UOL Notícias Internacional
 

09/10/2007

Marxistas ganham força nas coalizações políticas da Índia capitalista

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli
Para um forasteiro, Prakash Karat e a organização que ele lidera, o Partido Comunista da Índia (marxista), soariam como anacronismos na economia capitalista em expansão que é a Índia de hoje.

Mas, de uma forma que teria sido considerada improvável, ao capitalizar o aprofundamento da amizade da Índia com os Estados Unidos, Karat e o seu partido emergiram recentemente como uma arma afiada e perigosa contra o governo de coalizão, deixando claro que, embora os comunistas não tenham força para governar a Índia, eles contam com o poder para atrapalhar os planos daqueles que governam o país.

Na noite de segunda-feira (08/10), quando o diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed ElBaradei, se dirigia para a Índia para aquilo que o governo descreve como uma visita de rotina e planejada com bastante antecedência, os desentendimentos políticos se intensificavam, e especulava-se que as relações cada vez mais tensas entre o partido de Karat e o governo que este apóia estariam a ponto de serem rompidas.
Manan Vatsyayana/AFP - 24.set.2007
Rahul Gandhi (dir.), secretário geral do Partido do Congresso e filho da diretora do partido, Sonia Gandhi (esq.)


A matemática eleitoral indiana faz com que seja impossível para o governo de coalizão do primeiro-ministro Manmohan Singh, que é liderado pelo Partido do Congresso, governar sem o apoio dos seus aliados comunistas, e principalmente do partido de Karat. E, assim, caso Karat concretize as suas ameaças veladas de retirar o seu apoio, o governo não conseguirá permanecer no poder, e novas eleições terão que ser realizadas antes que o mandato de cinco anos expire em 2009.

Agindo de forma hostil, Karat acenou ameaçadoramente com "sérias conseqüências", caso o governo Singh prossiga com as suas negociações relativas ao acordo nuclear com os Estados Unidos. Ele enxerga o acordo como parte de uma aliança estratégica com os Estados Unidos, com o objetivo de aumentar o peso norte-americano na Ásia. E Karat não deseja que isso aconteça.

"Não queremos ser um outro Japão", declarou Karat. "Isso não atende aos nossos interesses".

O acordo nuclear, iniciado pelo governo Bush, aprovado provisoriamente pelo congresso dos Estados Unidos e descrito como uma peça central do novo relacionamento entre os dois países, permitiria à Índia comprar tecnologia nuclear para a geração de energia. O acordo exigiria que a Índia negociasse acordos separados com a Agência Internacional de Energia Atômica e com o Grupo de Fornecedores Nucleares, que tem 45 membros.

O Partido do Congresso parece estar arregaçando as mangas para uma batalha. O descendente de quarta geração da dinastia Gandhi-Nehru, Rahul Gandhi, foi recentemente alçado ao cargo de um dos 11 secretários gerais do partido. A sua mãe, Sonia Gandhi, a diretora do partido, declarou no último domingo que aqueles que se opõem ao acordo são "inimigos" do progresso.

"Não precisamos ceder os nossos interesses vitais para os Estados Unidos", vociferaram de volta os partidos de esquerda em uma declaração emitida na segunda-feira.

Autoridades governamentais têm argumentado que o acordo nuclear não significa a renúncia de uma política externa independente, uma afirmativa que parece ter sido confirmada mais recentemente com relação a Mianmar, a antiga Burma. A Índia cultiva boas relações com os governantes militares de Mianmar e, contrastando com os pedidos norte-americanos de sanções, os indianos pouco se manifestaram em relação à repressão lançada contra os manifestantes contrários ao governo, exceto para sugerir gentilmente que se faça uma investigação a respeito do assassinato de ativistas.

Estranhamente, o grupo de Karat tem se colocado mais próximo à posição norte-americana em relação a Mianmar, exigindo uma maior pressão sobre a junta militar. Os esquerdistas indianos condenam a política norte-americana no Iraque e gostam de enfatizar os tradicionais vínculos estratégicos e culturais da Índia com o Irã.

Foi o acordo nuclear que desencadeou as mais fortes ameaças de Karat ao governo, e não uma série de questões que seria de se esperar que enfurecessem os comunistas, como as péssimas estatísticas referentes à desnutrição infantil na Índia, ou a situação precária do sistema de saúde pública do país.

Os comunistas, que há muito tempo fazem parte do universo político indiano, raramente tiveram tanta influência como nos últimos três anos, como aliados do governo. Eles foram acusados de bloquear a liberalização da economia - incluindo a entrada no país de redes de lojas estrangeiras -, de obstaculizar as mudanças propostas para as leis trabalhistas e de se opor ao acordo nuclear com base em uma mentalidade típica da Guerra Fria.

"Existe um sentimento reflexo anti-americano", afirma o historiador Ramachandra Guha. "De certa forma, eles são incapazes de perdoar os Estados Unidos por terem vencido".

Guha diz também que é preciso reconhecer que os comunistas são menos corruptos do que os demais partidos, e que eles impediram a violência contra as minorias religiosas nos Estados que controlaram. Tal violência tomou conta de muitas outras regiões da Índia.

Shekhar Gupta, editor do jornal diário em língua inglesa "The Indian Express" e um dos maiores críticos de Karat, afirma que a oposição do Partido Comunista da Índia ao governo não tem nada a ver com desempenho, mas apenas com ideologia.

"Nada irrita mais a esquerda do que ver pessoas que seguem outras ideologias governarem com sucesso", critica Gupta.

Os comunistas indianos brigam entre si devido às suas próprias desavenças ideológicas. Por exemplo, Karat não cessa de fazer soar o tambor antiamericanismo, enquanto os seus camaradas em Bengala Ocidental, um Estado governado pelos comunistas, cortejam a indústria norte-americana para que esta revitalize uma economia anêmica.

Esse ímpeto de industrialização dirigido pelo Estado - há quem chame isso de política comunista bengalesa de menos foice e mais martelo - gerou violentos protestos camponeses, e alguns dizem que enfraqueceu a posição do partido em um dos seus dois Estados-chaves. O Estado de Kerala é o outro. O partido ocupa 43 das 545 cadeiras no parlamento, e eleições antecipadas não fariam necessariamente com que esta situação dos comunistas melhorasse.

É esperar para ver se a realpolitik vencerá a ideologia. De qualquer forma, Karat se define como um ideólogo. "Nós não chegaremos ao poder", admite ele com franqueza. "O que podemos é ganhar ou perder cadeiras no parlamento".

Quanto ao governo, Karat representa apenas uma das diversas preocupações relativas ao comunismo. A Índia tem um outro grupo de comunistas: os guerrilheiros maoístas, que não se interessam por eleições, mas que são progressivamente, e violentamente, ativos em vários graus de intensidade em 13 dos 28 Estados indianos. O primeiro-ministro definiu esses comunistas como sendo a maior ameaça à segurança interna da Índia. UOL

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