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10/10/2007

Dieta e gordura: um caso grave de consenso equivocado

The New York Times
John Tierney
Viktor Koen/The New York Times 

Em 1988, o surgeon general (chefe da Saúde Pública dos Estados Unidos) C. Everett Koop decretou que o sorvete era uma ameaça à saúde pública comparável ao cigarro. Em uma referência ao famoso relatório de 1964 do seu departamento sobre os perigos do fumo, Koop anunciou que a dieta norte-americana era um problema de "magnitude comparável" ao do cigarro, especialmente devido aos alimentos com alto teor de gordura, que estavam provocando doenças das coronárias e outras enfermidades fatais.

Ele iniciou o seu relatório com as seguintes palavras: "A profundidade da base científica que apóia estas descobertas é ainda mais impressionante do que aquela relativa ao tabaco e à saúde, determinada em 1964".

Foi uma declaração absurda, conforme Gary Taubes demonstra no seu novo livro, "Good Calories, Bad Calories" ("Boas Calorias, Más Calorias"), que demole meticulosamente os mitos referentes às dietas. A idéia de que os alimentos gordurosos abreviam a vida teve início como uma hipótese fundamentada em suposições e dados duvidosos; quando os cientistas tentaram confirmá-la, fracassaram repetidas vezes. A prova contra o sorvete Haagen-Dazs não tinha semelhança alguma com aquela contra o Marlboro.

Pode parecer bizarro que um surgeon general possa ter cometido tamanho erro. Afinal, o seu trabalho não consistia em expressar o consenso científico? Mas esse foi o problema. Koop estava expressando o consenso. Ele, assim como os arquitetos da "pirâmide de alimentos" elaborada pelo governo federal para dizer aos norte-americanos o que comer, acabou errando ao ouvir todo mundo. Koop foi pego naquilo que os cientistas sociais chamam de "cascade" (algo como "erro em cascata").

Gostamos de pensar que as pessoas aprimoram a sua capacidade de julgamento ao conjugar várias mentes, e às vezes é isto o que de fato ocorre. A platéia no estúdio onde é feito o programa "Who Wants to Be a Millionaire" geralmente vota na resposta correta. Mas suponha que, em vez de votarem silenciosa e simultaneamente, os membros da platéia votassem em voz alta, um após o outro. E suponha que a primeira pessoa votasse na resposta errada.

Se a segunda pessoa não soubesse ao certo qual fosse a resposta, ela poderia seguir o exemplo da primeira, chutando na mesma resposta. Depois disso, ainda que a terceira pessoa suspeitasse que uma outra resposta fosse a correta, ela teria mais propensão em escolher a opção anterior, apenas por assumir que os dois primeiros indivíduos juntos soubessem mais do que ela. Assim tem início uma "cascata de erros de informação", à medida que uma pessoa após a outra assume que as outras não podem estar erradas.

Devido a esse efeito, os grupos exibem uma tendência surpreendente a chegar a conclusões equivocadas, ainda nos casos em que a maioria das pessoas começou a tarefa possuindo um bom conhecimento sobre o assunto em pauta, segundo os economistas Sushhil Bikhchandani, Avid Hirshleifer e Ivo Welch. Se, digamos, 60% dos integrantes de um grupo receberam informações dirigindo-os à resposta certa (enquanto o resto de nós conta com informações que apontam para a resposta errada), ainda existe uma chance em três de que o grupo entrará neste efeito cascata e chegará a um consenso errôneo.

Os erros em cascata são particularmente comuns na medicina, já que os médicos obtém as suas pistas a partir de outros médicos, fazendo com que cheguem a um diagnóstico exagerado de alguma doença que esteja na moda (as chamadas "bandwagon diseases") e que prescrevam também de forma exagerada certos tratamentos (como as cirurgias de amídalas, que já foram muito populares para pacientes infantis). Incapazes de acompanhar o volume de pesquisas, os médicos procuram a orientação de um especialista - ou pelo menos de alguém que pareça auto-confiante.

No caso das comidas gordurosas, o dono dessa voz confiante foi Ancel Keys, um proeminente pesquisador de dietas, há meio século (dizem que as famosas rações-K, fornecidas aos soldados norte-americanos na Segunda Guerra Mundial, foram batizadas em homenagem a ele). Na década de 1950 ele ficou convencido de que os norte-americanos estavam sofrendo de uma nova epidemia de doenças cardíacas porque comiam mais gordura do que os seus antepassados.

Havia dois problemas evidentes com essa teoria, conforme Taubes, correspondente da revista "Science", explica no seu livro. Primeiro, não estava claro que as dietas tradicionais eram particularmente magras. Os norte-americanos do século 19 consumiam grandes quantidades de carne. A percentagem de gordura na dieta dos antigos caçadores-coletores, segundo a melhor estimativa moderna, era tão ou mais alta do que aquela da dieta ocidental contemporânea.

Segundo, não havia de fato uma nova epidemia de doenças do coração. De fato, mais casos eram relatados, mas não porque a saúde das pessoas tivesse piorado. Isso se devia principalmente ao fato de os indivíduos viverem mais, e estarem mais propensos a consultar um médico que diagnosticava os sintomas.

