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15/10/2007

Desfiles de moda privilegiam modelos brancas

The New York Times
Guy Trebay
Em Nova York
Na época em que os preconceitos raciais eram expressos alegremente, os lápis de cera "cor-de-pele" tinham a cor das pessoas brancas. "Maquiagem invisível" e meias-calças vinham com as tonalidades da pele caucasiana. A decisão dos fabricantes de ignorar amplos segmentos da humanidade não foi contestada durante décadas até que o movimento de defesa dos direitos civis surgiu em cena e os consumidores não brancos começaram a exigir o seu lugar no espectro de cores.

Nicholas Roberts/AFP - 09.set.2007
Modelo veste criação de Diane Von Furstenberg, na Nova York Fashion Week
Atualmente o cenário cultural está repleto de atores, músicos, magnatas da mídia e até um candidato à presidência dos Estados Unidos que fazem parte dos 30% da população norte-americana que não é branca. Mas, uma área na qual as lições sobre a diversidade cromática e racial passaram praticamente desapercebidas foi a moda. Essa realidade nunca esteve mais evidente do que durante o desfile recente das coleções da primavera 2008 em Nova York e na Europa.

Embora as mulheres negras nos Estados Unidos gastem mais de US$ 20 bilhões anualmente com vestuário, segundo estimativas do TargetMarketNews.com, foi difícil perceber qualquer consciência quanto a este fato por parte dos designers que exibiram as suas peças em Nova York, onde há muitos anos não se via tamanha ausência das faces negras nas passarelas.

Dos 101 shows e apresentações anunciados no Sytle.com durante a temporada de desfiles de Nova York, que terminou um mês atrás, mais de um terço não contava com uma única modelo negra, segundo o informativo de moda "Women's Wear Daily". E a maior parte dos outros usou apenas uma ou duas modelos negras. Quando a caravana da moda seguiu para Londres, Paris e Milão, os circuitos mais influentes -como Prada, Jil Sander, Balenciaga, Chloe e Chanel- fizeram com que se tivesse a impressão de que alguém pendurara na entrada um cartaz dizendo: "Modelos negras não precisam se candidatar".

"A situação está pior do que nunca", critica Bethann Hardison, uma ex-modelo que criou uma bem-sucedida agência de modelos na década de 1980, voltada para a promoção da diversidade racial.

Entre as pessoas que ela representou estão Naomi Campbell e Tyson Beckford, o modelo masculino musculoso que rompeu barreiras na década de 1990 ao tornar-se o símbolo inesperado da fantasia country club que é uma campanha Ralph Lauren Polo.

"Atualmente fico desconsolada porque os agentes enviam as garotas para desfilar e ninguém deseja vê-las", afirma Hardison, referindo-se às modelos negras. "E, quando as aceitam, acabam telefonando mais tarde e dizendo: 'Sabe como é, garotas negras fazem muito mais sucesso na Europa". Ou então dizem o contrário, que fazem sucesso nos Estados Unidos, ou ainda algo como, 'Já temos a nossa própria modelo negra'".

"Somente caucasianas"

No mês passado, em Nova York, Hardison participou de um painel de especialistas em moda no Hotel Bryant Park a fim de discutir o tema "A Ausência de Imagem Negra na Moda Atual".

"A área desfiles de moda talvez seja a única indústria na qual existe a liberdade para se referir a uma pessoa pela sua cor e rejeitar o seu trabalho", explica ela. Essa exclusão raramente é sutil. Um agente da firma de modelos Marilyn certa vez contou à revista "Time" que recebeu pedidos de clientes de moda que especificaram sem rodeios: "Somente caucasianas".

Atualmente a mensagem nem sempre é tão contundente, mas não deixa de ser menos clara. Vejamos, por exemplo, o caso de duas jovens modelos, uma branca e uma negra, ambas beldades cativantes no início de suas carreiras. Irina Kulikova, a russa felina de 17 anos, apareceu em nada menos que 24 desfiles em Nova York no mês passado, um sucesso que ela repetiu em Milão, com 14 desfiles, e em Paris, com mais 24. Já Honorine Uwera, uma jovem canadense filha de ruandeses, foi contratada durante a temporada de Nova York para apenas cinco desfiles.

Embora o trabalho de Uwera tenha sido respeitável, não foi suficiente para justificar o custo da sua agência de enviá-la à Europa, onde a maior parte das carreiras das modelos se consolida.

"Nós representamos muitas garotas de diversas etnias", diz Ivan Bart, vice-presidente da IMG Models, que representa diversas modelos altamente bem-sucedidas do momento, entre elas as super-modelos negras Alek Wek, Campbell e Liya Kebede.

