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16/10/2007

Websites de extremistas islâmicos têm como alvo os cibernautas dos Estados Unidos - parte 1

The New York Times
Michael Moss e Souad Mekhennet*
Quando Osama Bin Laden divulgou a sua mensagem gravada em vídeo para o povo norte-americano no mês passado, um jovem entusiasta da jihad se mobilizou para ajudar a disseminar a notícia na Internet.

"Os Estados Unidos precisam ouvir Shaykh Usaamah com muita atenção e levar a sua mensagem bastante a sério", escreveu ele no seu blog. "Os Estados Unidos são conhecidos por serem uma nação de arrogância".

Ao contrário de Bin Laden, o bloguista não operava a partir de uma
localização remota. Ele é um norte-americano de 21 anos de idade chamado Samir Khan que produz o seu blog na casa dos pais, na Carolina do Norte, onde atua como uma espécie de estação repetidora ocidental para as produções multimídia dos grupos islâmicos violentos.

Michael Moss/The New York Times 
Silhueta de Samir Khan retirada de vídeo em que ele dissemina mensagens de Bin Laden

Nos últimos dias, ele publicou as "boas novas" de um líder militante
norte-africano cujo grupo matou 31 soldados argelinos. Samir Khan divulgou um tratado defendendo a jihad violenta, traduzido para o inglês. Ele listou centenas de links para sites secretos nos quais os leitores podem obter os últimos vídeos sangrentos dos insurgentes iraquianos.

O seu site bem organizado também inclui um arquivo chamado "Estados Unidos dos Perdedores", que mostra uma recente gravação a respeito de um combate no Afeganistão com o comentário acrescentado por Khan: "Dá até para ver um soldado norte-americano se escondendo como um bebê durante uma emboscada! AllahuAkbar! AllahuAkbar!".

Khan, que nasceu na Arábia Saudita e cresceu no Queens, em Nova York, seria um soldado improvável naquilo que a Al Qaeda chama de "mídia jihadista islâmica". Ele foi criado em uma família de classe média nos Estados Unidos e se desentende com os seus preocupados pais a respeito do seu fervor religioso. Mas ele é teimoso. "Me esforçarei ao máximo para falar a verdade, e ainda que isso aborreça os descrentes, a verdade precisa ser pregada", disse Khan em uma entrevista.

Embora nada sugira que Khan esteja atuando de forma orquestrada com os
líderes militantes, ou violando qualquer lei, ele faz parte de um universo crescente de operadores de mídia aparentemente independentes que divulgam a mensagem da Al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que é cada vez mais elaborada, traduzida e dirigida a uma platéia ocidental.

Especialistas em terrorismo em West Point afirmam que existem pelo menos cem sites em língua inglesa deste tipo juntamente com o de Khan, que alega contar com 500 leitores regulares e ser um dos mais ativos. Embora seja difícil avaliar o alcance desses websites, é evidente a partir de uma análise do material extremista e de entrevistas que os militantes procuram atrair jovens muçulmanos norte-americanos e europeus ao capitalizar a raiva destes em relação à guerra no Iraque e à imagem de um islamismo sob ataque.

Longos e entediantes discursos em árabe são reeditados em ofuscantes
produções em inglês. Os textos sobre recrutamento são divulgados em diversas línguas, como por exemplo uma versão eletrônica em inglês de 39 páginas de um livreto que roga às mulheres que juntem-se à luta contra o Ocidente.

Existem até contos online como "Rakan Bin Williams", sobre um grupo de
cristãos europeus convertidos que ingressaram na Al Qaeda e "prometeram a Deus que carregarão a bandeira dos seus irmãos distantes e buscarão a
vingança contra os pecadores".

Militantes muçulmanos estão transformando fitas de baixa qualidade mostrando explosões de carros-bomba em vídeos com música hip-hop e montagens, tudo isso disponível em sites como o YouTube, o festival de vídeos da Internet.

"É como se você visse um filme de Hollywood", afirma Abu Saleh, uma alemão de 21 anos que é fã dos vídeos da Al Qaeda e que visita os ciber-cafés de Berlim duas vezes semanas para ver os mais recentes lançamentos. "A Internet modificou totalmente a forma como vejo as coisas".

