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10/10/2007

Abundância de arroz da África não chega às mãos dos agricultores

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Hermakono, na Guiné
As sementes são uma maravilha, produzindo colheitas abundantes e aromáticas de arroz, resistentes a secas, pragas e doenças. Mas uma década após a sua introdução, elas só se disseminaram por uma pequena fração da terra, aqui, na África Ocidental, onde poderiam ajudar milhões de famílias camponesas a escapar da pobreza.

Em uma época na qual filantropos como Bill Gates ficam fascinados com a possibilidade de haver uma revolução verde na África, as New Rices for Africa, conforme os cientistas chamam estas sementes maravilhosas, se constituem em uma nítida advertência. Até mesmo as mais promissoras variedades de sementes são incapazes, por si próprias, de gerar as abundantes colheitas que podem acabar com a pobreza. São necessárias novas formas de fazer com que as sementes cheguem às mãos dos agricultores, bem como investimentos mais amplos nos ingredientes básicos de uma economia baseada na agricultura: estradas, crédito e educação agrícola, entre outros.

Desenvolvida com o financiamento de países ricos e fundações privadas, as New Rices for Africa, ou Nericas, não são patenteadas e podem ser cultivadas por qualquer um. Mas existe uma grande carência delas em uma região na qual tanto o setor privado quanto o agrícola são terrivelmente subdesenvolvidos.

James Hill/The New York Times 
Mulher participa da colheita de arroz em região próxima a Camara, na Guiné

"Esta é uma história que se repetiu milhares de vezes na África", afirma Joseph Devries, diretor do projeto de desenvolvimento de sementes que faz parte de um esforço conjunto das fundações Rockefeller e Bill e Melinda Gates, cujo objetivo é estimular a produtividade agrícola na África.

"Temos agricultores bastante dispostos a adotar novas tecnologias e que desejam aumentar a produção, mas eles não estão tendo acesso a sementes, fertilizantes e irrigação em pequena escala", acrescenta Devries. "A descoberta de uma forma sustentável de fornecer as sementes aos agricultores seria a chave para o desenvolvimento agrícola".

Aqui, na África Ocidental, onde o arroz é um alimento básico, o Banco de Desenvolvimento Africano está financiando um programa de US$ 34 milhões em sete países para estimular o uso mais amplo das novas sementes de arroz. Mas os obstáculos são enormes.

Os agricultores geralmente não contam com crédito para comprar sementes e fertilizantes. E a economia agrícola em si padece de uma falta de investimento. O auxílio externo para a agricultura despencou nas últimas duas décadas. E os governo africanos - alguns, como o da Guiné, contam com reservas naturais, mas são marcados pela corrupção - precisam muitas vezes investir uma menor quantidade dessa riqueza no desenvolvimento rural do que seria recomendado.

As estradas decentes para transportar as colheitas até o mercado são escassas. Também há carência de unidades de armazenamento para preservar as colheitas e de seguros para proteger os agricultores contra as secas e as enchentes ou do excesso de produção que, perversamente, faz com que os preços despenquem. Tudo isso pode acabar com o rendimento do qual os agricultores necessitam para garantir uma demanda confiável às companhias de sementes, o que torna a venda e a distribuição das variedades aperfeiçoadas um empreendimento de alto risco.

Em toda a região, um punhado de companhias privadas na Nigéria e em Benin começou a multiplicar e a vender as novas variedades de arroz. Aqui na Guiné, onde não existe nenhuma companhia do gênero, o governo está agora trabalhando junto aos agricultores para expandir a oferta de sementes.

Os moradores de Hermakono viram com inveja, pela primeira vez, as novas sementes de arroz brotando em uma plantação comunitária vizinha. Em 2006, após escreverem ao Ministro da Agricultura da Guiné, eles conseguiram o seu primeiro pequeno lote de sementes.