"Também temos garotas novas; novatas como Uwera, Quiana Grant e Mimi Roche", acrescenta Bart. "Nós as incluímos nos nossos pacotes de desfiles, as promovemos como qualquer outra garota, mas obtemos a mesma resposta: 'Ela é adorável, mas não é a modelo apropriada para o desfile'".

Embora, na verdade, Roche e Grante, ambas negras, tenham sido vistas em passarelas nas últimas cinco semanas, a realidade é que apenas uma modelo negra trabalhou em algum projeto com a freqüência das suas colegas brancas: Chanel Iman Robinson, 17, que é afro-americana e coreana. Particularmente em Milão e em Paris, a face de Robinson foi com via de regra a única que não era branca em meio a uma multidão de louras da Europa Oriental.

Moda que passou

E não é apenas um punhado de jovens geneticamente privilegiadas que são prejudicadas por tal exclusão. Um número enorme de consumidores obtém as informações sobre moda e identidade a partir das passarelas, juntamente com as indicações a respeito daquilo que, em um determinado momento, a cultura decreta serem os novos contornos de beldade e estilo.

"Anos atrás, as passarelas foram quase dominadas por garotas negras", diz J.Alexander, um juiz do "America's Next Top Model", referindo-se aos maravilhosos desfiles-mosaicos organizados por Hubert de Givenchhy ou Yves Saint Laurent nos anos setenta. "Agora algumas pessoas não têm interesse pela imagem das garotas negras, a menos que estejam trabalhando com um tema de selva e possam fazer com que a modelo use uma saia de palha e diamantes, e empunhe uma lança".

"E algumas pessoas simplesmente não pensam a respeito disso", afirma Diane Von Furstenberg, designer e presidente do Conselho de Designer de Moda dos Estados Unidos. A própria Von Furstenberg sempre contratou modelos de todas as etnias para as suas passarelas (em setembro último ela contratou sete negras, talvez mais do que qualquer outra firma do gênero, com exceção da Baby Phat e da Heatherette). Mas ela é cada vez mais uma exceção à regra não verbalizada da indústria.

"Eu sempre quis fazer isso", diz ela, referindo-se à apresentação de mulheres de cor. "Sou capaz de fazer uma diferença. Todos nós somos. Mas muito do problema tem a ver com educação e falar sobre ele é um importante começo".

A reportem pergunta a ela: "Mas não é estranho que você precise invocar a retórica da inclusão racial em uma época em que Oprah Winfrey é a mais poderosa mulher na mídia, e Barack Obama disputa a presidência?"

"Por que estamos em meio a esse retrocesso?", responde Von Furstenberg com outra pergunta.

Os culpados

Os agentes culpam os designers pela situação atual. Os designers insistem em que os agentes só lhes enviem jovens louras e magras. Os editores das revistas manifestam desgosto pela falta de mulheres negras que tenham aqueles atributos necessários e inexprimíveis para veicular as imagens de uma determinada temporada.

"A atual preferência quando se trata de modelos é pelas "andróides" de traços apagados, cujas aparências não concorrem muito com as roupas", afirma James Scully, um agente com muita experiência, e que se destacou montando os etnicamente diversificados desfiles da Gucci no apogeu da era Tom Ford. "No clima de hoje, é bem mais difícil promover uma modelo negra do que uma branca".

"A gente quer vender a modelo baseado na sua beleza, e não na raça", diz Kyle Hagler, agente da IMG. "No entanto, quando mandando modelos para um cliente e nos baseamos naquilo que chamamos de 'perspectiva de beleza', omitindo aos potenciais clientes qualquer menção à raça, é quase certo que recebamos um telefonema dizendo, 'Vocês não me disseram que ela era negra'".

As razões para isso podem ser óbvias, mas mesmo assim é difícil identificar precisamente o preconceito inconsciente.

"Não estou apontando o dedo e dizendo que as pessoas são racistas", afirma Hardison, que, não obstante, lembra-se de uma recente discussão com uma diretora de criação de uma grande marca de moda: "Ela me disse, 'Tenho que ser honesta com você, quando uma garota caminha, eu simplesmente não vejo cor'. Porém, ela contava com uma única modelo negra, ou, mais provavelmente, nenhuma, no seu desfile".

Hardison retrucou: "Você não vê cor? Será que isso significa que você não deseja ver cor?". Uma área na qual as lições sobre a diversidade cromática e racial passaram praticamente desapercebidas foi a moda UOL

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