Para fortalecer a sua teoria, em 1953 Keys comparou dietas e índices de doenças cardíacas nos Estados Unidos, no Japão e em quatro outros países. Havia, indubitavelmente, uma correlação entre mais gordura e mais doença (os Estados Unidos ficaram no topo da lista). Mas na época os críticos observaram que se Keys tivesse analisado todos os 22 países nos quais havia dados disponíveis, ele não teria encontrado uma correlação (e, conforme observa Taubes, ninguém teria se surpreendido com o chamado Paradoxo Francês: a existência de tantos comedores de foie-gras com corações saudáveis).

A indicação de que os alimentos gordurosos têm uma correlação com as doenças cardíacas "não resiste a uma análise crítica", concluiu em 1957 a Associação Americana do Coração. Mas três anos depois a associação mudou de posição - não devido a novos dados, escreve Taubes, mas porque Keys e um aliado seu faziam parte do comitê que emitiu o novo relatório. Este assegurou que "a melhor evidência científica da época" justificava a adoção de uma dieta com pouca gordura por pessoas com alto risco de doenças cardíacas.

O relatório da associação foi uma notícia importante na época, e fez com que Keys, que morreu em 2004, fosse capa da revista "Time". A revista dedicou quatro páginas ao tópico - e apenas um parágrafo para observar que o conselho dietético de Keys "ainda era questionado por alguns pesquisadores". A matéria da "Time" ditou o tom para décadas de cobertura do assunto pela mídia. Os jornalistas e a população buscavam diretrizes claras, e não ambigüidades científicas.

Depois que a teoria do gordura-é-ruim transformou-se em consenso popular, a cascata de erros se acelerou na década de 1970, quando uma comissão liderada pelo senador George McGovern publicou um relatório aconselhando os norte-americanos a reduzirem o risco de doenças cardíacas comendo menos gordura. "A equipe de McGovern praticamente desconhecia a existência de qualquer controvérsia científica sobre o assunto, e foi escrita por uma pessoa que não era cientista, que se baseou quase que exclusivamente em um único nutricionista da Universidade Harvard, Mark Hegsted", escreveu Taubes.

O relatório impressionou outra não cientista, Carol Tucker Foreman, secretária-assistente da Agricultura, que contratou Gegsted para elaborar um conjunto de diretrizes alimentares nacional. O conselho do Departamento de Agricultura contra o consumo de uma quantidade excessiva de gordura foi publicado em 1980, e mais tarde seria incorporado na sua "pirâmide de alimentos".

Porém, ainda não havia evidências sólidas para justificar a recomendação de que todos os norte-americanos adotassem uma alimentação pobre em gordura, conforme a Academia Nacional de Ciência observou em um relatório pouco após a publicação das diretrizes do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Mas os autores deste relatório foram imediatamente criticados no congresso e na mídia, por negarem um perigo que já fora proclamado pela Associação Americana do Coração, pela comissão McGovern e pelo Departamento de Agricultura.

Apesar das suas credenciais notáveis, os cientistas foram acusados de tendenciosidade porque alguns deles haviam feito pesquisas financiadas pela indústria de alimentos. E, assim, a cascata da desinformação transformou-se naquilo que o economista Timur Kuran chama de uma cascata da reputação, na qual o fato de questionar o consenso popular torna-se um risco para as carreiras dos dissidentes.

Com os cientistas céticos jogados no ostracismo, o debate público e a agenda de pesquisas foram dominados pela escola do gordura-é-ruim. Mais tarde o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos fez uma "conferência do consenso" que concluiu: "Não há dúvida de que as dietas com pouca gordura proporcionarão uma proteção significativa contra as doenças coronárias para todos os norte-americanos com mais de dois anos de idade". A Sociedade Americana do Câncer e o surgeon general recomendaram uma dieta de baixa gordura para prevenir o câncer.

Mas quando as teorias foram submetidas a testes clínicos, não pararam de surgir evidências que as contrariavam. Conforme observa Taubes, a mais rigorosa meta-análise dos testes clínicos das dietas de baixa gordura, publicada em 2001 pela Cochrane Collaboration, concluiu que não havia nenhum efeito significativo sobre a mortalidade.

Taubes argumenta que a recomendação de consumo de alimentos com pouca gordura, além de injustificada, pode até ter prejudicado os norte-americanos, ao encorajá-los a trocar a gordura pelos carboidratos, que ele acredita que provocam obesidade e doença. Ele admite que essa hipótese não está comprovada, e que a moda da dieta pobre em carboidratos poderá se transformar em uma outra cascata de erros. O problema, segundo Taubes, é que a hipótese dos alimentos com poucos carboidratos não foi estudada seriamente porque ela não poderia ser reconciliada com o dogma da dieta pobre em gordura.

Taubes me disse que admira particularmente a iconoclastia do médico Edward H. Ahrens Jr., um pesquisador especializado em lipídios que criticou o relatório da comissão McGovern. Depois disso, McGovern lhe pediu, durante uma audiência, que explicasse o seu ceticismo à luz de uma pesquisa que demonstraria que as recomendações para o consumo de alimentos com pouca gordura haviam sido endossadas por 92% dos "principais médicos do mundo".

"Senador McGovern, eu reconheço a desvantagem de fazer parte da minoria", retrucou Ahrens. A seguir ele observou que a maioria dos médicos que constavam da pesquisa se baseou em conhecimentos indiretos, porque eles próprios não atuavam nessa área.

"Esse é um problema de importância social, econômica e médica tão grande que deveríamos avaliá-lo com os nossos olhos completamente abertos. Assim, eu detestaria ver essa questão ser decidida por qualquer coisa que cheirasse a uma pesquisa Gallup". Ou a uma cascata. UOL

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