UOL Notícias Internacional
 

10/10/2007

Paralisia política faz prosperar os militantes islâmicos paquistaneses

The New York Times
Carlotta Gall*

Em Islamabad, Paquistão
Três dias de fortes combates deixaram em convulsão as áreas tribais do Paquistão e expuseram o que anciãos tribais, políticos e autoridades locais reconhecem ser uma paralisia prolongada do governo em tratar da ameaça dos militantes da Al Qaeda e do Taleban, que brotam na região.

Os combates, os mais pesados em mais de quatro anos, deixaram pelo menos 45 soldados paquistaneses mortos enquanto militantes pró-Taleban e combatentes estrangeiros montavam uma campanha vingativa contra todas as autoridades na área.

Os choques ocorreram após meses de deterioração da segurança, após os militantes terem rasgado os acordos de paz com o governo em julho. De lá para cá, mais de 250 membros das forças de segurança foram mortos em ataques constantes.

Afzal Hussein/EFE -9.out.2007 
Soldados enterram companheiro que morreu durante confrontos com militantes islâmicos

A revolta ressalta as queixas de um grande número de autoridades de que o governo estava tão concentrado em garantir a reeleição presidencial do general Pervez Musharraf que permitiu que a ameaça a segurança não fosse confrontada.

Mesmo após a reeleição de Musharraf no sábado, as eleições parlamentares e a disputa entre o presidente e o governo civil que está assumindo poderia permitir uma piora ainda maior da situação na áreas tribais, eles alertaram.

"Todo o sistema de governo está em risco e as pessoas estão confusas", disse Mehmood Shah, um brigadeiro reformado que serviu como secretário das Áreas Tribais Administradas pela Federação até 2005, sobre a região.

"O governo está totalmente paralisado", ele acrescentou. "Será necessário algum tempo para eles virarem a mesa."

Atualmente, segundo quase todos os relatos, o governo enfrenta dois obstáculos. Após vários anos tentando esmagar os militantes, em 2006 o governo entrou em um acordo de paz com eles e com as tribos locais que os abrigavam. Tais acordos agora foram rompidos.

Ao mesmo tempo, o governo concluiu que não podia derrotar os militantes apenas com armas, disseram as autoridades. A população também é contra outra campanha militar, que ela considera servir a uma agenda americana, não aos interesses do Paquistão.

Enquanto isso, as autoridades ocidentais insistem que se deixados em paz, os militantes e seus aliados da Al Qaeda são mais perigosos, porque podem explorar a liberdade de movimento e o território para treinar e tramar mais ataques no Paquistão, Afeganistão e mesmo no exterior.

A falta de foco e liderança no governo deixou a polícia, burocratas, autoridades tribais e os militares relutantes em agir, disse Shah, mesmo diante dos ataques cada vez mais ousados. Confrontos são relatados quase diariamente, ele disse, e os ataques quase sempre são iniciados pelos militantes.

"Eles estão definitivamente reagindo, não agindo", disse uma autoridade de Defesa ocidental sobre os militares paquistaneses, falando sob a condição de anonimato. O exército paquistanês ainda precisa melhorar muito no treinamento e adoção de uma nova doutrina contra-insurreição, acrescentou outro oficial militar ocidental.

Os militantes e seus aliados da Al Qaeda tiraram proveito da desorganização para disseminar seus ataques e influência em ambos os lados da fronteira afegã-paquistanesa.

Os combates ferozes dos últimos dias, que incluíram bombardeio pela força aérea paquistanesa, ocorreram no Waziristão do Norte, onde militantes locais pró-Taleban e membros da Al Qaeda estabeleceram uma fortaleza desde 2001.

E os militantes continuam enviando combatentes, bombas de estrada e homens-bomba suicidas para o Afeganistão, segundo Seth Jones, da Rand Corp., que recebeu boletins de segurança das forças da Otan e americanas em uma recente visita ao país.

Eles também realizam uma eficaz operação de propaganda e abrigam importantes membros da Al Qaeda, incluindo Ayman al-Zawahri, que acredita-se que esteja na região tribal de Bajaur ou arredores, ele disse.

Os militantes também buscaram reagir às recentes medidas do governo para reforçar as forças de segurança locais e reduzir suas influências na vizinha Província da Fronteira Noroeste e além.

