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09/10/2007

Noruega explora campo de gás gigantesco no Oceano Ártico

The New York Times
Jad Mouawad
Em Hammerfest, na Noruega
Durante um quarto de século, os executivos do setor de energia ficaram fascinados pelas enormes quantidades de gás natural em uma das regiões mais inóspitas do mundo - 145 quilômetros ao norte da costa da Noruega, sob o Oceano Ártico.

Ventos cortantes e tempestades de neve freqüentes varrem a região. O sol desaparece durante dois meses por ano. Nenhuma companhia petrolífera sabia como operar em um ambiente tão hostil.

Mas a Noruega finalmente resolveu o problema. Recentemente, em uma ilha próxima à costa, uma enorme chama amarela iluminava o céu daqui. Era apenas uma chama temporária para queimar o excesso de gás, mas o fato assinalou o início de uma nova era na produção de energia.

Geir Jenssen/The New York Times 
Vista da usina de gás natural na ilha Melkoya, próxima à costa da Noruega

Do outro lado da baía, a partir desta pequena aldeia de pescadores na qual as renas vagam pelas ruas, está surgindo uma das mais avançadas unidades de produção de gás natural do mundo. Dentro de algumas semanas, o gás começará a atravessar o oceano em navios especialmente projetados, abastecendo a rede de gasodutos da costa leste dos Estados Unidos. Antes do Natal, fornalhas no Brooklyn e fogões em Washington estarão queimando esse gás. Essa será a primeira produção comercial de energia oriunda das águas ao norte do Círculo Polar Ártico.

À medida que a demanda global dispara e os preços aumentam, as companhias de energia estão indo até os confins do planeta em busca de novas reservas.

No Cazaquistão, os engenheiros petrolíferos têm enfrentado oscilações extremas de temperatura nas águas rasas do Mar Cáspio a fim de explorarem a maior reserva de petróleo descoberta nos últimos 30 anos. Eles estão perfurando poços com uma profundidade de 9,7 quilômetros no Golfo do México. E na Ilha Sacalina, ao largo da costa leste da Rússia, esses técnicos perfuram poços horizontais através de quilômetros de rochas para extrair petróleo em uma faixa de oceano famosa pelos seus icebergs gigantes.

Mas, conforme a indústria vai estendendo os seus limites de atuação, o trabalho torna-se mais árduo. O custo da produção de mais petróleo e gás está subindo rapidamente, e as companhias enfrentam atrasos cada vez piores. Há escassez de plataformas de perfuração. Existe uma falta crítica de engenheiros, geólogos e especialistas em petróleo no mercado. E as políticas para os setores de petróleo e gás estão ficando cada vez mais complicadas, já que os países produtores têm exigido uma fatia maior dos lucros, além de se mostrarem cada vez mais furiosos com as postergações dos projetos, que atrasam os seus pagamentos.

Os executivos da indústria dizem que a sua capacidade de acompanhar a demanda global está bastante reduzida.

"Estamos enfrentando riscos e dificuldades maiores ao nos deslocarmos para essas novas fronteiras", alerta Odd A. Mosbergvik, gerente da StatoilHydro, a maior companhia energética da Noruega. "Mas é por isso que a indústria do petróleo é só para gente grande. Trata-se de uma grande aposta".

As novas incursões da indústria em tais áreas estão modificando a estrutura econômica da extração de petróleo e gás. Segundo um estudo recente, os custos de descoberta e desenvolvimento, um indicador fundamental para a indústria, triplicaram entre 1999 e 2006, chegando a quase US$ 15 por barril. Só no ano passado, as companhias investiram US$ 200 bilhões desenvolvendo novos projetos de energia em todo o mundo, segundo o estudo das empresas de consultoria John S. Herold Incorporation e Harrison Lovegrove. Essa cifra é maior do que o tamanho da economia nacional de 147 países.