As sementes eram tão preciosas que, enquanto a primeira plantação crescia, repleta de grãos, os moradores se revezavam na vigília dos campos. "Nós nos dividimos em pequenos grupos para impedir que alguém pudesse roubar uma espiga sequer", conta o agricultor Goulou Camara.

No início de uma manhã, no ano passado, uma dúzia de camponeses fez a sua primeira colheita. Eles giravam em um círculo, chutando espigas douradas de arroz para o ar com os pés descalços e, a seguir, batiam nas espigas com bastões para retirar os grãos. Os agricultores estavam determinados a não comer nada desse arroz, a fim de preservá-lo como semente.

Apenas cerca de 200 mil agricultores africanos estão plantando as novas sementes de arroz, em apenas 5% da terra na qual esta cultura poderia prosperar, segundo o Centro de Arroz da África, uma instituição internacional de pesquisa com sede em Benin que desenvolveu as novas sementes em meados da década de 1990.

Ao contrário da África, a Índia contava com uma base mais forte quando as novas variedades de trigo geraram uma revolução verde em território indiano nas décadas de 1960 e 1970, permitindo que a nação alimentasse centenas de milhões de pessoas. A Índia conta com uma companhia pública de sementes para arcar com os riscos do mercado, além de possuir mais terras irrigadas e um sistema rodoviário melhor.

"Se não desenvolvermos a infra-estrutura, não haverá forma de obtermos uma revolução verde", afirma Monty Jones, o especialista cujas pesquisas inéditas levaram à criação das novas variedades de arroz. "Como é que se leva os Nericas até os agricultores? Como fazer com que os camponeses saibam da existência dessas sementes?".

Atualmente Jones lidera o Fórum de Pesquisa Agrícola na África, com sede em Gana. Ele também integra a diretoria da Aliança por uma Revolução Verde na África, um grupo sem fins lucrativos financiado com uma verba inicial de US$ 150 milhões das fundações Gates e Rockefeller.

A aliança pretende investir US$ 23 milhões para promover a distribuição das sementes promissoras.

Jones, 55, que nasceu na elite descendente dos colonizadores de Serra Leoa, diz ter decidido se dedicar às ciências agrícolas quando era adolescente e ouviu as notícias a respeito de uma convulsão social devido à escassez de arroz na África Ocidental.

Aos 39 anos de idade, ele passou a chefiar uma equipe de desenvolvimento de variedades de arroz para as terras altas e irrigadas pelas chuvas, na Agência de Desenvolvimento de Arroz da África Ocidental, que atualmente chama-se Centro de Arroz da África.

Durante mais de uma geração, os cientistas tentaram sem sucesso combinar a rústica espécie de arroz africana com espécies asiáticas de alta produtividade. Com grande engenhosidade, ele e a sua equipe superaram os obstáculos e produziram as primeiras novas variedades de arroz uma década atrás.

As novas sementes aumentaram as colheitas mesmo sem fertilizantes, e mais do que dobraram a produção quando se usava adubos. O período decorrido entre o plantio e a colheita é de apenas três meses, comparados aos cinco ou seis meses exigidos pelas variedades tradicionais, tornando possível colocar arroz nas mesas das famílias durante a estação da fome.

Mas, para dar continuidade às colheitas maiores, os camponeses precisam de uma fonte confiável de novas sementes. A produtividade diminui quando as novas sementes se degradam após serem misturadas com as variedades locais nos paióis de armazenagem, nos campos e nos assoalhos dos casebres dos agricultores.

Odia Camara, uma agricultora de 30 anos de idade e mãe de cinco filhos, lembra-se de ter visto as novas variedades de arroz crescendo em um campo de testes patrocinado pelo governo perto da sua vila, também chamada Camara, em 1998.

"As espigas eram grandes e grossas, contendo muito arroz, e se inclinavam quando o vento soprava", lembra Camara, que não tem parentesco com Goulou Camara, de Hermakono.

