UOL Notícias Internacional
 

16/10/2007

Para alguns cubanos, uma parada no México a caminho dos EUA

The New York Times
Marc Lacey*

Em Cortés, Cuba
Os cubanos estão emigrando para os Estados Unidos em número cada vez maior ao longo da última década, e para a maioria deles um novo caminho para chegar ao norte é primeiro seguir para o oeste -para o México- em uma rota tortuosa para evitar a Guarda Costeira americana.

As autoridades americanas dizem que migração, que se transformou em um empreendimento de contrabando que movimenta vários milhões de dólares por ano, aumentou acentuadamente porque muitos cubanos perderam a esperança de que Raúl Castro, que em 2006 assumiu como presidente no lugar de Fidel, seu irmão, promoverá as mudanças que melhorarão suas vidas. As autoridades cubanas argumentam que a emigração é mais econômica do que política e é alimentada pela política de Washington que recompensa os cubanos que entram ilegalmente nos Estados Unidos.

Na verdade, diferente dos mexicanos, centro-americanos e outros que seguem para a fronteira sudoeste dos Estados Unidos, os cubanos não precisam entrar furtivamente. Eles precisam apenas chegar até as autoridades americanas na fronteira, tirando proveito da frouxa vigilância mexicana, e fazerem uso da política "pé molhado, pé seco" de Washington, que lhes possibilita se tornarem cidadãos permanentes caso consigam chegar até solo americano.

Adriana Zehbrauskas/The New York Times 
Pessoas chegam e partem do porto de Isla Mujeres, México

Isto é o que Jose Luis Savater, 45 anos, um reparador de refrigeradores de Havana, fez no início de outubro para chegar ao sul da Flórida, que continua sendo a meta para a maioria dos emigrantes cubanos.

Foram necessários quase quatro dias para Savater chegar a Isla Mujeres, México, uma ilha costeira, em um frágil barco de madeira, fibra de vidro e alumínio movido por um motor de irrigação agrícola adaptado. Os 15 homens e uma mulher que os acompanhava se revezavam no baldeamento de água.

"É extremamente perigoso", contou Savater por telefone de Cancún. "Eu me vi morto. Eu sofri bastante."

Mas seu próximo passo foi bem mais fácil: um vôo para Matamoros, uma cidade de fronteira vizinha de Brownsville, Texas, com a ajuda de dinheiro enviado de parentes no sul da Flórida. Algumas autoridades americanas estão chamando esta nova abordagem -cubanos caminhando até os postos de fronteira no deserto e pedindo asilo político- de pé empoeirado.

As estatísticas deixam claro que os cubanos agora acreditam que apesar de ser consideravelmente mais longa, a rota pelo México, com saída da minúscula aldeia litorânea de Cortés e outros novos pontos de partida na costa oeste de Cuba, aumenta suas chances de chegar até Miami. Quase o dobro -11.487- a seguiu no ano fiscal de 2007, encerrado em setembro, do que no ano fiscal de 2005.

Em comparação, a Guarda Costeira interceptou apenas 2.861 cubanos cruzando o Estreito da Flórida no ano fiscal de 2007, e 4.825 outros driblaram as autoridades americanas, chegaram a solo americano e, de acordo com a política "pé molhado, pé seco", pediram asilo, segundo a Guarda Costeira.

Os números mostram que no ano fiscal de 2007, a emigração da ilha atingiu seu nível mais elevado desde que 35 mil cubanos partiram em um êxodo em massa em 1994.

"O motivo para as pessoas estarem dispostas a arriscar suas vidas para
deixar Cuba é a falta de esperança e expectativas", disse Sean Murphy, o cônsul geral americano em Havana, aos repórteres no início de outubro.

A nova rota não está apenas desviando emigrantes. Contrabandistas também a estão usando, resultando em disputas territoriais que supostamente estão por trás de série de mortes de cubanos nos últimos meses na Península de Yucatán, onde muitos dos emigrantes desembarcam. Tal área também é repleta de narcotraficantes e há o temor de que os dois negócios possam se fundir.

A nova rota atraiu a atenção de autoridades por toda a região, já que os cubanos às vezes saem da rota e chegam a outras ilhas do Caribe ou mais ao sul, na América Central.

Manuel Aguilera de la Paz, o embaixador de Cuba no México, disse aos repórteres no início de outubro que a emigração está no topo da agenda enquanto México e Cuba buscam melhorar relações estremecidas, que levaram os dois países a brevemente convocarem seus embaixadores de volta em 2004.

Em Washington, Thomas A. Shannon Jr., o secretário de Estado adjunto para o Hemisfério Ocidental, expressou preocupação tanto com a imigração quanto com os assassinatos em Yucatán, que estão concentrados nas proximidades da cidade resort de Cancún. "Há um tipo de luta em andamento entre gangues", ele disse sobre a violência. Ele chamou a nova rota de "um fenômeno recente".

A maioria concorda que as patrulhas agressivas da Guarda Costeira no Estreito da Flórida levaram os emigrantes a optaram pela nova rota. Tais patrulhas aumentaram depois do êxodo de 1994, que levou o governo Clinton a adotar a política "pé molhado, pé seco". A Guarda Costeira devolve os emigrantes que são pegos no mar para Cuba, onde as autoridades dizem que eles não sofrem retaliação.

"É praticamente uma missão impossível ir diretamente para Miami", disse uma autoridade americana que monitora o assunto, mas que não estava autorizada a falar a respeito.

Mas no México a costa é bem menos patrulhada e, segundo alguns, as
autoridades locais são bem mais propensas a fazerem vista grossa por um
suborno.