Esses custos elevados significam que a indústria necessita de preços mais altos da energia para o financiamento de novos projetos. Os custos estão também limitando a capacidade das empresas de se expandir com rapidez.

"Não sobraram barris fáceis de se explorar", explica J. Robinson West, diretor da PFC Energy, uma empresa de consultoria do setor em Washington. "Os únicos barris que restaram são aqueles de difícil extração".

Sendo os executivos do ramo, ainda existe bastante petróleo e gás debaixo da terra. Mas o consumo global tem aumentado tão rapidamente que é preciso continuar procurando novas fontes. Apesar da preocupação mundial com o aquecimento global e da contribuição dos combustíveis fósseis para esse problema, especialistas do governo dos Estados Unidos prevêem que a demanda global por petróleo e gás aumentará 50% nos próximos 25 anos.

Ao mesmo tempo, os grandes campos descobertos nas últimas três décadas, como aqueles no Mar do Norte e na região de North Slope, no Alasca, estão secando. Isso está fazendo com que as companhias petrolíferas se desloquem para regiões remotas como Hammerfest.

Os Estados Unidos precisarão importar cerca de um quinto do gás natural que utilizam até 2030, a maioria dele na forma liqüefeita, transportada através dos mares por navios-tanques. Tais importações deverão mais do que sextuplicar entre 2005 e 2030, de acordo com a Administração de Informações Sobre Energia do governo dos Estados Unidos. E o consumo está crescendo aceleradamente nos economicamente dinâmicos países asiáticos.

"Os consumidores exigem gás, e precisamos garantir as reservas, ainda que estas estejam no fim do mundo", afirma Bill Cooper, diretor-executivo do Centro de Gás Natural Liqüefeito, um grupo vinculado à indústria de gás.

É claro que a produção de gás e petróleo nas regiões polares não é algo inteiramente novo. Os engenheiros russos vêm fazendo esse trabalho na Sibéria há décadas, com resultados mistos, e a região de North Slope, no Alasca, é há muito tempo o mais importante campo de petróleo dos Estados Unidos.

Mas esses campos ficam em terra. O campo norueguês é o primeiro projeto ártico dedicado à exploração de reservas de petróleo e gás no mar, em águas com profundidades superiores a 300 metros, onde os métodos tradicionais de exploração seriam muito caros.

O campo de gás, 550 km ao norte do Circulo Polar Ártico, em uma faixa de oceano mais comumente conhecida como Mar de Barents, é chamado Snow White ("Branca de Neve") - ou Snohvit, na Noruega, onde os projetos do setor de energia costumam ser batizados com nomes de personagens míticos. Embora o campo tenha sido descoberto em 1981, durante muito tempo os executivos do ramo consideraram as riquezas de Snohvit inalcançáveis, devido aos blocos de gelo à deriva, às ondas brutais e ao frio extremo que são comuns no Mar de Barents.

"Aquele é considerado um lugar inóspito, até mesmo para os padrões noruegueses", afirma Mosbergvik.

Um outro grande problema enfrentado pelos engenheiros daqui é o fato de Snohvit estar situado a centenas de quilômetros da rede tradicional de gasodutos da Noruega. No decorrer dos anos, a Statoil cogitou diversas maneiras de chegar até o gás, incluindo enormes plataformas dotadas de um sistema de blindagem contra as ondas, mas esses projetos acabaram descartados por serem muito dispendiosos. Também ficou fora de questão construir um enorme gasoduto submarino que transportaria o gás para o sul ao longo da comprida costa do país.

Finalmente os engenheiros da Statoil encontram uma solução engenhosa. Eles instalaram equipamentos de produção diretamente no fundo do mar, sem nenhuma plataforma na superfície. As estruturas construídas nas bocas dos poços são ligadas por 145 km de gasodutos até uma pequena ilha próxima a Hammerfest. Uma substância anticongelante é injetada nas tubulações para impedir que o gás natural as obstrua no seu percurso até a costa.

