes.

Pooja Sood, a agitada diretora fundadora do KHOJ, luta para manter o centro vivo há 10 anos, criando parcerias com instituições de vanguarda semelhantes no Sul da Ásia. O governo "abandonou a arte contemporânea", ela disse; apenas o setor privado apóia novas instituições como a dela e a nova arte em geral.

A frustração é disseminada.

Nikhil Chopra, um jovem artista performático de Mumbai, disse: "Eu não acredito que somos um país de um bilhão de pessoas que não possui mais que um par de escolas de arte decentes, nenhum museu de arte contemporânea, nenhum financiamento real, nenhum grupo de curadores treinados fluentes em arte contemporânea, nenhum crítico de arte nos jornais, apenas uma revista de arte séria, a 'Art India', e apenas alguns poucos grandes colecionadores de obras contemporâneas. Em outras palavras, nenhuma infra-estrutura real".

Mas há sinais de que a situação está melhorando. Um museu de arte moderna está sendo planejado para Kolkata. Um importante colecionador, Anupam Poddar, logo abrirá a nova sede da Devi Art Foundation em Nova Déli para abrigar sua coleção, organizar exposições e realizar palestras e debates. A Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli, agora tem uma Escola de Arte e Estética, um programa bem sofisticado de história da arte e estudos culturais. Surgiram sites na Internet que cobrem a arte indiana: mattersofart.com, artconcerns.com, indianartnews.com, assim como o site de leilão online, saffronart.com.

Mas não há dúvida, como colocou Peter Nagy, o dono da Nature Morte, que a cena de arte indiana está em sua "fase adolescente, cheia de espinhas". É uma comunidade de arte em transformação, lutando para se reinventar para o século 21.

Os próprios artistas, expostos diretamente à arte e artistas europeus e americanos como nunca antes, com a Internet lhes permitindo obter uma amostra de qualquer coisa que lhes interesse, se vêem em uma arena global fluida de influência e identidade. A arte deles não mais está confinada à indianidade em assunto ou estilo, e o assunto surge em toda conversa sem que seja instigado.

Bebendo lassi, uma bebida à base de iogurte e água, em seu estúdio em Nova Déli em uma tarde recente, Subodh Gupta (sem parentesco com Shilpa) disse que tem resistido ao avanço dos gostos globais. Enquanto falava, dois assistentes nas proximidades poliam silenciosamente as superfícies de "Miter" (mitra), uma grande escultura em múltiplas partes de panelas de aço inoxidável em cascata.

"Nós estamos viajando, nos informando muito mais, e a informação nos dá conhecimento útil", ele disse. "Mas minha obra com estas panelas e utensílios de aço inoxidável vem da minha infância de classe média-baixa, das lembranças da família e dos rituais em torno da comida. Esta é a minha linguagem, a minha força. Se fizer arte apenas para o mercado, eu não sou nada."

Nem todos vêem as obras feitas atualmente como concebidas de forma séria. O editor da "Art India", Abhay Sardesai, disse que muitos estão tentando exageradamente se localizar ou globalizar, dependendo da visão de cada um, explorando símbolos comuns da cultura indiana de forma ao "caráter local ser açoitado para a criação de um espetáculo para consumo internacional".

Mas é o caráter local, é claro, que torna a obra indiana interessante as ascender no firmamento da arte contemporânea de peso. Há um senso quase infinito de localidade aqui, com 22 línguas, uma ampla literatura que remonta 3.500 anos e um caldeirão de conflito e coexistência entre hindus e muçulmanos na maior democracia do planeta.

Gayatri Sinha, uma crítica e curadora em Nova Déli, sugere que mais do que qualquer outra fonte de influência, é a política do subcontinente que molda o contexto no qual a arte indiana é criada hoje. Husain, geralmente considerado o pintor mais importante do país, passou seu 92º aniversário no exílio, devido às ameaças de grupos hindus enfurecidos com suas pinturas de deuses e deusas nus.

O cineasta Amar Kanwar, que recentemente mostrou "The Lightning Testimonies" (os testemunhos relâmpagos), sua instalação de vídeo sobre violência sexual contra mulheres indianas, no Documenta 12 em Kassel, Alemanha, disse que os artistas na Índia são "contestados ideologicamente a cada passo que dão".

"Esta é uma sociedade extremamente intolerante, uma sociedade extremamente racista", ele disse em uma entrevista em seu escritório, em um bairro de classe média de Nova Déli. "Você enfrentará censura, mas pode criar um espaço de trabalho aqui."

"Os artistas indianos estão sendo exibidos em todo mundo e todo dia eles precisam decidir como confrontarão sua sociedade e a si mesmos. Eles serão críticos ou apenas produzirão obras para o mercado."

Mas um tom de desafio surgiu em sua voz, um tom freqüentemente ouvido em resposta a perguntas sobre este assunto: por que os ocidentais freqüentemente presumem que a globalização apenas ocorre em mão única -do Ocidente para o Oriente?

O marchand Deepak Talwar, com galerias em Nova York e Nova Déli, disse: "A verdadeira história do modernismo ainda não foi escrita. Tudo gira em torno da Europa e Nova York. Mas isto dificilmente engloba todo o modernismo. Daqui cem anos, as pessoas rirão desta visão estreita da história".

Mas enquanto isso, o mundo da arte indiana está escrevendo o mais recente capítulo de sua história em ritmo frenético. Certa noite, Atul Dodiya e sua esposa, Anju, dois dos mais proeminentes artistas contemporâneos, estudavam o público na festa de fechamento da Chemould Gallery em Mumbai, um dos espaços mais antigos e respeitados para nova arte desde seu início magro nos anos 70. Os donos da galeria estavam se despedindo de seu espaço apertado de 74 metros quadrados.

Foi um momento de peso simbólico, o fim da velha cena de arte indiana e o início da nova. Sua nova galeria, a Chemould Prescott Road, é quatro vezes maior que a antiga.

"Eu tenho tantas lembranças deste espaço", disse Dodiya. "Era quase um mundo diferente. Nós estamos felizes com este boom, mas preciso fazer arte que signifique algo para mim, não apenas para o mercado internacional.

"O Ocidente pode estar conosco, mas a Índia, a India está profundamente na minha mente." George El Khouri Andolfato

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