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14/10/2007

Amor Moderno: "ser maduro foi muito confuso para mim"

The New York Times
Peter Levine
Os detalhes do relacionamento eram os seguintes: eu tinha 24 anos, um emprego chato em uma grande companhia de produtos alimentícios perto de Chicago, morava na casa de meus pais em um subúrbio abastado ao norte da cidade, economizando dinheiro para a entrada de um apartamento que afinal não comprei. Ela tinha 41 anos, era uma ex-advogada, divorciada e mãe de três filhos pequenos, um menino e duas meninas. Acontece que ela morava no mesmo subúrbio que minha família, a menos de cinco minutos da minha casa.

The New York Times 

Nos conhecemos em um curso noturno na Universidade Northwestern. Eu pouco sabia sobre ela quando a convidei para sair, somente que tinha um cabelo preto maravilhoso e que havíamos freqüentado a mesma universidade, mas quando surgiu o assunto ela deixou claro que tinha estudado lá muitos, muitos anos antes de mim.

Eu também sabia que desejava aumentar meu currículo sexual; eu tivera a mesma namorada desde o colégio até a faculdade, e poucas experiências além dessa.

Várias semanas depois de começar o curso, mandei para essa mulher um e-mail (encontrei seu endereço na lista da classe), perguntando diretamente se ela queria sair comigo para tomar um drinque. Ela não respondeu.

Na semana seguinte, durante o intervalo da aula, atravessei o campus com ela para tomar um lanche. Era outono no centro-oeste, maravilhoso. O ar cheirava a folhas secas. Parado atrás dela junto à máquina de refrigerante, perguntei se tinha recebido minha mensagem. Ela disse que não.

"Eu lhe mandei um e-mail", eu disse.

"Bem, e o que você disse no e-mail?"

"Eu a convidei para sair."

Uma expressão de pânico invadiu seu rosto e sua bochecha tremeu. "Oh, eu não recebi."

"Bem, e se tivesse recebido, o que teria dito?"

"Eu teria dito sim."

Nos encontramos para tomar um drinque em um restaurante com jazz ao vivo e pouca iluminação. Eu a encontrei na esquina e beijei seu rosto. Pensei que essa fosse a coisa adulta a fazer. Ela estava maquiada e usava um bom perfume. Considerei o fato de ela sair comigo como um sinal de que um encontro romântico mais tarde seria a conclusão inevitável.

Mas ela não tinha as mesmas expectativas. Estava nervosa, balançava a perna embaixo da mesa. "Você é muito jovem", ela disse. "Simplesmente jovem demais. Talvez possamos ser amigos."

Eu disse que isso era besteira, ela já tinha aceitado sair comigo, não havia nada além de alguns anos entre nós. Eu nem sequer sabia quantos anos. Afinal eram 17. Ela explicou que havia algo especialmente ruim no fato de eu não ter nem 25 anos.

Ela falou sobre seus filhos e um pouco sobre o ex-marido, os problemas que tiveram, a dificuldade de ser mãe sozinha. Eu falei sobre mim, contei que meus pais eram divorciados e que realmente não era fácil. Lembrei o quanto eu odiava quando minha mãe saía com outros homens quando eu era criança, o que teria sido uma coisa importante de falar, mas decididamente estranha, por isso não falei.

Saímos daquele bar e fomos para outro. Afinal eu bebi o suficiente para pensar que seria uma boa idéia beijá-la em público, no meio de um bar barulhento. Quando fiz isso, um rapaz, um estudante mais ou menos da minha idade, passou por perto e disse: "Que vergonha..." Nesse momento decidimos que estava na hora de ir embora. Eu acompanhei o carro dela, uma minivan verde-escura, até sua casa.

Saímos durante vários meses depois disso. Ela comprou para mim uma pequena pedra cor de mercúrio que, segundo ela, deveria ajudar minha criatividade.

Preparou um jantar para mim, o que me deixou nervoso -lá estava eu em sua sala de jantar, a mesma onde ela se sentava com o marido e os filhos antes de tudo desmoronar-, e fez sopa de carne com tomate, filé de atum e figos de sobremesa. Eu nunca tinha comido nada disso.

Nosso relacionamento era parcial. Eu não passava as noites em sua casa, nem nos fins de semana, quando seu ex-marido ficava com as crianças, porque dormir lá me deixava nervoso. Nunca conheci seus filhos, o que para mim estava ótimo.

O que fazíamos? Havia os jantares e drinques na cidade, íamos ao jardim botânico, ao cinema...

É claro que minha família achava tudo aquilo ridículo, uma maluquice da minha parte e estranho da parte dela. Os meus amigos, por outro lado, achavam muito bacana. Entre os rapazes existe uma idéia sobre uma mulher mais velha e tudo o que ela pode ensinar, e eles invejavam o fato de eu estar aprendendo.

Na verdade, eu aprenderia com ela algo totalmente diferente do que esperava.

Na véspera de Ano Novo, meus amigos iam fazer uma festa, uma típica bagunça da turma de 20 anos, um barril de cerveja na cozinha de uma casa perto de Wrigley Field. Depois haveria outra festa, organizada pelos amigos ricos dela no subúrbio. Na primeira, meus amigos claramente não sabiam o que pensar dela. Como a segunda festa seria elegante, ela usava um vestido preto chique e eu, um blazer. Meus amigos usavam jeans.