Na ilha, chamada Melkoya, a Statoil construiu uma unidade de processamento para separar a mistura de gás natural, petróleo, água e dióxido de carbono que flui do campo. O gás natural é resfriado a -162ºC, o que faz com que ele diminua seis vezes de volume e se transforme em líquido, podendo depois disso ser transportado em navios-tanques.

A construção da usina de liqüefação no decorrer dos últimos anos necessitou de 22 mil trabalhadores, sendo um dos maiores projetos industriais da Europa, e custou quase US$ 10 bilhões, comparados aos US$ 6 bilhões projetados no início do programa em 2002.

"Não tínhamos a experiência necessária para operar em um ambiente como esse", admite Mosbergvik.

O campo é tão vasto que poderia atender a quase 10% da demanda por gás natural dos Estados da costa leste dos Estados Unidos. A Dominion, uma empresa de energia, ampliou o seu terminal de importação de gás em Cove Point, no Estado de Maryland, a fim de receber o gás proveniente do Ártico, segundo Donald R. Raikes, vice-presidente da companhia para a área de marketing e serviços aos clientes.

Até o final de outubro, o gás da Statoil começará a fluir pela rede de tubulações que corta uma área do país que vai de Maryland a Massachusetts, e que é o maior mercado consumidor dos Estados Unidos, com cerca de 16 milhões de clientes residenciais e cinco milhões industriais.

Com a usina quase pronta, a Statoil garante que o Mar de Barents poderá transformar-se em uma das principais regiões produtoras de petróleo e gás nas próximas décadas. De fato, a utilização mundial cada vez mais acelerada de combustíveis fósseis, ao contribuir para o aquecimento global, poderá acabar fazendo com que o Ártico torne-se mais acessível para a produção de petróleo e gás.

Em Hammerfest, um das localidades habitadas mais setentrionais de todo o mundo, as pessoas combatem o cenário cinzento pintando as casas com tonalidades brilhantes em vermelho e azul. Elas receberam bem o projeto da Statoil, esperando que ele compense os problemas econômicos causados pelo declínio da atividade pesqueira. Construções modernas estão sendo construídas para acomodar a multidão de trabalhadores do setor de exploração de gases. Espera-se que os novos impostos arrecadados da usina de processamento de gás ajudem a financiar um centro cultural.

"Vivemos muito ao norte, e estamos bastante distantes de grande parte das atividades culturais", afirma Kristine Jorstad Bock, a jovem prefeita da cidade. "Mas sabemos que o mundo precisa de mais energia, e queremos que essa extração ocorra no Mar de Barents".

A região já é um foco de intrigas geopolíticas. Em uma bravata que fez lembrar a Guerra Fria, um submarino científico russo plantou recentemente uma bandeira no fundo do mar no Polo Norte, em uma forma de reivindicar uma grande área do Oceano Ártico.

Dentro das suas águas territoriais, a Rússia já é detentora da maior riqueza do Mar de Barents, um campo gigantesco chamado Shtokman, cujas reservas de gás natural são 15 vezes maiores do que as de Snohvit. A Gazprom, a grande companhia estatal russa de energia, recentemente escolheu a Total para ser a sua parceira estrangeira no desenvolvimento do campo, frustrando as esperanças da Statoil de desempenhar um papel maior naquele projeto. Caso a Rússia tenha sucesso, a Europa Ocidental, que já depende de Moscou para o seu suprimento de gás, se tornará ainda mais dependente dos russos.

A Statoil espera dobrar a sua capacidade em Melkoya até 2015. Isso exigirá a descoberta de novos campos de gás no Mar de Barents.

Hans M. Gjennestad, gerente de estratégia da Statoil para a região do Mar de Barents, afirma: "Acreditamos que este recurso potencial possa contribuir significativamente para a segurança de longo prazo dos suprimentos da Europa e dos Estados Unidos". UOL

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