Uma Estratégia para a Internet
A Al Qaeda e os seus seguidores têm utilizado a Internet há anos para se comunicar e obter apoio, mas nos últimos meses o teor ocidental das
mensagens e a sofisticação da mídia utilizada se intensificaram. E também a quantidade de produções. Desde o início do ano, o departamento de operações de mídia da Al Qaeda, Al Sahab, vem divulgando novos videoteipes a cada três dias, mas uma quantidade ainda maior vem do Iraque, onde os insurgentes os produzem diariamente.

Essa linha de produção é o legado de um homem: Abu Musab al-Zarqawi, o
ex-líder da Al Qaeda no Iraque que foi morto em junho de 2006 por bombas norte-americanas.

Al-Zarqawi descobriu o poder da Internet na prisão, segundo um ex-colega militante que foi encarcerado com ele na Jordânia uma década atrás. O grupo de 32 islamitas presos, ligados a Al-Zarqawi procurava recrutar outros prisioneiros por meio de um jornal manuscrito, o "Al Tawheed", quando descobriu uma platéia maior.

"Nós enviamos os textos para fora, aos irmãos na Europa e na Inglaterra, que os publicaram em jornais de websites militantes, disse o colega de al-Zarqawi, que pediu para não ser identificado porque está envolvido com atividades islamitas.
JIHADISTAS NA WEB
Reuters
 
PARTE 2


No Iraque, al-Zarqawi adotou a videocâmera como arma de guerra. "Ele decidiu que todo grupo deveria possuir uma câmera de vídeo, e que todas as operações deveriam ser gravadas", disse um militante palestino que foi para o Iraque em 2005 para ensinar combatentes estrangeiros do Marrocos e de partes da Europa a construir bombas e montar artefatos explosivos nas beiras das estradas.

Dois oficiais de inteligência libaneses confirmaram que o palestino, cujo nome de guerra é Abu Omar, trabalhou no Iraque com al-Zarqawi, e que ele reproduziu um vídeo dos combatentes estrangeiros no Iraque para repórteres do "New York Times".

Abu Omar, 37, um homem musculoso que portava uma pistola Glock 21 no cinturão da sua calça camuflada durante uma entrevista na sua casa no Líbano, disse que al-Zarqawi também fez com que ele gravasse as aulas de fabricação de bombas, para que esse conhecimento não se perdesse caso ele fosse morto.

"Tínhamos dois cinegrafistas, pessoas que aprenderam como fazer esse trabalho antes de irem para o Iraque", contou Abu Omar. "E, após as filmagens, contávamos com outras casas na área onde produzíamos os vídeos".

Dahia al-Maqdassi, 26, um palestino que disse ter produzido vídeos de insurgentes no Iraque há dois anos, afirmou: "Em cada cidade no Iraque existe um pequeno escritório no qual alguém faz operações de filmagem". Ele descreve a sua "seção de mídia" como sendo uma casa perto de Fallujah na qual trabalhavam de seis a dez indivíduos. "Nós terminávamos os filmes e, a seguir, os enviávamos aos websites jihadistas", contou Maqdassi. Um dos sites mais influentes é o Tajdeed, com sede em Londres e administrado pelo médico e dissidente saudita Muhammad Massari. Durante um lanche em um McDonald's próximo à sua casa, Massari afirmou que os vídeos da insurgência de al-Zarqawi no Iraque inspiraram produções locais como "Dirty Kuffar", o termo árabe para designar os descrentes. O vídeo de 2004, com música rap, mistura imagens de líderes ocidentais e de soldados norte-americanos soltando exclamações de satisfação ao matar a tiros civis iraquianos feridos.

Massari, que ajudou a promover o vídeo, disse que produções mistas similares logo se seguiram e chegaram ao seu website.

"Eu nunca mexo nos vídeos que estão nos meus fóruns", garantiu Massari, que usa um longo robe branco árabe. "Alguém da Al-Qaeda os envia, provavelmente a partir de cibercafés, para sites protegidos por senha. A seguir ele telefona para um amigo, digamos, na Austrália ou em Brasília, e diz, 'Oi, Johnny, sua mãe está viajando hoje'. Esse é o código para baixar o vídeo. Esse procedimento é seguido algumas vezes, sem deixar nenhum traço, até que alguém coloque um link no meu site".

*Contribuíram para esta reportagem, Michael Moss, da Jordânia, do Líbano, da Alemanha, de Londres e da Carolina do Norte; Souad Mekhennet, da Jordânia, do Líbano e da Alemanha; e Margot Williams e Hoda Osman, de Nova York. UOL

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