UOL Notícias Internacional
 

11/10/2007

Na Nigéria, as cédulas prometem, mas os tiros mandam

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Dacar, Senegal
Um cartaz erguido pelo partido governante da Nigéria para celebrar sua vitória nas eleições de abril paira sobre a rua Aba, na cidade petrolífera de Port Harcourt. "O poder vem de Deus. Obrigado por votar", diz.

Essa noção está a quilômetros de distância das conclusões de um novo relatório sobre a Nigéria, divulgado na terça-feira (09/10), pelo Human Rights Watch, que diz que as verdadeiras fontes de poder na Nigéria são de fato os padrinhos políticos ricos. Eles financiaram uma epidemia de violência nas eleições que matou pelo menos 300 pessoas. E as cédulas não conseguem competir com os tiros das gangues contratadas pelos políticos para fraudar os votos, diz o relatório.

"A conduta de muitas autoridades públicas e instituições do governo é tão completamente marcada pela violência e corrupção que mais parece uma atividade criminosa do que um governo democrático", diz o relatório.

A Nigéria, nação mais populosa da África, tornou-se uma democracia em 1999, depois de uma dura e extensa ditadura militar. A transição, porém, tem sido longa e atribulada, com eleições profundamente corrompidas e pouco desenvolvimento significativo com os bilhões de dólares que fluem das amplas reservas de petróleo do país.

As eleições de abril foram tão seriamente afetadas pela fraude, violência e incompetência que observadores internacionais disseram que não é possível acreditar no resultado -uma vitória retumbante para o Partido Democrático do Povo.

O relatório descreve com detalhes os contratos feitos entre candidatos políticos e os ricos fazedores de reis, que os patrocinam em troca de recompensas dos cofres do governo. Além disso, o documento descreve o meio brutal usado por gangues criminosas para influenciar as eleições, inclusive intimidação e assassinato, nas eleições de 2003 e 2007, ambas marcadas pela violência, fraude e incompetência administrativa.

Anambra, um Estado no sudeste coberto pelo relatório, oferece um exemplo explícito da intersecção da política de apadrinhamento com a violência de gangues. Em Anambra, Chis Uba, poderoso líder do Partido Democrático do Povo, certa vez vangloriou-se de virtualmente preencher todos os cargos eleitos.

O relatório inclui uma cópia de um contrato assinado por Uba e seu protegido Chris Ngige, que venceu a disputa ao governado do Estado em 2003, com o patrocínio financeiro de Uba.

No contrato, Ngige prometeu "exercitar e manifestar absoluta lealdade à pessoa do chefe Chris Uba como mentor, benfeitor e patrocinador" e dar a Uba o controle sobre muitas nomeações e todos os contratos do governo.

O documento refere-se a Ngige como o "administrador" e a Uba como "líder/financiador". Ele dá a Uba o direito de se "vingar, na forma e maneira que julgar adequada", se Ngige não cumprir o trato.

Uba brigou com Ngige pouco depois das eleições e tentou removê-lo várias vezes. Ngige assinou uma carta de renúncia com uma arma na cabeça, em julho de 2003, diz o relatório. Nem Uba nem Ngige foram encontrados para comentários.

Mais tarde, a justiça anulou a renúncia de Ngige, mas em 2006 a Corte Federal de Recursos determinou que ele tinha sido eleito de forma fraudulenta, e seu oponente em 2003, Peter Obi, foi instalado como governador.

As eleições deste ano foram pouco diferentes. O relatório alega que Uba fez seu irmão, Andy, assessor próximo do ex-presidente Olusegun Obasanjo, vencer a primária do partido para governo do Estado, usando uma gangue de rua temida chamada Buccaneers para esvaziar as seções enquanto os membros de gangues marcavam as cédulas.

"Nas primárias, carregamos machadinhas e facões e expulsamos os eleitores que chegavam perto enquanto estávamos votando", disse um membro do Buccaneers ao Human Rights Watch, de acordo com o relatório.

Andy Uba, que foi questionado pelas autoridades de imigração americanas por suspeita de contrabandear US$ 170.000 (cerca de R$ 340.000) para os EUA a bordo do avião presidencial de Obasanjo em 2003, chegou à vitória após a Comissão Eleitoral Nacional Independente desqualificar seus principais oponentes. A justiça mais tarde determinou que Obi tinha sido privado de seu mandato total de quatro anos e o levou de novo ao governo.

O novo presidente da Nigéria, Umaru Yar'Adua, admitiu que houve lapsos nas eleições e prometeu reformar o sistema eleitoral para impedir os abusos.

Apesar dos tribunais terem agido na eleição de Anambra, eles não trataram do problema central do sistema político quebrado, diz o relatório.

"Os autores dos piores abusos de Anambra -inclusive homicídio, posse ilegal de armas e amplas fraudes do processo eleitoral de 2007 no Estado- continuam a apreciar total impunidade por seus crimes", diz o relatório.

Arranjos políticos similares envolvendo padrinhos, políticos e gangues foram detalhados no relatório em três outros Estados, inclusive em regiões do Norte de maioria muçulmana, o Delta do Niger, rico em petróleo, e o Sudoeste irrequieto, lar do povo Yorubá. Deborah Weinberg

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