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07/10/2007

Amor Moderno: Ao alcance da mão, mas longe demais

The New York Times
Saba Ali
David Chelsea/The New York Times 

Quem diria que ficar de mãos dadas, o ato que marca o início de tantos relacionamentos, seria o fim do meu? Parece que os mulás (líderes religiosos) têm razão quando agitam o dedo contra as relações pré-matrimoniais de qualquer tipo.

Nascida no Quênia, de origem indiana, vim para os EUA com 6 anos, instalando-me com minha família no interior de Nova York. Ao crescer como muçulmana num subúrbio americano, não vivi o típico método de paquera de "Dawson's Creek": o flerte, a briga, as pazes e o sexo.

Para as muçulmanas que usam lenço na cabeça, como eu, a interação pré-marital entre os sexos (tocar, conversar ou mesmo olhar) é estritamente controlada. Nossas mesquitas têm entradas e escadas separadas para homens e mulheres. Homens e mulheres rezam, comem e se reúnem separadamente. Nos jantares em casas de famílias, as mulheres saem da sala de jantar para que os homens possam se servir à vontade de curry picante e kebabs. As comemorações de família são segregadas: os meninos sentam-se de um lado da sala, as garotas do outro e os casais no meio.

Em público -na escola, no shopping center ou no cinema- as interações com meninos não-muçulmanos tendem a ser menos restritas, mas ainda são formais. Um empurrão dado de brincadeira por um menino exigiria uma desajeitada explicação de que tocar é contra minha religião.

Por isso minhas amigas e eu tínhamos altas expectativas em relação ao casamento, que deveria acontecer logo depois da formatura na faculdade. É quando nossos pais, muitos dos quais tiveram casamentos arranjados, nos diriam que estava na hora de encontrar o homem com o qual acordaríamos pelo resto de nossas vidas, se Deus quisesse. Eles apenas não nos diziam como.

Não havia dicas de nossas mães ou de qualquer outra pessoa sobre como encontrar o homem certo ou falar com ele. Simplesmente se espera que nossas vidas consistam em duas fases: solteira e na companhia de mulheres e depois casada e na companhia de um homem. Não há um terreno intermediário e nenhum mapa para ajudar a passar de uma fase para a seguinte.

Mas desde que eu era menina sonhava como seria conhecer meu marido, as conversas profundas que teríamos e como cairíamos nos braços um do outro (falando figurativamente, pois qualquer forma de abraço só viria depois do casamento).

Tudo deve começar com uma conversa, mas não privativa. Minhas amigas e eu as chamamos de "reuniões", e em certo sentido é o que são. A mulher chega com sua acompanhante, um membro da família, e o homem vem com o seu. "Felizes para sempre" é uma decisão prática entre duas partes. Os temas de conversa incluem perguntas como "O que você espera do seu marido?" e "Você se importaria se meus pais tivessem de morar conosco depois da recepção?"

Parece simples, mas não é para alguém cuja interação social fora de casa se limita a professores, vendedores e chefes não-muçulmanos. Com o tempo eu desisti da supervisão de uma terceira pessoa, poupando-me a humilhação.

Mas hoje, com 29 anos, apesar de todas as minhas "reuniões", continuo solteira. E nos últimos cinco anos esgotei a paciência de minhas tias e amigas casamenteiras que propunham os amigos de infância de seus maridos.

Comecei a entrar em pânico quando percebi que as pessoas deixaram de me perguntar como ia minha caça ao marido. Eu era velha demais para ir à escola de fim de semana na mesquita, onde as adolescentes de lenço na cabeça e jeans justos olham para os meninos à distância (fingindo não olhar). Mas eu não estava no ponto em que consideraria importar um marido da Índia.

Apesar de minhas amigas me dizerem que minhas expectativas eram altas demais e que na minha idade minha lista de requisitos não era prática, eu discordava. Só queria me sentir segura, esperando um dia passar a vida ao lado de meu companheiro.

Foi por isso que meu interesse se aguçou no ano passado, quando uma amiga da faculdade me falou sobre um radiologista de 30 e poucos anos que também estava frustrado com as dificuldades do namoro muçulmano contemporâneo. Vivíamos a horas de distância um do outro, mas concordei em fazer a viagem para nosso primeiro encontro, e decidimos que seria para um lanche em um pequeno café francês perto do Central Park.

Eu pedi panquecas, correndo o risco de sujar meu lenço branco com molho de morango, e escutei enquanto ele falou sobre seus antigos relacionamentos. Não era o tema mais apropriado para um primeiro encontro, talvez, mas para mim era mais confortável do que as típicas perguntas práticas: "Você sabe cozinhar?", "Quantos filhos quer ter?". Enquanto ele falava sobre as garotas que partiram seu coração ou os corações que ele partiu, eu olhava para suas mãos, imaginando como seria tocá-las.

Depois do lanche passeamos pelo parque, vendo casais que se beijavam nas sombras. Falei tranqüilamente sobre minhas confusões, ambições, fé e medo de tomar a decisão errada sobre o casamento. Eu disse a ele que queria alguém que gostasse de comer fora, que rezasse cinco vezes por dia e não bebesse álcool, e que olhasse para as garotas quando falasse com elas. Ele disse que queria uma esposa que não fosse conservadora e se desse bem com seus amigos não-muçulmanos.

Depois de conhecê-lo, senti-me satisfeita por ter esperado tanto tempo para encontrar alguém. Ele tinha a maioria dos quesitos da minha lista mental.

