UOL Notícias Internacional
 

09/10/2007

Tendo a Rússia em mente, a Geórgia exibe sua força no Iraque

The New York Times
Andrew E. Kramer

Em Kut, Iraque
Os Estados Unidos encontraram um aliado improvável na luta para bloquear o que os comandantes americanos suspeitam ser um contrabando de armas iranianas para esta região agrícola ao sul e leste de Bagdá: soldados da ex-república soviética da Geórgia.

Em um momento em que outros países estão retirando tropas, a Geórgia mais que dobrou seu número de soldados no Iraque, de 850 para 2.000, e concordou em enviá-los da mais segura Zona Verde, em Bagdá, para esta área ao longo da fronteira iraniana. Isto dá para a Geórgia, uma minúscula nação das montanhas do Cáucaso, a segunda maior presença de soldados entre os aliados dos Estados Unidos no Iraque, atrás do Reino Unido.

Em uma cerimônia marcando o início formal da missão deles na segunda-feira, os soldados se ajoelharam e foram benzidos com água benta por seu padre ortodoxo.

Scott Nelson/The New York Times 
Padre ortodoxo abençoa soldado georgiano ante de início de missão em Kut, Iraque

Mas não é o medo do Irã que leva os georgianos a contribuírem de forma tão significativa para a guerra. Se os Estados Unidos estão à procura de aliados, a Geórgia também está, e ela aspira ao ingresso na Otan como garantia de segurança contra a Rússia.

"Como soldados aqui, nós ajudamos os soldados americanos", explicou o cabo Georgi N. Zedguidze, espiando além do checkpoint queimado de sol enquanto montava guarda na ponte sobre o Rio Tigre. "Então a América como país ajudará o nosso país."

Os Estados Unidos apóiam o ingresso da Geórgia na Otan, mas nenhum país vinculou formalmente o envio de soldados ao Iraque a tal aspiração. As autoridades georgianas minimizaram a idéia de um quid pro quo informal. Elas disseram que após sua decisão inicial de enviar soldados em 2003, o atual contingente reflete o compromisso de manter a segurança.

"Nós devemos mostrar a todos que não estamos recuando e nem fugindo de uma situação difícil", disse o presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, em 9 de março, quando anunciou o aumento no número de soldados.

Mas para os soldados georgianos que arriscam suas vidas para impedir o que é descrito como um tráfico xiita de bombas feitas com penetradores explosivos, o senso de um sinal de entrada para sua própria segurança é forte. Os penetradores são armas que perfuram blindagem e armaduras e que são a principal causa de morte de soldados americanos.

Cerca de uma dúzia de georgianos disseram em entrevistas que entendem seu serviço no Iraque como associado diretamente à sua própria segurança -como um meio de ajudar a Geórgia a ingressar na Otan em um momento em que as ambições internacionais da Rússia estão crescendo novamente.

O sargento Koba Oshkhereli, olhando pelo portão empoeirado da Base Delta de Operações Avançadas para as ruas cheias de lixo de Kut e todo o perigo que ela esconde, colocou desta forma: "O urso estava dormindo. Agora o urso está acordado e batendo seu pé".

Os georgianos não são os primeiros ex-soviéticos ou do Bloco Oriental a chegarem no Iraque com tal noção. Dos 25 países que estão contribuindo com tropas para o Iraque, 18 se enquadram em uma destas categorias, incluindo a Polônia, Ucrânia e pequenos países como a Estônia, segundo um levantamento da Instituição Brookings, em Washington. A maioria é composta de novos membros da Otan ou de aspirantes à filiação.

Dentro da Geórgia, os partidos de oposição criticaram o uso por Saakashvili do envio de soldados como meio do exército receber treinamento americano contra-insurreição, dizendo ser um sinal de que ele pretende usar força militar para recuperar o controle das regiões georgianas separatistas apoiadas pela Rússia, Abkhazia e Ossétia do Sul.

Estender a filiação da Otan à Geórgia envolveria a aliança nestes dois conflitos na instável fronteira sul da Rússia e ao longo das rotas de exportação de petróleo da bacia do Cáspio, em uma região que a Rússia considera como sendo sua esfera de influência. Neste ano, a Geórgia acusou duas vezes a Rússia de disparar foguetes de aeronaves que voavam em espaço aéreo georgiano.

Enquanto isso, o apoio às operações americanas no Iraque está diminuindo. O pico de soldados estrangeiros foi de 25.600 em janeiro de 2004, caindo para 12.300 em setembro, segundo o levantamento da Brookings. O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, disse na segunda-feira que reduzirá a presença britânica pela metade, para 2.500 soldados, no segundo trimestre do próximo ano. Os Estados Unidos contam no momento com cerca de 165 mil soldados no Iraque.

Wasit, uma grande província ao sul de Bagdá onde a Geórgia é no momento a principal contribuidora de tropas, é 98% xiita, mas está dividida em sua lealdade a dois grupos que disputam o domínio: a Organização Badr, um partido com origens entre os iraquianos que desertaram para o Irã durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 80, e o grupo liderado pelo clérigo antiamericano Muqtada al Sadr. Os comandantes americanos dizem que o Irã apóia ambos.

Os georgianos aqui -um grupo rude de montanheses do Cáucaso, muitos deles veteranos de um ou outro conflito pós-soviético- carregam rifles Kalashnikov com cabos de madeira puídos. A brigada adotou uma estratégia baseada nos contatos com a população local e com os xeques tribais, uma abordagem em voga entre os comandantes americanos.

Os soldados georgianos, que chegaram no final de agosto apesar de sua missão formal ter começado apenas na segunda-feira, passaram a oferecer tratamento médico para os iraquianos com males não mortais que aparecem em seus checkpoints. Os pacientes geralmente são crianças com queimaduras de lâmpadas de querosene, comuns em um país onde o fornecimento de eletricidade é apenas intermitente.

O capitão Mamuka Tskrialashvili, que treinou em uma escola russa de soldados pára-quedistas de elite, creditou às consultas gratuitas a criação de um sentimento de boa vontade entre os moradores. Mas ele reconheceu que tais esforços têm limites. No primeiro semestre, em uma missão anterior aqui, os georgianos que montavam guarda no checkpoint na ponte fizeram amizade com um homem que passava de carro com freqüência e sempre acenava. Certo dia, o homem dirigiu até o meio da ponte e explodiu a si mesmo, provocando o colapso dela.

"Ele acenou quando passou", disse Tskrialashvili. George El Khouri Andolfato

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