UOL Notícias Internacional
 

09/10/2007

Che era comunista, mas hoje vende até biquínis

The New York Times
Marc Lacey

Em Santa Clara, Cuba
Aleida Guevara March, a filha de 46 anos de Che Guevara, disse que pode tolerar as camisetas de Che, os chaveiros de Che, os cartões postais de Che e as pinturas de Che vendidas por toda Cuba, sem contar o mundo.

Pelo menos alguns dos compradores realmente apreciam Che, ela disse. Na segunda-feira, ela estava cercada por milhares de fãs de Che vestindo sua imagem aqui em Santa Clara, onde se encontram os restos mortais de seu pai e onde ela estava sentada na primeira fila, na cerimônia do 40º aniversário de sua morte.

Raúl Castro, o presidente em exercício, estava presente. Foi lida uma mensagem de seu irmão mais velho, Fidel, que cedeu o poder em agosto de 2006 após uma cirurgia de emergência, comparando seu antigo companheiro de armas a "uma flor arrancada prematuramente do caule".

Jose Goitia/The New York Times 
Turista em Santa Clara, Cuba, escolhe cartões postais com a imagem de Che Guevara

Mas em meio à toda cerimônia, o que realmente chama atenção de Aleida é o uso do homem que ela chama de "papi" de formas que ela diz não terem nada a ver com seus ideais revolucionários, como quando um estilista recentemente colocou Che em um biquíni.

De fato, 40 anos após sua morte, Che -nascido Ernesto Guevara de la Serna- é tanto um instrumento de marketing quanto um ícone revolucionário internacional. O que gera a pergunta sobre o que exatamente a simples proliferação de sua imagem -o olhar distante, a barba desgrenhada e a boina adornada com uma estrela- significa em um mundo decididamente capitalista?

Mesmo em Cuba, um dos últimos bastiões do comunismo do mundo, Che é usado tanto para ganhar dinheiro como para dizer algo. "Ele vende", reconheceu um lojista cubano, que tinha um Che atrás de outro olhando de uma parede cheia de camisetas.

Mas ao menos aqui ele é usado para inspirar a próxima geração de cubanos. As crianças invocam seu nome na escola toda manhã, declarando com uma saudação: "Nós queremos ser como Che". Suas citações são recitadas quase com a mesma freqüência que as de Fidel Castro.

"Não há dúvida de que quando Fidel morrer algum dia, sua imagem será como a de Che", disse Enrique Oltuski, o vice-ministro da pesca e um contemporâneo dos dois homens. Mas o status mítico de Che de revolucionário local não se estende para toda parte, como sua imagem. Quando lojas da Target nos Estados Unidos colocam sua imagem em um porta-CDs no ano passado, os críticos que o consideram um assassino e símbolo do totalitarismo pressionaram a rede de varejo a retirar o item das prateleiras.

"O que virá a seguir? Mochilas do Hitler? Panelas do Pol Pot? Meia-calça do Pinochet?" disse o "Investor's Business Daily" em um editorial, chamando o uso da imagem de um exemplo de "tirano-chique".

A imagem famosa de Che, de autoria do fotógrafo cubano Alberto Korda Diaz, foi tirada em 5 de março de 1960, em um funeral para dezenas de cubanos mortos na explosão de uma embarcação, que os cubanos atribuíram aos Estados Unidos. A foto ficou famosa após aparecer na revista "Paris Match" em 1967, poucas semanas antes de Che ser morto por soldados na Bolívia, aparentemente auxiliados pela CIA.

Korda, que morreu em 2001 aos 72 anos, nunca recebeu royalties, mas processou uma agência de publicidade britânica pelo uso da foto em uma campanha de vodca. Ele obteve US$ 50 mil, que doou para compra de medicamentos para crianças.

Aleida e sua família também tentam impedir a comercialização da imagem de Che de formas que consideram abomináveis. Ela disse ter contatado advogados em Nova York, que não quis identificar, para processar empresas que a família considera estarem usando indevidamente a imagem, não em busca de indenização, mas para impedi-las.

"Nós não estamos atrás de dinheiro", ela disse. "Nós apenas não queremos o uso indevido. Ele pode ser uma pessoa universal, mas respeitem a imagem."

Parte do estrelato de Che foi transferido para seus quatro filhos, um dos quais, Ernesto Guevara, foi de motocicleta ao memorial na segunda-feira, como seu pai. Os cubanos abraçam os Guevaras na rua e os turistas sorriem quando descobrem quem são.

"Eu fico arrepiado", disse Alfredo Moreno, um mexicano de 32 anos que posou para uma foto com Aleida Guevara, claramente tomado de emoção. "Eu não posso descrever para você o que este momento significa para mim", ele disse.

Enquanto Moreno não parava de falar, Aleida lhe pediu para parar com as palavras bajuladoras.

"Eu sou filha de Che", ela explicou, "mas não sou Che".

Aleida é na verdade uma pediatra e mãe de dois filhos, que prefere meias-calça em vez de uniformes militares. Ela mais se parece com uma mãe que leva os filhos para o treino de futebol do que uma revolucionária.

Sua irmã é uma veterinária. Um irmão administra um centro dedicado a Che em Havana. E há Ernesto, um aficionado por Harley-Davidson. Todos são chamados pelo governo cubano de tempos em tempos para ajudar a manter o legado de seu pai.

É possível detectar um pouco de exaustão em tudo isto, particularmente agora, quando Cuba e grande parte da América Latina estão realizando grandes eventos lembrando sua morte e, em junho próximo, aquele que seria seu 80º aniversário.

"Eu não posso estar em toda parte", disse sua filha. "Eu não posso me multiplicar."

Ela viaja pelo mundo falando em conferências sobre Che. Em uma na Itália, ela soube após autografar camisetas para alguns jovens que estes eram fascistas. "Eles não sabiam nada a respeito dele", ela disse com um suspiro.

Certa vez, ela disse, ela encontrou John F. Kennedy Jr. na Europa e eles discutiram a dificuldade de serem filhos de homens famosos. Ela o chamou de uma "bela pessoa" e disse que conseguiu separá-lo de seu pai, que ordenou a invasão da Baía dos Porcos para tentar derrubar o governo que Che ajudou a instalar em Cuba.

Mas a menção da política externa americana faz surgir uma semelhança com seu pai. O discurso feroz flui quando ela discute a guerra no Iraque. Ela considera o embargo econômico a Cuba, que já dura 50 anos, "tão brutal, tão estúpido, tão irracional".

E nem a estimule a falar sobre o governo Bush. George El Khouri Andolfato

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