Continuamos nos conhecendo por telefone, muitas vezes conversando durante horas. Eu atendia suas ligações imediatamente, em vez de retornar mais tarde como tinha feito com outros solteiros. Se eu estivesse dirigindo quando ele ligava, ficava rodando sem destino para que nossa comunicação não terminasse. Eu ainda não tinha contado a meus pais sobre ele, pois não queria atiçar as esperanças de minha mãe.

Nosso principal problema, porém, era a diferença de nossos níveis de religiosidade; ele não pretendia se casar com alguém que usasse o tradicional lenço na cabeça, o "hijab". Sua mulher ideal era menos rígida, mais secular. Ele não se sentia à vontade com pessoas que usavam sua crença na manga ou na cabeça, como era o meu caso.

Mas eu gostava desse reconhecimento. Cobrir-me foi uma opção que fiz no colégio, em parte por necessidade de uma identidade e em parte por medo. O medo veio do fato do que ouvi no acampamento de verão muçulmano. Em vez de histórias de fantasmas, nos contavam histórias sobre "o dia do julgamento final", as coisas terríveis que aconteceriam se você se afastasse de Deus, o que me assustou o suficiente para começar a cobrir minha cabeça e rezar.

Nos anos desde então esse medo se transformou em compreensão. A maioria das garotas diz que o lenço é um sinal de recato. Eu o vejo como uma proteção. Ele me impede de tomar decisões tolas.

Para mim o lenço é mais que um pedaço de tecido -é um modo de vida. As liquidações de inverno se tornam a moda do verão, oferecendo o visual longo, frouxo e em camadas que não encontramos nos meses mais quentes. Os provadores nas lojas de departamentos se transformam em santuários de oração. As noites de sexta-feira são para filmes e restaurantes, não para beber e ir a boates. Na minha noite de núpcias, tirar a roupa significaria soltar o lenço e deixá-lo cair.

Para fazê-lo superar sua hesitação, eu planejei que nossos encontros ocorressem em locais públicos. Jogamos golfe miniatura, comemos em restaurantes e fomos apanhar amoras. Eu via sua objeção como um desafio, um projeto. Queria convencê-lo de que apesar de eu continuar usando o hijab não tinha importância, porque ninguém realmente prestava atenção no lenço depois do primeiro olhar.

E eu também tinha minhas dúvidas, mas temia admiti-las. Por que deveria levar isso adiante se não estávamos combinando em termos de religião? Como poderíamos formar um bom casal, se ele não aprovava meu lenço? Eu teria de mudar? E deveria?

Certa noite ele me telefonou e contou que tinha ido a um bar com alguns amigos. "Eu visualizei como seria se você estivesse sentada ao meu lado", ele disse.

"E como seria?", perguntei.

"Bom", ele disse. "Administrável."

Depois disso eu finalmente liguei para minha mãe e lhe contei sobre ele.

Antes dele eu nunca tinha passado do segundo encontro. Mas agora já estávamos nos aproximando do quarto encontro -na minha cabeça, tempo mais que suficiente para decidir se um homem serve para você.

Então veio a noite do cinema, idéia dele. Sou fanática por cinema e lembro dos detalhes de quase todos filmes a que assisti. Mas não consigo me lembrar do título do que vimos naquela noite, só que o cinema estava quase vazio e não dissemos muita coisa enquanto esperamos o filme começar.

Eu olhava para ele e sorria, convencendo-me de que o peso que eu sentia era por estar em território desconhecido. Estávamos avançando, falando sobre conhecer as respectivas famílias. Então, quando ele se inclinou e perguntou "Posso segurar sua mão?", eu achei que não poderia dizer não. Gostei de vê-lo correr o risco.

Com quase 30 anos, eu tinha pensado em ficar de mãos dadas com um rapaz desde que era adolescente. Mas sempre era no contexto do dia do casamento. Entrando em nossa festa como marido e mulher, de mãos dadas, desfrutando naquele momento o saber que era para sempre. As palmas das mãos unidas, um circuito fechado, em que os dedos longos dele envolviam firmemente minha mão pequena.

As garotas não-muçulmanas podem imaginar seu primeiro beijo ou, mais tarde, a perda da virgindade, e muitas vezes essa primeira experiência tão esperada vem a ser vergonhosa e decepcionante, ou até o fim do relacionamento.

Eu pensei que estava correndo o mesmo risco, mas para mim seria a primeira vez que estaria realmente tocando a mão de um marido potencial. Qual seria a sensação? Me convenceria de que era realmente ele? Toda uma vida de expectativas culminou nesse simples gesto em um cinema escuro, sobre um apoio de braço pegajoso.

Não tenho certeza se é possível segurar as mãos do jeito errado, mas não estávamos fazendo certo. Parecia estranho a minha mão embaixo da dele, por isso mudamos de posição, com meu braço por cima e a mão dele aninhando a minha. Continuou desconfortável, e logo minha mão ficou dormente, o que não era a sensação excitante que eu esperava. Finalmente a retirei.

Mas o dano estava feito. Tínhamos quebrado a regra da ausência de contato, e ao fazê-lo eu percebi que não queria ser o tipo de garota que ele desejava. Acredito em minha religião, nas regras, nos motivos e até nas restrições. Ao mesmo tempo, sempre quis me casar, e a idéia de nunca conhecer esse lado meu, de esposa e mãe, me assusta. Estar com ele me fez comprometer minha fé, e o medo de ficar sozinha me levou a ignorar minhas dúvidas sobre o relacionamento.

Quando fomos longe demais, eu me fechei. Não era assim que devia acontecer. Depois daquele encontro nos separamos e nunca mais o vi. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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