Hoje penso que a coloquei em uma situação terrível, levando-a à festa dos meus amigos. Mas ela estava à vontade. Eu tomei uma bebida, mas ela tomou algumas -parecia que pretendia se embebedar desde o início.

Saímos às 10, dirigimos ao redor do lago, descemos a estrada escura que levava ao subúrbio onde seria a festa de seus amigos, o mesmo onde nós morávamos, e paramos diante de uma enorme casa de pedra à beira do lago.

Lá dentro, um homem alegremente embriagado tocava piano. Havia um grande bufê, um DJ na sala, e ela me apresentou a seus amigos. Eles me olhavam cuidadosamente, avaliando. Ela havia lhes contado sobre mim.

Também tinha me falado sobre eles, algumas transgressões. Por exemplo, sobre uma mulher que tinha um marido e um namorado e estava procurando outro namorado. Todos tinham filhos e muito dinheiro, ou pelo menos foi o que me pareceu.

Depois da meia-noite ela e eu estávamos dançando juntinhos. Ela segurava o que parecia uma taça de champanhe. Fui dar um gole e percebi que era uísque.

Ela havia tomado vários, e explicou com a fala embaralhada que ficou nervosa por conhecer meus amigos e seus amigos me conhecerem. "É difícil ser uma mãe sozinha", ela disse. "Tentar namorar... Encontrar um bom homem não é fácil. Mas eu encontrei você."

Eu peguei a taça e a depositei numa mesa. Disse que devíamos ir embora. Mas ela mal conseguia andar em linha reta.

Lá fora estava gelado, e quando me virei para fechar a porta ela despencou na calçada de pedra. A câmera que tinha levado se abriu. Eu a levantei, peguei a câmera, fomos até o carro e dirigi até a casa dela, onde então tive de carregá-la para dentro e levá-la para cima.

Enquanto fazia isso, pensei: "O que está acontecendo aqui? O que estou fazendo? Isto é como estar de volta na faculdade, só que lá não era tão dramático. Na faculdade ninguém tinha filhos com que se preocupar". Passei a noite lá. Foi preciso. Ela passou mal. Eu a ajudei. Mas sabia que aquilo terminava ali.

No dia seguinte fui embora cedo, e de uma maneira tipicamente masculina, acredito, achei que a melhor maneira de concluir minha saída era simplesmente parar de ligar para ela, o que poderia ter funcionado na faculdade. Mas com ela essa estratégia só funcionou por um dia, e então ela me telefonou.

Eu lhe disse que não podia mais encontrá-la.

Ela disse: "Acho que devemos ter essa conversa pessoalmente. Você está sendo desrespeitoso. Você me deve pelo menos isso". Tinha razão. Então nos encontramos mais tarde em um café, onde expliquei com clichês por que devíamos terminar, que não éramos feitos um para o outro... basicamente mentiras, frases que eu tinha ouvido em algum filme.

Eu não conseguia colocar a verdade em palavras: que o que eu tinha visto me assustara. Que na minha visão de mundo limitada uma mãe de três filhos, uma advogada, não era o tipo de pessoa que se embebedava e tinha de ser carregada para a cama e lavada.

Ainda havia a questão de estarmos no mesmo curso até o fim do semestre, o que eu não sabia como resolver. Comecei a sair com outra garota da classe e enfrentei a situação estranha agindo como se a primeira mulher, a mais velha, tivesse deixado de existir. Eu nem sequer falava com ela. Não encontrei uma maneira melhor de lidar com a situação. Afinal, deixei a cidade para estudar em outra faculdade.

E foi essa distância que permitiu nosso reencontro. Eu liguei para ela, e logo passamos a conversar freqüentemente à noite, depois que seus filhos dormiam e antes que eu começasse a estudar. Há vários anos mantemos essa relação.

Eu lhe dou conselhos sobre seu filho mais velho, cuja idade é mais próxima da minha do que a minha da dela. E ela me dá conselhos sobre namoro, quem diria! Foi ela quem me convenceu a voltar com a mulher com quem estou saindo.

Em uma de minhas últimas visitas à minha família, no feriado de 4 de julho, fui visitá-la e ela me levou com seus três filhos até a praia no lago Michigan para assistir aos fogos. Lá encontramos várias famílias que estavam naquela festa de Ano Novo.

Os adultos estavam sentados em cadeiras sobre a areia, as crianças queimavam estrelinhas e usavam colares plásticos de neon, e depois todos caminhamos até uma casa parecida com aquela da festa de Ano Novo para comer doces e tomar café. Só que desta vez eu não sentia medo; estava contente por estar com ela, contente por conversar com seus amigos e brincar com seus filhos.

Não senti qualquer ansiedade.

Quando eu tinha 24 anos, acreditava numa ordem na vida. Acreditava que as pessoas agiam dentro de um conjunto definido de expectativas, e que se ela e eu estivéssemos destinados a ficar juntos esse relacionamento só aconteceria de acordo com os precedentes, como um romance de verão.

O que nós temos hoje não é mais isso, é claro, mas também não é uma amizade comum. Talvez ainda seja estranha, mas não é mais infantil. Eu pouco sabia sobre ela quando a convidei para sair, somente que tinha um cabelo preto maravilhoso e que havíamos freqüentado a mesma universidade, mas quando surgiu o assunto ela deixou claro que tinha estudado lá muitos, muitos anos antes de mim Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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