De fato, os militantes estão expandindo sua meta inicial de combater as forças americanas no Afeganistão, acrescentando uma insurreição dentro do Paquistão.

Mesmo enquanto um cerco sangrento entre militantes armados e forças de segurança se desenrolava em julho na Mesquita Vermelha, em Islamabad, a capital, membros tribais realizavam vários ataques contra checkpoints militares e postos policiais por toda a área da fronteira.

Eles então atingiram profundamente o coração do establishment militar e de inteligência com atentados suicidas contra um ônibus de funcionários da inteligência e contra o refeitório de um campo das forças especiais, perto de Islamabad, em 13 de setembro, resultando na morte de 16 soldados.

Aqueles que tentam enfrentar os militantes enfrentam intimidação ou pior. Em 15 de setembro, Maulana Hassan Jan, um conhecido clérigo que foi mentor de muitos talebans, foi baleado e morto nesta cidade de fronteira após condenar um atentado suicida.

A multidão que compareceu para velar o clérigo encheu um estádio. Mas ela voltou sua ira contra as autoridades do governo presentes, incluindo o ministro do Interior, Aftab Ahmad Khan Sherpao, os forçando a partir.

Ainda assim, o governo prefere negociar com os militantes em vez de enfrentá-los, disse o governador da Província da Fronteira Noroeste, um general reformado, Ali Muhammad Jan Orakzai.

"Obviamente nossa prioridade é a paz, porque se não houver paz não haverá desenvolvimento", ele disse em uma recente entrevista na residência do governador, em Peshawar.

O governo quis renegociar os acordos de paz, introduzindo medidas mais rígidas, e conquistar os militantes e a população tribal com a promessa de um programa de desenvolvimento de nove anos e US$ 2 bilhões.

O governador disse que os militares seriam usados quando necessário. Mas ele expressou esperança de que assim que as forças de segurança locais estiverem melhor treinadas e equipadas, o governo poderia retirar as forças armadas das áreas tribais, distribuindo as tropas apenas na fronteira afegã.

Por meses, Musharraf e suas autoridades também têm conversado sobre a necessidade de uma abordagem abrangente, que envolva engajamento político, desenvolvimento e um aumento das forças de segurança locais.

Em apoio, os Estados Unidos prometeram US$ 750 milhões ao longo de cinco anos em assistência para o desenvolvimento e ajuda para treinar as forças de segurança locais, o Corpo de Fronteira e a Polícia de Fronteira.

Javed Iqbal, o secretário suplementar para as áreas tribais, também defende a negociação em vez da ação militar. "O uso da força não nos levará a lugar nenhum", ele disse. Mas o elemento mais importante -o engajamento político- deixa a desejar, dizem muitos na região. "Se houver sinceridade, os anciãos tribais e a população podem mediar e encontrar uma solução negociada para este problema", disse Malik Khan Marjan, um ancião tribal do Waziristão do Norte que lidera um conselho de anciãos. "Mas não há negociações, apenas combates", ele disse.

Marjan chefia o conselho eleito de 67 membros para sua região do Waziristão do Norte. Ao todo, há 476 membros eleitos de sete regiões tribais.

Marjan disse que o governo nunca se importou com o conselho e os membros do conselho nunca se encontraram com o presidente, exceto uma vez, em que assistiram a um discurso. "Ele não teve tempo para nos ouvir", disse Marjan. "Nós não tivemos chance de lhe dizer o que pensávamos. As coisas estão deteriorando e não há decisões, não há consultas."

A situação difícil diante do governo é ilustrada pela captura de cerca de 250 soldados, em 30 de agosto. O homem que os mantém cativos é Baitullah Mehsud, um veterano de combates no Afeganistão. Ele é procurado pelo envio de militantes para o Afeganistão e por dirigir campos de treinamento de militantes, segundo o governador Orakzai. Ele disse que o governo exige que Mehsud liberte os soldados. Até o momento, os anciãos tribais negociaram a libertação de 32 homens e, na semana passada, Orakzai disse que tinha esperança de que eles conseguiriam negociar um fim para o caso.

Poucos dias depois, Mehsud despejou corpos crivados de balas de três soldados em um posto de gasolina, após exigir que os militares cessassem as operações na área.

* Ismail Khan, em Peshawar, Paquistão, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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