UOL Notícias Internacional
 

13/10/2007

Um símbolo de liberdade e um alvo para terroristas

The New York Times
Michael Kimmelman

Em Madri, Espanha
No último sábado, no que os parisienses chamam de Noite em Branco, enquanto milhares de pessoas se divertiam nas ruas até o amanhecer, um grupo de intrusos invadiu o Museu d'Orsay em Paris e abriram um buraco em um Monet.

Então, da obscura e ex-bucólica cidade universitária de Lund, no sul da Suécia, veio a notícia de que um grupo de vândalos encapuzados empunhando pés-de-cabra e machados invadiram uma galeria de arte e, ao som de música death-metal, destruíram várias fotos sexualmente explícitas de Andres Serrano.

Enquanto os vândalos parisienses forem em parte contidos por terem sido pegos pelas câmeras de segurança do museu, a gangue sueca se saiu melhor. Ela orgulhosamente divulgou seu crime no YouTube.

Reuters - 02.jun.2006
"Guernica" de Pablo Picasso no Rainha Sofia, na Espanha: um possível alvo?
Assim, outro dia eu parei no Rainha Sofia para ver o "Guernica" de
Picasso. A ameaça de violência não é novidade na Espanha, onde terroristas muçulmanos realizaram um ataque a bomba contra trens lotados há poucos anos, matando muitos, e onde a ameaça de ser morto por extremistas bascos (houve um ataque a bomba em Bilbao na terça-feira, após o fim da trégua com o governo em junho) novamente se tornou parte do barulho cotidiano.

Apenas uma simples barra e um discreto alarme, como descobri quando me inclinei perto demais, separa o público do famoso mural de Picasso sobre um ato de terror de meados do século passado: o atentado alemão à antiga cidade basca de Guernica, em 1936.

A pintura predomina em uma grande galeria de Picassos relacionados, cada um deles um alvo, eu suponho, se você adotar a mentalidade que terroristas, e aqueles que exploram o terrorismo, gostam de fomentar.

Há 26 anos, quando a pintura chegou em Madri vinda de Nova York, ela foi
instalada em uma grande caixa de vidro à prova de balas em um anexo do
Prado, flanqueada por soldados que protegiam o que tinha se tornado um
símbolo internacional do antifascismo. Picasso queria que fosse para a
Espanha apenas após a saída do generalíssimo Francisco Franco. Para qualquer um que se lembrava dela no Museu de Arte Moderna, a visão no Prado era triste e chocante. A pintura parecia abandonada, sufocada. Era quase impossível vê-la.

Ela já foi vandalizada no Museu de Arte Moderna, quando um artista barato
chamado Tony Shafrazi pichou as palavras "Kill Lies All" nela em 1974. Como exemplo da forma assustadora e amnésica como dinheiro e celebridade operam nos Estados Unidos e no mundo da arte, Shafrazi se tornou um marchand rico e poderoso.

A pintura foi transferida há alguns anos do Prado para o Rainha Sofia e
finalmente foi libertada de sua prisão de vidro. Eu nunca amei "Guernica"
para dizer a verdade. Suas ambições elevadas obscurecem os pontos fracos de suas emoções telegrafadas e cubismo exagerado de outdoor, mas o tempo apenas aumenta sua patina de glória para as multidões que vêm comungar com ela e que agora podem quase chegar perto o bastante para (quase) tocar o quadro.

Pacto de confiança

Proximidade é o custo, e virtude, de uma sociedade civil e democrática. Nós corremos o risco de algum lunático ou alguém querendo se promover violar a confiança pública de um espaço aberto por valorizarmos tal espaço como um ideal democrático.

Parte do que é belo em um museu de arte, fora o que está sendo exibido, é que ele implica em confiança -ele nos permite ficar ao lado de objetos que supostamente representam o melhor da civilização e, ao fazê-lo, nos agrada por respeitarmos nosso bem comum.

As queixas de que museus são palácios esnobes e que as obras de arte neles são tratadas como relíquias sagradas podem não estar de todo erradas. Mas elas esquecem que as pessoas vão aos museus em parte para desfrutar deste pacto no qual, como uma sociedade, decidimos lhes atribuir um valor duradouro. Uma arte cuja fragilidade e vulnerabilidade a ataque tornam nossos encontros com ela muito mais especiais.