Quatro anos mais tarde, o grupo de Camara, composto de cerca de 50 agricultoras, todas mulheres, e que foi inicialmente organizado para o plantio de verduras e legumes, foi um dos dois grupos na vila a fazer uma experiência com o novo arroz. O governo forneceu a elas meros 25 quilogramas de sementes, bem como fertilizante subsidiado - o suficiente para uma pequena plantação.

Os grupos também obtiveram ferramentas e máquinas básicas para debulhar, descascar e parboilizar o arroz da Sasakawa-Global 2000, uma parceria sem fins lucrativos organizada por Jimmy Carter e Norman Borlaug, o cientista que ganhou o Prêmio Nobel da Paz devido às suas contribuições para a original revolução verde asiática.

Durante os primeiros dois anos, as novas variedades de arroz proporcionaram à vila as maiores colheitas já vistas no local - o triplo da quantidade usual. Havia uma quantidade suficiente do arroz aromático para alimentar as famílias e gerar uma renda para pagar os custos com a educação das crianças. Até mesmo os casamentos problemáticos melhoraram.

"Quando estamos famintos, sequer olhamos um para outro", diz Camara, referindo-se ao marido. "Mas quando o arroz chega, ficamos felizes juntos".

Mas 2004 trouxe sinais de problemas. Os grupos tiveram uma colheita decente, mas a área de terra plantada foi maior, e a colheita menor, porque as novas sementes não eram tão puras.

Em 2005, os doadores internacionais não forneceram fertilizantes à Guiné, o governo também não deu nenhum adubo aos agricultores da área e os comerciantes particulares tampouco trouxeram esse produto ao mercado local, segundo autoridades do governo.

Na estação da colheita, a produção despencou. A fome retornou. O grupo de Camara ficou tão desencorajado que quis desistir de plantar as novas variedades de arroz.

Mas funcionários do governo visitaram a vila no ano passado e as persuadiram a tentar outra vez. O governo forneceu à vila de 2.500 habitantes 68 quilogramas das escassas sementes subsidiadas. Os dois grupos de mulheres dividiram as sementes entre si.

Apesar dos desafios, o novo arroz se propagou mais na Guiné do que em qualquer outro país, cobrindo 16% da área destinada à rizicultura - um progresso que é atribuído ao compromisso dos funcionários públicos e ao entusiasmo da elite política.

Mas as sementes de arroz poderiam ter chegado às mãos de um número bem maior de camponeses caso estes as conhecessem e fossem capazes de comprá-las, dizem os pesquisadores.

As autoridades guineanas reclamam de que os países ricos não investem o suficiente na agricultura. Mas Tareke Berhe, um agrônomo que representou a Sasakawa-Global 2000 na Guiné de 1996 a 2004, diz que o governo deveria ter investido mais nas bases da agricultura. A Guiné é rica em recursos naturais, mas é devastada pela corrupção e há mais de duas décadas é governada por um líder autocrático, Lansana Conte.

"A Guiné não precisa depender de ninguém", afirma Berhe. "É um país rico sobre todos os aspectos. Possui diamantes, ouro e bauxita. E também produtos florestais, madeira. E tem uma longa costa na qual a pesca é abundante".

Enquanto isso, o povo contenta-se com o pouco que tem.

Após uma tarde árdua colhendo arroz no ano passado, Camara sentou-se em frente ao seu casebre de barro com o seu bebê no colo. Anteriormente ela havia falado com entusiasmo sobre a agricultura quando estava rodeada de mulheres, mas ficou em silêncio na presença do seu cunhado mais velho, Aboubacar Oulare, 40, um assistente de saúde comunitária.

Medindo as palavras, Oulare explicou que as novas variedades de arroz representam apenas uma pequena proporção daquilo que os aldeões cultivam. Mesmo assim, ele reconhece que as colheitas aliviaram o sofrimento da sua cunhada analfabeta e da família dela. E diz que se as sementes se disseminarem, elas poderão melhorar mais vidas.

"Elas causaram mudança - não muita, mas alguma", diz ele. "As coisas agora não são como antes". UOL

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