A costa leste rochosa de Isla Mujeres, uma ilhota próxima de Cancún, é um local popular de desembarque. Apesar da presença de um posto da Marinha mexicana, os barcos cubanos desembarcam regularmente. "Nós estamos à procura de traficantes colombianos, não de cubanos", disse um marinheiro mexicano que montava guarda no ponto mais alto da ilha.

As autoridades mexicanas disseram que quando a Marinha intercepta as embarcações com imigrantes contrabandeados, a maioria deles em situação difícil, elas são escoltadas até a costa. Os contrabandistas são presos e seus barcos apreendidos.

Mas os imigrantes são na maioria dos casos multados e soltos. Eles têm 30 dias para deixar o país, tempo mais que suficiente para seguirem seu caminho rumo norte.

As redes de contrabando também se tornaram mais sofisticadas. Os
contrabandistas operam de Miami, com representantes nas costas de Cuba e do México, disseram especialistas. Eles utilizam telefones por satélite, de forma que as transferências dos imigrantes são feitas com precisão militar.

Abrigos foram montados ao longo da costa mexicana para ajudar os cubanos a evitarem as autoridade mexicanas e evitarem pagar a multa. Um cubano que chegou ao México disse que ficou impressionado com quão organizada era a operação.

Arroz e feijão cubanos o aguardavam na chegada ao México. Em questão de
dias, ele estava a caminho da fronteira do Texas com instruções sobre o que precisava dizer para entrar rapidamente nos Estados Unidos. Normalmente os imigrantes cubanos são entrevistados por agentes que checam suas histórias e os documentos que apresentam, assim como prestam atenção ao sotaque distinto deles. Então, se não tiverem antecedentes criminais, os cubanos geralmente são autorizados a entrar no país. Após um ano, eles recebem a condição de residência permanente.

As embarcações usadas também melhoraram. Os barcos que deixavam Cuba costumavam ser os piores imagináveis: tubos amarrados juntos, barcos enferrujados movidos a motores de carro, remos ou até mesmo, em pelo menos um caso, um cortador de grama.

Apesar de muitos, como Savater, ainda viajarem desta forma, pelo preço certo os cubanos atualmente podem embarcar em lanchas modernas com três motores de 275 hp.

"Eles parecem que podem voar", disse um pescador da costa sudoeste de Cuba que já avistou os barcos e falou deles com certa inveja no olhar.

Os barcos chegam a um ponto pré-determinado na costa cubana, promovem um embarque rápido e partem, com um preço para o serviço expresso que
ultrapassa US$ 10 mil em muitos casos. Algumas pessoas -a maioria homens jovens que conhecem bem a costa- são autorizadas a embarcarem sem a necessidade de pagar o preço total, segundo cubanos com conhecimento do negócio, mas precisam prometer ingressar na rede de contrabando e voltar para recolherem mais emigrantes.

As autoridades cubanas raramente impedem os barcos a tempo. Elas montam checkpoints militares ao longo da costa e impedem os moradores locais de pescarem ao longo de alguns trechos de praia para poderem cuidar das novas rotas de fuga. Mas o fluxo continua, em grande parte em praias remotas na metade ocidental da ilha.

"O México fica naquela direção", disse um pescador perto de Cortés,
retirando seu barco do mar em um ponto popular de contrabando e apontando para o oeste. "Aquela é a nova saída."

Quando as autoridades cubanas vêem um barco partindo, elas usam
alto-falantes para alertar sobre os riscos da viagem e pedem a todos que voltem. Mas os barcos raramente voltam, se é que algum já o fez. Se um barco parece se dirigir para a Flórida, elas informam a Guarda Costeira americana. Se parece a caminho do México, elas não têm o que fazer.

"Eu fico atento", disse um jovem recruta da guarda costeira cubana em
Cortés, que estava no que parecia uma torre de salva-vidas com 9 metros de altura para uma melhor vista. Apesar de dispor de binóculos potentes, o trecho de costa a ser vigiado era vasto.

Mais a oeste, em outro centro de contrabando de emigrantes, Cabo Frances, o exército montou uma base na praia e pendurou um galho de árvore no único ponto de entrada, com uma pequena placa a declarando uma zona militar. Os moradores locais foram avisados para não pescarem ali até o problema estar sob controle.

Como outras coisas na relações entre Estados Unidos e Cuba, a migração está atolada em clima hostil.

Havana culpa Washington pelo êxodo, dizendo que a autorização para os cubanos que chegam ilegalmente aos Estados Unidos permanecerem de forma permanente fornece o incentivo para as pessoas arriscarem suas vidas no mar. As autoridades cubanas também se queixam de que Washington só emitiu apenas 15 mil vistos, dos 20 mil que prometeu segundo um recente acordo de imigração, para permitir que os cubanos entrem legalmente.

Os Estados Unidos têm uma visão diferente. As autoridades americanas dizem que a repressão do governo é o motivo para as pessoas estarem dispostas a arriscarem suas vidas no mar. E elas dizem que as autoridades cubanas não permitiram que a Seção de Interesses Americanos em Havana contratasse pessoas suficientes para lidar com toda a documentação para os vistos.

No México, há uma aceitação dos cubanos pelos moradores da costa com um toque de ressentimento. "É triste que um mexicano não possa entrar nos Estados Unidos se chegar até a fronteira e um cubano possa", disse Alba Rios, uma moradora de Isla Mujeres que notou o aumento significativo de cubanos de Miami na ilha para ajudar os imigrantes.

Alguns mexicanos estão até mesmo tendo idéias com os cubanos. Um comércio de documentos de identidade cubanos está se desenvolvendo, e alguns emigrantes mexicanos agora estão praticando sotaque cubano e ensaiando histórias dramáticas que pretendem contar aos agentes da Patrulha de Fronteira americana sobre os horrores que sofreram em Havana.

*Elisabeth Malkin, na Cidade do México, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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