Mesmo uma galeria de arte comercial que vende arte ruim confia o suficiente no público para permitir que estranhos de passagem pela rua entrem por suas portas para ver o que está pendurado nas paredes. Diferente de muitos museus, as galerias são gratuitas. Freqüentemente elas contam com as melhores exposições da cidade. Você não paga para entrar, nem precisa comprar arte. A única coisa que se espera de você é que não toque nos quadros.

Em julho, em Avignon, uma artista chamada Sam Rindy, deixou uma beijo com batom em uma pintura branca de Cy Twombly, dizendo que melhorou o quadro. Na terça, o advogado de Rindy, explorando uma desculpa francesa óbvia, disse ao tribunal em Marselha que ela foi "dominada pela paixão". O advogado do proprietário do quadro respondeu: "No amor, é preciso o consentimento de duas pessoas".

Touché. Mas a alternativa para uma sociedade aberta não pode ser o que o
Louvre faz com a "Mona Lisa". Todo ano ela parece recuar mais atrás do
vidro. Estacionada, como se estivesse em âmbar, onde guardas podem fazer com que o público passe rapidamente por ela. O quadro não mais parece uma pintura real. É uma estação no cruzamento de um pacote de turismo e um emblema de nossos piores medos e impulsos, o oposto da forma como você experimenta "Guernica".

Poder totêmico

É tentador procurar por uma grande teoria unificada do vandalismo, mas as
motivações específicas das pessoas que atacam arte são claramente tão
diversas quanto os objetos que escolhem atacar. Eu admito que não fiquei
inteiramente surpreso ao saber na manhã seguinte sobre o vandalismo no
Orsay, após ter passado a Noite em Branco em Paris, onde fui acordado às 5 horas da manhã pelo som de foliões bêbados próximos da janela do meu quarto de hotel.

Mas com freqüência maior não são vândalos que danificam arte, mas pessoas com uma suposta causa que desejam se autopromover. Por ora, vamos deixar de lado o oportunismo de artistas que parecem provocar reações. A arte deles pode ser um truque barato, mas isto nunca é uma desculpa para violência.

Tendo em mente a lembrança dos tumultos que ocorreram no ano passado, após a publicação de charges que zombavam de Maomé em um jornal dinamarquês, extremistas da Al Qaeda prometeram recentemente recompensar qualquer um que matasse o editor de um jornal sueco que publicou posteriormente uma charge de Maomé e o artista que a fez. Sem dúvida eles estão desapontados com seu fracasso até o momento em provocar confusão semelhante.

Poderia ser dito que o que incomoda tais terroristas é precisamente a
liberdade que a arte e sua exibição pública representam. Muitos dos
criminosos são puritanos religiosos e sexuais. Eles se ofendem com o poder da arte de encarnar os valores que temem. A arte tem um poder totêmico que remonta as pinturas nas cavernas, algo que é fácil de desdenhar no mundo moderno. Por isso os gregos antigos costumavam acorrentar as estátuas, para impedi-las de fugirem, assim como foi o motivo para cidadãos enfurecidos nas Filipinas terem atacado cartazes de Ferdinand Marcos.

Mas arte também é cara, ainda mais em um mundo da arte comercial cada vez mais enlouquecido, e a combinação de dinheiro e simbolismo significa que atacar a arte ganhará manchetes, diferente de outros atos de vandalismo comuns.

Chamar a atenção é sempre o motivo. O fato dos suecos encapuzados munidos de pés-de-cabra em Lund terem ido direto ao YouTube (o vídeo já foi removido) era previsível e ameaçador, um caso de autopromoção pela Internet que é pequeno em comparação às decapitações no Iraque, mas que contém a mesma idéia: o acesso tecnológico direto promove atos de violência cujo requisito básico é serem vistos.

Graças à sua autoridade histórica, a aura de "Guernica" se tornou como uma bolha ou halo que a separa psicologicamente das multidões que a observam, apesar de não haver mais uma parede de vidro. Parado diante dela, é possível quase imaginar que ela já superou esta fase, historicamente falando; atacá-la agora apenas a tornaria mártir, algo que é indestrutível.

Mas é claro que não é. As motivações específicas das pessoas que atacam arte são claramente tão diversas quanto os objetos que escolhem atacar George El Khouri Andolfato

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